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terça-feira, 25 de março de 2014

Casablanca, o amor além da passagem do tempo

"It's still the same old story 
A fight for love and glory  
A case of do or die 
The world will always welcome lovers  
As time goes by"

"Ainda é a mesma velha história
Uma luta de amor e glória
Um caso de fazer ou morrer
O mundo sempre dará boas-vindas aos amantes
Com o passar do tempo"


Os versos melancólicos de As time goes by dão o tom da história de amor e desalento narrada em Casablanca (idem, 1942), clássico absoluto que já arrebatou legiões de fãs plenamente identificados com seus protagonistas. A cena inicial do longa-metragem de Michael Curtiz já mostra a história em pleno andamento. Em seu café, Rick (Humphrey Bogart) recebe ilustres frequentadores e pede ao amigo e pianista Sam (Dooley Wilson) qu toque uma vez mais sua canção predileta. O estabelecimento se localiza em uma cidade do  Marrocos e o período histórico é a Segunda Guerra Mundial. À época, o local era rota de fuga para quem desejava ficar longe dos nazistas, e essa posição confortável fez de Rick um alguém omisso, desligado dos problemas do mundo ao seu redor. Sempre que confrontado de alguma maneira, ele prefere destilar seu humor irônico e não se comprometer com quem quer que seja, mantendo-se um homem de poucos amigos e de raros gestos efetivos.

Essa postura desencantada em relação à vida é resultado de uma paixão interrompida, que ele viveu alguns anos antes em Paris, cidade-símbolo do romantismo. A mulher que fisgou seu coração é Ilsa (Ingrid Bergman), e as circunstâncias os obrigaram a se afastar repentinamente, mas o passar do tempo não foi capaz de anular o sentimento dentro dele. Apenas por esses indícios, observa-se a vocação de Casablanca para falar aos corações e, antes que se possa pensar em um filme de condução melosa e texto piegas, cumpre ressaltar que essas não escolhas da direção nem do roteiro, escrito a dez mãos. Normalmente, quanto mais pessoas incumbidas de escrever um roteiro, menores as chances de ele ser ótimo, mas não é o caso aqui. Tudo se equilibra perfeitamente, resultando em uma narrativa de emoção genuína, que se sobrepõe aos aspectos técnicos, embora esses também sejam muito bem trabalhados. O que dizer da trilha sonora composta de músicas tão inesquecíveis e tradutoras do estado de espírito dos apaixonados?

A história de Casablanca não é original. Sua base é a peça de teatro Everybody comes to Rick's ("Todo mundo vem ao café de Rick"), mas não há dúvidas de que a versão cinematográfica superou a teatral e hoje permanece com lugar de honra entre os clássicos. Alternando o presente tristonho de Rick com o seu passado idílico ao lado de Ilsa, a trama conquista não por recorrer a alguma estratégia mirabolante de condução, mas por sua simplicidade profunda. É nítido o quanto o olhar do barista feneceu com o passar do tempo, e o mérito está com Bogart, ator dos mais requisitados do seu tempo, que fazia da economia expressiva a pedra angular das suas interpretações. Por outro lado, Bergman está no auge da sua beleza e encarna uma mulher falível e confusa, o que a torna extremamente humana. Seu lindo rosto ainda enfeitaria outras produções em que o amor é ingrediente essencial, como Interlúdio (Notorious, 1946), rodado apenas quatro anos depois. Ambos foram escolhas felicíssimas de Curtiz, cuja carreira profícua ganhou projeção maior depois desse trabalho.


Diante de um filme sobre o qual tanto já se discorreu e cujas qualidades já foram várias vezes atestadas, é difícil não ser repetitivo. O longa permanece há tempos na lista dos melhores não só do cinema estadunidense, mas de outras nacionalides, e as justificativas são as que já se apontaram nessa crítica, ao mesmo tempo, uma tentativa de súmula da obra e um convite aos seus espectadores em potencial. Aliás, ser cinéfilo inclui ter visto Casablanca, sob pena de não fazer jus ao título. Dele, saíram frases míticas que se tornaram quase rifões populares, tamanha a sua força. "Nós sempre teremos Paris" talvez seja a mais lembrada de todas elas, e sintetiza o modo resignado com que Rick passa a encarar seu relacionamento com Ilsa depois que eles se reencontram em seu bar. Sim, eles se veem mais algumas vezes graças a uma coincidência que faz Ilsa parar em seu bar, mas a conjuntura em que vivem agora impede uma aproximação mais intensa. Ela chega ao café junto ao marido, Victor (Paul Henreid), para comprar documentos que lhes permitam viajar sem problemas até a cidade neutra de Lisboa e, de lá, chegar aos Estados Unidos.

Até então, Rick era um homem incapaz de se comprometer, mas surge uma outra revelação do seu passado que ajuda a explicar o seu cinismo e amargura presentes. Alguns anos antes, ele se envolveu em um esquema de tráfico ilegal de armas para a Etiópia usando seu café como fachada e combatendo assim a invasão italiana de 1935 e a Guerra Civil Espanhola para a Segunda República Espanhola. Não é um homem tão neutro, afinal, e guarda seu arrependimento em um compartimento bem secreto do coração até antes do retorno de Ilsa, que reacende todas as desilusões do passado como se tudo tivesse acontecido no dia anterior. No fim das contas, os dois amantes são personagens complexos, com suas nuances de caráter, longe de um perfil heroico tradicionalmente construído na literatura e no próprio Cinema desde há muito. Mesmo com todas essas subversões em suas personalidades, o espectador pode se ver na torcida pelo amor dos dois, quase palpável em sua força, mas a escolha de Curtiz é mais realista e dolorida. Em todo caso, as lembranças durarão a vida inteira, e sempre existirá a oportunidade de fazer o pedido: "Toque de novo, Sam".

10/10

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