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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

4:44 - O fim do mundo, quando nada mais resta

Condição inerente ao homem, a finitude atravessa 4:44 - O fim do mundo (4:44 Last day on Earth, 2011), lançado diretamente em DVD no mercado brasileiro e exibido no Festival de Veneza. O que fazer quando se sabe exatamente o momento em que todas as coisas fenecerão? A pergunta é tão inquietante quanto universal, e Abel Ferrara se dispõe a examinar com admirável minimalismo os efeitos devastadores dessa consciência. Cisco (Willem Dafoe) e Tina (Natasha Lyonne) são os protagonistas através do qual o realizador aborda a temática: no espaço exíguo de um apartamento, os dois extravasam o quanto podem seu desencanto. Ele, um ator de meia idade. Ela, uma artista plástica ainda jovem. Um casal cuja crise é externa, ocasionada pela iminência do fim. Na impossibilidade de transformar o curso dos acontecimentos, eles se fecham em si mesmos e se recolhem à sua insignificância ante o mundo. Restam apenas os cacos. Em pequenos desfalecimentos, seus corpos somatizam uma angústia que palavras não dão conta de exprimir.

Qualquer tentativa de responder ou justificar o ambiente de fim próximo é deixada de lado por Ferrara. Sua câmera sôfrega apenas vislumbra os espaços percorridos por Cisco e Tina, privilegiando close-ups sempre reveladores da incerteza sobre a certeza. Sim, é sabido que o fim virá. Mas como é o fim? O paradoxo está instaurado sobre a Terra. No último dia do mundo, sobram indagações cujas soluções, provavelmente, condizem com o próprio fim. Somente quando ele chegar será possível sabê-lo e entendê-lo. A ênfase do longa é em um planeta exatamente como se conhece atualmente, longe de qualquer atmosfera futurista que compreende um filão de produções voltadas para o porvir. Os telejornais noticiam o inevitável, sintetizando a miríade informacional a que somos expostos hodiernamente. De que vale a cobertura das horas derradeiras? Haveria audiência disposta a encará-la? A falta de sentido creditada à existência nunca foi tão flagrante.

Nada de meteoros, invasões alienígenas ou colisões. Apesar de ter hora marcada, o fim do mundo não tem motivo específico. E, a cada um, basta a noção de que tudo se acabará, um fato ao qual se pode reagir de muitas formas. Cisco e Tina são apenas dois entre tantos. Não há qualquer singularidade que os torne acima ou abaixo de todos os demais. Encontros com os amigos, conversas sem grandes ambições: tudo ficou esvaziado, anódino. O caos é calmo e silencioso, o que reveste 4:44 O fim do mundo com uma atmosfera quase insuportável. Na incerteza completa, até o respirar se torna difícil. Que dirá o próximo passo. Essa alta carga dramática é bem defendida por Dafoe e Lyonne, praticamente os únicos personagens em cena. Os demais são apresentados como nuvens esfumaçadas, com poucas falas e quase impessoais. Na pele de Cisco e Tina, eles não têm sequer um ao outro: cada um buscará a sua maneira de lidar com a proximidade dos instantes finais, o que também faz do longa um pertinente estudo sobre o antiquíssimo problema da incomunicabilidade, o qual, talvez, tenha nascido juntamente com a própria espécie humana. Os sentidos estão à flor da pele e expressá-los em palavras é extremamente desafiador.



É curioso notar que o filme de Ferrara é contemporâneo de Melancolia (Melancholia, 2011), produção de Lars Von Trier que versa sobre a mesma temática com certa similaridade em sua abordagem. Ambos os filmes apostam em um fim intimista, que buscam traduzir em uma arquitetura imagética inebriante o desencanto com o mundo a existência. Por outro lado, o fim do mundo em Ferrara é apresentado em sua literariedade, por assim dizer, ao passo que, em Trier, o mesmo assunto é uma imensa alegoria para o sentimento compressor detonado pela depressão, sintetizado na figura da protagonista Justine (Kirsten Dunst), a desilusão em forma humana. Presos no ensimesmamento, os personagens principais dos dois longas se despedem de si mesmos e do mundo, e a sensação de esperar pelo que não se deseja só atormenta ainda mais. Cada qual à sua maneira, todos estão experimentando o seu canto de cisne. Trata-se de uma situação-limite como a de uma doença terminal, que redimensiona posicionamentos, assim dizem os que a vivenciam. O que fizemos de nós mesmos e do mundo? A pergunta ressoa e a resposta não vem de lugar algum: permanece dentro de seus autores.

Nesse cenário de últimas horas, até mesmo a tentativa de contato se mostra vã. Ainda assim, há quem procure uma forma de se comunicar com quem ama, tal qual faz o garoto a quem Cisco e Tina permitem usar o computador para falar com sua família. O fado trágico é para todos, mas se dirigir a pessoas com as quais se mantêm laços afetivos parece mitigar essa verdade, como se funcionasse como uma anestesia geral para o coração destroçado. O fato vindouro gera uma perspectiva dúplice: há os que preferem a espera do último minuto e há os que, incapazes de suportar que o fim chegue no momento marcado, dão cabo de suas vidas. Cisco assiste a um dos representantes dessa categoria em pleno ato, completamente impotente e atordoado. Sob o olhar amargo de Ferrara, tudo é resto, é fragmento, é pedaço, é caco. Existe ainda uma ponte com A árvore da vida (The tree of life, 2011) pela via do contraste. Ferrara vislumbra o fim inevitável de tudo o que existe e se conhece. Malick se volta para o início de todas as coisas. Em ambas as direções, o mistério da vida, a olhos naturais, soa inexpugnável. Restam apenas conjecturas, elucubrações e uma constelação de dúvidas.

AVALIAÇÃO: ****

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