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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Investigações sobre o olhar ilusório ou Dublê de corpo

O ator de filmes B Jake Skully (Craig Wasson) é um quarentão cujo calcanhar de Aquiles está em sua claustrofobia. Logo na primeira sequência de Dublê de corpo (Body double, 1984), esse problema psicológico o aflige a ponto de ele não conseguir completar uma cena rodada no interior de um caixão. O olhar assustado que identificamos é do próprio Jake, e não de seu personagem vampiro. Aos poucos, percebemos que o sentido da visão ocupa o cerne do filme de Brian De Palma, exímio narrador de tramas costuradas com o tecido da metalinguagem, seja pelos filmes dentro dos filmes, seja pelas citações/homenagens a grandes mestres do Cinema. O olhar se revela cada vez mais importante depois que Jake se vê obrigado a procurar um lugar para ficar após descobrir a traição da esposa, a qual flagra em sua cama. Ele é ajudado por Sam (Gregg Henry), que lhe oferece a possibilidade de passar alguns dias em um casa com uma vista deslumbrante e uma arquitetura que remete a uma espaçonave.

Dali, Jake tem um panorama privilegiado, e Sam lhe chama a atenção para o espetáculo particular de uma moradora do prédio em frente, despertando a porção voyeur do ator. Com o auxílio de uma luneta, ele pode conferir a dança sensual executada pela misteriosa mulher todos os dias no mesmo horário, e esse fascínio é rondado por um certo perigo que se vai revelando pouco a pouco a ele. A observação atenta do personagem, nessa fase da trama, apresenta uma das referências oferecidas por De Palma. De frente para uma vizinha atraente, Jake faz lembrar o protagonista de Janela indiscreta (Rear window, 1954). Longe de seu amado ofício, ele tem todo o tempo do mundo para se preocupar com o ambiente ao redor e, na busca meticulosa, acaba encontrando uma motivação para passar os seus dias. Essa é a principal das citações de Dublê de corpo, mas o realizador não se restringe a elas. Seu discipulado hitchcockiano, no desenrolar dos acontecimentos, soma-se a uma leitura exegética de toda uma concepção de cinema policial e de suspense, capaz de manter a plateia de olhos bem abertos.

O filme pode perfeitamente ser correlacionado com outro exemplar de sua carreira filmado apenas três anos antes: Um tiro na noite (Blow out, 1981). Nele, John Travolta era todo ouvidos na sanha de solucionar um mistério envolvendo a morte de um político. Portanto, se a audição dominava este, Dublê de corpo se mostra como uma investigação acurada sobre as possíveis armadilhas engendradas para a visão. Jake cai em uma delas, e sua curiosidade quase suicida o leva por caminhos tenebrosos, em que a farsa se insinua o tempo todo, compondo um intrigante jogo de aparências e representando um flerte bem arquitetado com o Cinema noir, pródigo em cultivar ilusões e, a partir de certa altura, desfazê-las. Ao se propor a descobrir sobre o homem que está aterrorizando sua vizinha, ele acaba conhecendo e se aproximando de Holy Body (Melanie Griffith, no auge da beleza), uma atriz pornô cujo codinome descarado é parte do mistério que atiça o interesse de Jake. A dança atrevida da personagem é simplesmente idêntica à de Gloria, a moradora do prédio em frente, e esse detalhe está longe de ser coincidência.



De Palma faz de seu protagonista um arquétipo do herói destemido que fura bloqueios e rompe sistemas com a disposição de quem deseja entender o que está acontecendo ao seu redor. Enquanto investiga, ele é obrigado a lidar com seu maior medo, em uma sequência atordoante passada dentro de um passagem fechada que contribui para dimensionar o espectador na ótica sufocada através da qual Jake enxerga o mundo. Os ambientes restritivos lhe são uma praga, e um simples elevador, para ele, é uma fonte de angústia profunda. Em decorrência da claustrofobia do personagem, o filme é atravessado por espasmos visuais clicados por Stephen H. Burum, que voltaria a colaborar com o cineasta nos anos seguintes, em títulos como Os intocáveis (The untouchables, 1987) e O pagamento final (Carlito’s way, 1993). A paleta de cores saturadas também é notória na construção da fotografia do longa, que também oferece tons obscuros, sobretudo pela abundância de sequências noturnas.

Infelizmente, Wasson se afastou das telas há alguns anos. Dublê de corpo é um dos seus grandes trabalhos, se não o maior, resultado de uma incorporação brilhante do personagem. Griffith é outra que, à época do filme, vivia sua fase áurea, encerrada no início da década seguinte. Sua Holy é uma explosão de libido e intensidade que acende o desejo de Jake, mas ele está em busca da resolução de um mistério que o consome. A parceria entre ambos é outro acerto proporcionado por De Palma, para quem o thriller é um gênero fecundo no que tange à possibilidade de apresentar sua visão de Cinema. Em uma entrevista para promover Passion, mais um de seus filmes, no Festival de Veneza de 2012, o realizador afirmou que o prazer do thriller é juntar um mecanismo rico em estratagemas e descortiná-lo apenas no final. E Dublê de corpo é um thriller legítimo, que analisa o olhar ilusório e mantém o fôlego até o seu ato derradeiro. No equilíbrio entre fobia e obsessão, o longa se mostra um eficiente estudo de personagem e uma apaixonada imersão em um universo assinalado por um envoltório metalinguístico.

9/10

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