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sexta-feira, 28 de outubro de 2011

E sua mãe também: o caminho acidentado da falta de planejamento

Dentre os vários retratos sobre a juventude pintados pelo cinema, E sua mãe também (Y tu mamá también, 2001) pode ser visto como um dos mais atrevidos que já se concebeu. O filme de Alfonso Cuarón celebra a inconsequência, apontando seu foco para um trio de jovens cuja grande razão de viver é exatamente viver como se não houvesse amanhã. Julio (Gael García Bernal), Tenoch (Diego Luna) e Luisa (Maribel Verdú) são a incontinência encarnada, e levam seu desejo de testar os próprios limites até às últimas consequências. Eles são jovens, ativos e cheios de fôlego, e não hesitam em fazer o que a vontade lhes impõe à hora que for. Os dois rapazes são grandes amigos, daqueles que não se furtam da companhia um do outro para nada, e ficam desorientados quando suas respectivas namoradas viajam para o exterior.



Decorre dessa separação temporária de seus pares a busca por aventuras que os preencham nesse tempo de afastamento, o que os leva a conhecer Luisa, a volúpia em forma de mulher. Eles têm uma aproximação rápida durante um evento para o qual Julio é convidado e, dali em diante, seus caminhos estarão definitivamente entrecruzados. A verdade é que os dois amigos encontram na moça a correspondência perfeita para a libido aflorada que os hormônios em ebulição lhes provocam. Logo, os três partem em uma viagem sem destino exato, que sintetiza a condição de caminhantes pelas estradas do desejo que lhes convém naquela fase da vida. Cuarón declara seu amor pela juventude com E sua mãe também, e parece querer lavar a própria alma e a de outros jovens que compartilham da sofreguidão diante do sexo oposto, bem como os dilemas de experimentação. Sua câmera nervosa persegue o trio de protagonistas por veredas acidentadas, evidenciando que seu lema é a improvisação. Não interessa a Julio, Tenoch e Luisa medir as consequências do que estão fazendo, mas apenas viver e extravasar.

A associação recorrente entre sensualidade e latinos é atestada através desse filme, que coloca seus personagens em várias cenas de nudez, que deixam enxergar seus corpos clamando por sexo, com uma voracidade da qual o cinema, via de regra, não se vale. Essas cenas, a propósito, são a vitamina do roteiro escrito pelo diretor em parceria com Carlos Cuarón. Logo na abertura, há uma dessas cenas, envolvendo Julio e sua namorada, de quem ele quer se despedir com uma bela cópula. Em outras passagens do filme, veremos o envolvimento sexual de Julio e Tenoch com Luisa, que acontece em momentos diferentes para cada um. Ainda assim, o traço aproximativo da união corpórea entre eles é a intensidade com que ela se dá para ambos. O sexo entre os jovens é tão afoito quanto desajeitado, o que demonstra a imaturidade do trio para lidar com as demandas que seus corpos declaram, tanto quanto a sua inabilidade para correlacioná-las aos desvarios de seus corações, que elegem vontades não muito simples de serem transformadas em realidade. Cuarón nos faz ver o quanto eles são inábeis diante de seus próprios anseios, e do quanto lhes custa aprender a lidar consigo mesmos e com os outros. A inexperiência é sobressalente, mas não os impede de buscar licenciosamente o que desejam saber. Com isso, o público depara o tempo todo com relações sexuais e até mesmo com uma despudorada sequência de masturbação entre os amigos.

Na verdade, Tenoch, Julio e Luisa têm um ponto de chegada na viagem que fazem. Entretanto, ele não importa tanto quanto a viagem em si, que vai se revelando transformadora para ambos. Em meio às querelas e a agonia de querer que os toma, eles consumam suas excitações sem a menor cerimônia, deixando que seus hormônios os controlem. Cegos de desejo, eles chegam a comprometer os códigos de conduta que criam, e colocam em risco a amizade que construíram quando em fins da infância, talhada à força de muitas vivências em comum. E sua mãe também faz notar que, diante das intempéries, as amizades podem ruir ou ficar mais fortalecidas, e que as pequenas rusgas e dissonâncias podem ser nada mais que fomentadoras de uma comunhão ainda mais estreita entre eles. Relações interpessoais forjadas em meio a vicissitudes podem ser ainda mais resistentes. E, no fundo, Luisa surge no caminho dos dois amigos como uma ponte para a manifestação de alguns desejos que eles não ousariam expor se estivessem unicamente na presença um do outro.



A jornada empreendida pelo trio é plena de ocasiões para o aprendizado. Eles não são mais os mesmos depois daquela viagem, e suas vidas pregressas parecem ser apagadas depois dessa confluência de destinos (?). Nem tudo está ao alcance de suas mãos, e eles vão se dando conta, aos poucos, que não é possível viver eternamente com passos jamais calculados e delimitados. A figura de um narrador onisciente em off auxilia nas análises que se podem fazer das atitudes que cada um deles vai tendo. O diretor, por vezes, recorre à elipse para demarcar alguns pontos da narrativa, que apontam para a impossibilidade de sair incólume daquela aventura toda. Não há via de saída para eles que não inclua um tanto de dor e perda, e isso também é aprender a crescer e amadurecer. Nesse sentido, mesmo as ressalvas que se possam fazer – como sua excessiva duração e suas soluções não tão aceitáveis – deixam de apresentar relevância. No cinema, mesmo certa convicções pessoais podem ser abrandadas em prol da fruição estética e da adesão ao pacto ficcional.

E sua mãe também foi filmado com um orçamento irrisório para os padrões dos grandes estúdios: 5 milhões de dólares. Seu diretor vinha de poucos filmes pregressos, dentre os quais os de mais expressão tinham sido A princesinha (The little princess, 1995) e Grandes esperanças (Great expectations, 1998). O filme em questão foi bastante elogiado, e é um exemplar claro de road movie, daqueles em que se pode ter a sensação semelhante à de estar em plena estrada, com o vento forte batendo na cara. Vários foram os prêmios concedidos por festivais internacionais e associações de críticos, em cidades como Boston, Seattle, Dallas, Londres e outros. Posteriormente, Cuarón assumiria a direção de Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban (Harry Potter and the prisioner of Azkaban, 2004), considerado por muitos, ainda hoje, o melhor filme da série sobre o feiticeiro. Em seguida, dirigiria Filhos da esperança (Children of men, 2006), ficção apocalíptica esnobada injustamente pelo público e pela crítica. Seus atores, por sua vez, também oferecem grandes interpretações. É interessante conferir Bernal e Luna em seus primeiros papéis, ainda com uma longa estrada de acertos pela frente. Assim como Verdú, que transpira carisma e sedução com suas entradas em cena, sob a pele de uma personagem no melhor estilo caliente. Os caminhos e descaminhos de seus personagens são como retas que se cruzam e se afastam, e denotam um filme que celebra a inconsequência, com uma vida de passos jamais calculados e vontade pulsante.

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