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quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Colocando a convivência à prova em Feliz Natal


Da recente safra de atores brasileiros que se aventuraram atrás das câmeras, Selton Mello talvez seja o mais afeito à contação de histórias simples e comoventes. Ele é tributário declarado do cinema argentino, porquanto procura pautar seu filme no conceito de revolução interior que tanto aparece nas produções do país que nos é tão próximo geografica e afetivamente. O tema e o cenário escolhidos são de interesse perene: as relações familiares e a comemoração da mais famosa das festas cristãs. Feliz Natal (idem, 2008) é um emocionante olhar sobre a dor de estar perto e de estar longe, e sobre o quanto a família tem peso nas atitudes e na formação de um indivíduo, ora acolhendo-o, ora confrontando-o.

Fixado na figura de Caio (Leonardo Medeiros), o cineasta aborda a volta para o lar. O protagonista é como o filho pródigo, que vem novamente ao seio da família para um reencontro com sua gente. À diferença do personagem da parábola bíblica, entretanto, Caio não retorna por ter se arrependido de uma vida de excessos que não poderia ter tido se permanecesse em contato com a família, mas porque reconhece, de alguma maneira, que suas origens estão naquelas pessoas. Como denota seu título, a ocasião do filme é a comemoração de mais um Natal em família, época em que muitos se permitem o exercício da hipocrisia, muito mais do que em qualquer outro momento do ano. Sentindo que precisa reaver a proximidade perdida com irmãos e pais, ele vai à casa de Mércia (Darlene Glória), sua mãe, onde estão reunidos vários convivas que fizeram e fazem parte de sua trajetória de vida. Como é de se esperar, o retorno de Caio para casa não é tão simples. Há um terreno bastante acidentado a ser percorrido por ele.

Feliz Natal é um filme com uma história simples que exala humanidade pelo seu componente de identificação. Qualquer um pode se sentir no lugar do protagonista em algum momento e, mesmo que nem todas as suas atitudes sejam dignas de aprovação. E é exatamente essa posição centrífuga ao maniqueísmo que fortalecem o filme e o revestem de uma aura triste e verossímil. Graças também aos seus intérpretes, a estreia de Mello na direção de longas é vigorosa, e é ótima a sensação de se estar diante de uma obra madura que dialoga com o seu público de maneira sutil e profunda. O filme é uma das provas de que o cinema brasileiro tem grande valor, e não deve ser preterido o tempo todo em favor de produções estrangeiras. No Brasil, como em qualquer outra nação, o cinema tem suas derrapadas, mas também apresenta grandes acertos, e Feliz Natal decerto merece ser incluído entre os casos felizes. É justamente a direção de atores o aspecto de mais qualidade do filme.



Darlene Glória, sem dúvida, é a grande estrela da produção. Por mais que o protagonista seja vivido por Leonardo Medeiros, é a veterana atriz que nos brinda com um desempenho memorável. Sua Mércia é passível de ser amada e odiada, e oferece uma mistura de impavidez com desamparo que acendem a luz da comoção no público. É desolador saber que ela figura entre as atrizes talentosas e de longa carreira que não têm tido grandes chances de brilhar, à semelhança de Norma Bengell. Seus confrontos com Caio e o personagem de Lúcio Mauro Filho, que vem a ser ex-marido de Mércia. São grandes momentos para a atriz, que sabe ser portentosa e fulgurante, além de demonstrar sabedoria nos instantes em que a cena não lhe pertence. Na verdade, cada um dos atores de Feliz Natal tem uma grande chance de apresentar seu valor, como se o diretor tivesse pensado friamente em vários solos de interpretação para distribuir ao longo das cenas. Assim o é com Graziela Moretto, que chega a encarar uma cena rápida de nu frontal, que foi o estopim para que seu namorado Pedro Cardoso escrevesse um radical manifesto contra a nudez.

O foco do filme, como se pode notar para quem assiste a ele, é a grande dificuldade de entendimento entra familiares. No contato entre Caio e sua parentela, os laços sanguíneos são colocados à prova o tempo todo, e tornam possível a associação do filme de Mello a outro grande exemplar de cinema de lavagem de roupa suja, o provocativo Festa de família (Festen, 1998). Ambos podem ser postos em cotejo pela capacidade de corrosão que apresentam, e pelo componente de exame das lacunas que existem entre palavras e ações que possuem. Feliz Natal se debruça sobre a incomunicabilidade, sobre feridas cujas cicatrizações podem ser crônicas, e que são endossadas pelo ótimo roteiro escrito pelo diretor em parceria com Marcelo Vindicatto. Os diálogos são de uma veracidade urgente, e podem chegar a incomodar pela maneira dura e crua com que são travados. A realidade familiar apresentada pelo filme é bastante vizinha à de muitos, e o filme ainda pode servir como trampolim para o comentário dos assuntos com a família de cada um.

Associado ao roteiro e aos ótimos intérpretes, está a bela fotografia assinada por Lula Carvalho. Ele tem um importante currículo de filmes nacionais recentes que ganharam vários elogios do público e da crítica, entre os quais estão Crime delicado (idem, 2005), em que foi assistente de câmera, O céu de Suely (idem, 2006), em que operou a câmera, e Tropa de elite (idem, 2007), em que acumulou esta última função à de diretor de fotografia propriamente dita. Os espaços clicados por ele em Feliz Natal são inebriados por uma aura de embriaguez e decrepitude. É incrível perceber que os matizes pensados por Carvalho ofereçam tão intensamente o aspecto de abandono e desesperança que acometem os personagens. As sombras encobrem os seus rostos e amplificam suas dores internas, bem como a dificuldade de cada um de exteriorizar suas alegrias e agonias para os demais. Esse desalento também está expresso na dolorida trilha sonora incidental, que pontua os ínterins de apogeu dramático da narrativa, assim como na imagem do ferro-velho de onde Caio retira o seu sustento, e que aparece mais longamente na última sequência, carregada de impacto e intensidade.

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