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quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Casa vazia, um atraente poema audiovisual


A quantidade de filmes da estirpe de Casa vazia (Bin jip, 2004) é ínfima, seja qual o for o tempo cronológico que se leva em consideração. O filme de Kim Ki-Duk é uma grande aula de como fazer do cinema uma genuína instância de fruição e filosofia, apresentando personagens tão intensos quanto inquietantes. Sua estética conjuga planos esplêndidos e uma direção delicada, que faz o público permanecer fixo na poltrona até que seus 88 minutos sejam levados a cabo. A narrativa é um tênue fio que se dilata ao longo desse tempo, e imerge o espectador em uma trama de densidade e ardor incomuns. Chama a atenção, desde o início, a escassez de diálogos que atravessa a projeção, demonstrando que a arte da palavra pode ser suspensa em prol de uma outra maneira de se contar uma história: usando o poder incomensurável da imagem.

Tae-suk (Hyun-Kyoon Lee) não está nem um pouco satisfeito com a vida que leva. Seu emprego como entregador de panfletos lhe é tedioso, e ele quebra sua rotina de repetições invadindo casas vazias. Suas invasões, porém, não se parecem com assaltos. Ele apenas passa a noite em casa habitação, aproveitando-se da ausência temporária dos donos, que, normalmente, justifica-se por viagens. Nessas permanências transitórias, aproveita para realizar pequenos consertos nos objetos quebrados que encontra, assim como lava a roupa suja de suas "vítimas". Numa dessas invasões, percebe depois que a casa está ocupada por uma mulher que chora. Então, ele descobre que ela está vivendo dias difíceis, insatisfeita com sua própria vida, assim como ele. Essa mulher, que só é nomeada perto do final do filme, sofre com a violência do marido, um homem de rompantes que é capaz de agir rude e docemente em instantes seguidos.

O encontro dos dois personagens é um divisor de águas na vida de ambos, e nos apresenta um dos (não)casais mais envolventes e ternos que o cinema recente já nos trouxe. Como cabe a um contexto cultural sul-coreano, os gestos de cada um são contidos, na medida em que são praticados dentro de um arco de atitudes de certa limitação. Na verdade, Ki-Duk trafega em uma estrada cuja mão é oposta a de Park Chan-Wook em Old boy (idem, 2003), um apanhado de violência com trama mirabolante. Casa vazia inspira a contemplação, e tem uma premissa absolutamente simples, salpicada por insights poéticos que o transformam em uma experiência agradável, bela e, por vezes, incômoda. O diretor foge a concepções esquemáticas e a didatismos, sem optar, contudo, para o hermetismo, narrando sua história de modo enternecedor. Os personagens se reservam a falar o mínimo possível. Na verdade, Tae-suk jamais diz uma palavra, e sua amada diz apenas o frase o filme inteiro. Somente os demais interlocutores dos personagens esboçam mais diálogos.



Com as conversas em rarefação, sobram sequências em que o protagonista vivencia uma rotina de invasões silenciosas, pontuadas por uma adorável trilha sonora incidental. A parcimônia adotada pelo diretor pode ser enfadonha para plateias afeitas ao imediatismo, mas vale bastante fazer uma concessão, ao menos uma vez em toda a carreira de cinéfilo, ao convite diferenciado feito pelo diretor. Seu estilo aproxima o cinema da pintura, arte na qual Ki-Duk também se aventura, resultando numa larga produção de quadros, alguns deles tamém compondo os cenários do filme. Aliás, ele repete um estilo que já havia apresentado, pelo menos, em seu filme pregresso, o lancinante Primavera, verão, outono, inverno... e primavera (Bom yeoreum gaeul gyeoul geurigo bom, 2003). Ambos apresentam uma estrutura cíclica, sendo este uma construção do aprendizado de um monge a partir das quatro estações do ano. Entretanto, a proposta de Casa vazia é mais palatável, permitindo ao espectador entrar na história mais facilmente. Nem por isso, todavia, o filme é mais ordinário.

Trata-se, na verdade, de um filme de insígnias, em que as palavras, portentosas em outras produções, aqui se demonstram insuficientes para a experiência intensa de contato com cada sequência sua. Casa vazia é o reino do imagético e do sensorial, no seu sentido mais amplo, que abarca a sensação tátil do filme, não apenas a visual e a auditiva. É como se fosse possível ter e ao mesmo tempo não ter nas mãos as belas composições de planos orquestradas pelo cineasta. É tudo feito com muita habilidade e sutileza, e a atenção para o desenvolvimento da trama é imprescindível. Perto do seu final, surge uma frase que ajuda a lançar o filme em uma densa névoa de mistério e volatilidade, questionando se, nesse início nebuloso de milênio que vivemos, tudo pode ser só sonho ou só realidade. Essa citação ajuda a deixar tudo mais interessante, e funciona como um convite à reflexão acerca de tudo o que se passou pela tela até ali. São instantes de fruição e fluidez como esse que fazem de Casa vazia, bem como de Kim Ki-Duk, originais e empolgantes, fazendo o apreço pelo seu cinema ser totalmente justificável.

Conferindo alguns dados sobre a biografia do realizador, descobre-se que ele não tem formação técnica na área de cinema, mas se vale de um conhecimento empírico fantástico para imprimir uma qualidade notável às suas obras. No filme em questão, não é diferente. Há uma clara predileção pela subversão da narrativa convencional, o que não significa idas e vindas no tempo, mas uma ambiguidade na costura das cenas e uma tentativa de assimilação dessa grandeza convencionada em sua liquidez. Casa vazia não se tem nas mãos. É filme que se persegue, que se degusta em fatias finas, como a uma deliciosa iguaria. O conselho para se desfrutar dele com bom aproveitamento é optar pela entrega total e irrestrita e deparar com um belo poema audiovisual contemporâneo.

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