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domingo, 8 de setembro de 2013

Possibilidades e incertezas na aridez em Estranhos no paraíso

Estranhos no paraíso (Stranger than paradise, 1984) é apenas o segundo trabalho de Jim Jarmusch na direção. Lá se vão quase trinta anos desde o lançamento do filme, e ele já apresentou vários outros exemplares de sua maneira muito peculiar – sem eufemismo – de observar as pessoas e o mundo à sua volta. Entretanto, nesse segundo trabalho suas marcas ainda se apresentam em estado seminal, configurando o que mais tarde viria a ser entendido e conhecido como o seu modus operandi, por assim dizer. Antes de mais nada, ele prefere investir na ausência de cores para se concentrar em sua paródia sensacional ao manjado American way of life. Para isso, criou três atos protagonizados por personagens cujas condutas bizarras vão demarcar suas atitudes, bem como a falta delas. Cada um desses atos recebeu um nome, que condiz com o trecho da história que apresenta. E são eles que apontam para as escolhas de um diretor que toca em certas feridas quando menos se espera e do modo que menos se pressupunha.  

Em linhas gerais, eis a sinopse do filme: Béla (John Lurie), um húngaro que vive em Nova York e se recusa a ser chamado pelo próprio nome, recebe a visita de sua prima Eva (Eszter Balint), a qual vai passar alguns dias na sua casa e com quem ele não se dá muito bem depois da receptividade inicial. Posteriormente, eles vão visitar tia Lotte (Cecillia Stark), e Eva se cansa de morar com o primo, ficando na casa da tia em Cleveland. Enfim, Béla, chamado Willie, e seu amigo Eddie (Richard Edson) voltam a Cleveland para buscar Eva, e o trio empreende uma viagem à ensolarada Flórida. Cada um dos trechos comentados está inserido em um dos atos do filme, e responde pelo seu brilhantismo. Acima de tudo, Jarmusch faz um estudo do tédio, sentimento do qual parece não haver escapatória, e dialoga diretamente com um longa que lhe é contemporâneo, o portentoso O estado das coisas (Der Stand der Dinge, 1982). Ambos se comunicam por causa da inclinação para retratar personagens e situações estagnadas, e as consequência nem sempre (des)agradáveis da falta ou da ilusão de movimento. Entretanto, a abordagem de Jarmusch é muito mais minimalista que a de Wenders, que ainda pincela metalinguagem em seu trabalho.

Não tardou para que, depois de Estranhos no paraíso, o cineasta fosse apontado como um dos grandes expoentes do cinema indie (abreviação no diminutivo para independente, vale dizer) estadunidense. A etiqueta lhe cai bem e, paradoxalmente – é uma etiqueta, afinal – confere grande liberdade ao seu trabalho, sempre muito criativo. Antes desse, ele havia dirigido o semidesconhecido Permanent vacation (idem, 1980). No caso do filme em análise, fica claro o seu talento para enxergar tipos curiosos na selva urbana e lançar sobre eles um olhar perscrutador e cativante. Estranhos no paraíso é daqueles filmes que extraem poesia das situações mais ordinárias, seja causando comoção, seja despertando incômodo no sentimento de inércia. Os três personagens principais alcançam o espectador à medida que vão se tornando conhecidos, sem que, contudo, sejam completamente desnudados. Há sempre algo a descobrir a respeito de Willie, Eva e Eddie, e esse é um dos sustentáculos do interesse pelo filme, um termo que chega a soar curioso diante de uma história permeada pelo tédio. No fundo, Jarmusch pode ser incluído naquele grupo de diretores que elegeu seu(s) tema(s) favorito(s) e está sempre em busca de novas leituras para ele(s), sem esgotá-las a cada novo enredo.


O sentimento aterrador da modernidade que assola os personagens é o grande catalisador de seus deslocamentos, que reafirmam o tempo todo a condição de andejos em que eles se encontram. É como se, através do nomadismo, eles tivessem a chance de romper com a monotonia. Entretanto, o que realmente os faz menos entediados são as viagens em si, e não as chegadas ou as partidas. Uma vez instalados em determinado lugar, eles vão sendo corroídos novamente pela tal monotonia, e precisam sair de cena para caminhar rumo a outros recantos. É assim que todos eles migram pelo menos uma vez, e vão descobrindo que o ar de novidade só existe quando se está na estrada, perfeitamente metaforizável como a vida e seus inúmeros caminhos. E Jarmusch aponta suas lentes para incomunicabilidade, possivelmente o mal do século em que vivemos. Esse mal é perceptível nos diálogos esparsos e banais de Willie, Eva e Eddie, que, por vezes, teorizam sobre as vicissitudes da vida ou sobre eventos corriqueiros como uma aposta em cavalos.

Os planos-sequência de Estranhos no paraíso são um espetáculo à parte. Cada cena compreende um plano, e, toda vez que é preciso mudar de cena, também se muda de plano, com um ligeiro corte negro entre cada uma. Esse recurso confere a mescla paradoxal (novamente o termo) de estaticidade e movimento ao filme, e simboliza longos intervalos entre os pensamentos de alguém que está imerso na contemplação. Eis uma prova de que Jarmusch, logo em sua primeira produção, triunfa tanto dramatica quando tecnicamente. E, como foi dito anteriormente, há indícios de temas que ele abraçaria novamente em seus filmes seguintes, como Sobre café e cigarros (Coffee and cigarettes, 2003) e Flores partidas (Broken flowers, 2005). O tempo só fez bem ao diretor, que refina sua estética particular e sua relação de inquietude paciente com o cinema como poucos de sua geração. Por mais que a ação seja quase nula em seu primeiro filme, ele nunca se torna sonolento ou desinteressante. Muito pelo contrário: sua atratividade está em sua lentidão, uma característica que, quando bem usada, rende lindas pérolas, como é o caso desse aqui. O realizador nascido em Ohio nos apresenta a conjugação genuína entre poesia e minimalismo, e pontua suas observações algo melancólicas sobre a vida e as pessoas – seu grande foco de atenção – com a extravagância e a verossimilhança de um examinador arguto.

9/10

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