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terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Dentro de casa, um passeio pelos interstícios do fazer literário

O fazer literário é o mote sobre o qual se debruça Dentro de casa (Dans la maison, 2012), mais um exercício de estilo cuja direção cabe a François Ozon. Seu habitual interesse por diálogos com premissas desgastadas e gêneros cinematográficos é regido pela metalinguagem nessa produção, cujo protagonista é Germain (Fabrice Luchini), um professor de Literatura do Ensino Fundamental que, há muito, perdeu a fé em seus alunos. Ao corrigir redações, percebe que lhes faltam ingredientes básicos para a construção de uma narrativa, e se frustra com a disparidade entre seus ensinamentos e os resultados. Jeanne (Kristin Scott Thomas), é testemunha de seu desencanto e procura fazê-lo reencontrar a motivção dentro de sua rotina. Entretanto, o estado das coisas só se altera quando da entrada em cena de Claude (Ernst Umhauer), um garoto de 16 anos que faz parte de uma de suas turmas e lhe desperta o interesse por sua maneira peculiar de escrever.

A partir de então, Germain quer saber mais sobre o rapaz e decide lhe dar lições extras, incentivando o seu prazer pela escrita e pela elaboração de ficções. O problema está no ponto de partida que Claude adota para desenvolver suas tramas. Ele age como um voyeur da intimidade de um dos seus amigos, examinando de perto o cotidiano de uma família comum de classe média pela qual desenvolve um misto de fascínio com obsessão. Está iniciado um jogo de contornos psicanalíticos que, em vez de frear o entusiasmo de Germain, acende-o ainda mais. A cada nova aula, o menino traz mais detalhes sobre aquela casa, cuja mãe, Esther (Emmanuelle Seigner, enfim competente), responde pela curva oscilatória de desejo e repulsão no interior do adolescente. Esse sentimento perpassa a sua narrativa, deixando-a ambígua e fazendo seu mestre perplexo trecho após trecho. E a cisão de Germain, a certa altura, é entre seguir nutrindo o interesse do garoto pela família ou acionar seu arcabouço moral para fazê-lo interromper aquela observação invasiva.

O grande achado do filme é a forma irônica com a qual lida com seu argumento. Ozon dá a trama ares de suspense cômico, rejeitando a opção pela obviedade, no sentido de puxar o tapete do espectador quando ele começa a acreditar que os sentimentos e as ações dos personagens já foram devidamente identificados. Claude é um garoto bem mais complexo do que sua aparência leva a supor, e seu comportamento entrega apenas parte do que vai em sua mente. Por vezes, a relação de amizade que ele mantém com o filho único da família que é alvo de seu interesse sugere um desejo homoerótico, mas nunca chega a ser possível afirmar categoricamente que seja esse o seu caso. Mesmo porque, ele também lança olhares algo libidinosos para Esther, que, segundo ele, exala um cheiro de mulher de classe média, uma colocação que se abre a interpretações múltiplas, tanto laudatórias quanto pejorativas. Em outras palavras, a incerteza ronda Dentro de casa, e o realizador parisiense não abre mão de imprimir um tom jocoso à obra, costume que cultiva desde sua estreia no Cinema e que, em certos trabalhos, é mais perceptível, como fora o caso de 8 mulheres (8 femmes, 2002), ao mesmo tempo uma declaração de amor aos musicais e um deboche das tramas policialescas.



O teor metalinguístico de que o longa está impregnado, por vezes, remete ao estilo de Pedro Almodóvar de conceber filmes e livros dentro de seus filmes, a exemplo que fez em Má educação (La mala educación, 2004) e Abraços partidos (Los abrazos rotos, 2009), só para mencionar casos recentes: cores fortes, tipos dúbios e fartas doses de passionalidade. Ozon está interessado em desnudar os interstícios da construção ficcional, abarcando o fascínio e a fadiga que coexistem nessa empresa com a habilidade de um narrador que atenta para as frestas. Através da curiosidade exacerbada de Claude, o cineasta demonstra que o cotidiano, em sua trivilidade, pode funcionar como um manancial de boas histórias quando se alia à narrativa uma preocupação com a dimensão estética. O garoto se apropria da estrutura familiar para redigir suas elucubrações, e exercita um lado um tanto cruel na lida com a matéria-prima vivente que se lhe apresenta diante dos olhos a cada nova visita e atividade em conjunto com aquelas três pessoas absolutamente comuns. O sobressalto decorre da dúvida constante sobre qual pode ser a próxima atitude do garoto, e Ozon acaba por se revelar ousado à medida que trama avança, por não oferecer uma reviravolta que se ensaia mas nunca se concretiza. Nesse sentido, pode-se dizer que Dentro de casa seja antihitchcockiano, porquanto privilegia a sugestão em lugar do desvendamento. Por outro lado, presta homenagem ao diretor na sequência final, um arremate e tanto para a história.

Em meio ao enredo que brinca de justapor a escrita e o seu comentário, chama a atenção o desempenho de Luchini, em sua segunda colaboração consecutiva com Ozon. O ator, de semblante naturalmente engraçado, oferece um Germain de início desgostoso com o próprio ofício que recupera o entusiasmo a partir de um aluno que pode vir a se tornar o que ele não se tornou. Sem cair na armadilha das caras e bocas, ele forma uma adorável dupla com Thomas, inglesa que se sai tão bem atuando em francês que chega a causa dúvida sobre sua verdadeira nacionalidade. A entrada de Claude em suas vidas serve até mesmo para agitar um casamento que vinha incorrendo na monotonia, a despeito dos conselhos dela para que ele não continue atiçando a escrita do rapaz. Os diálogos do casal, por vezes, soam hilários, como ocorre na sequência em que ele visita a galeria de arte administrada pela esposa e constata, apoplético, o espaço que a pornografia adquiriu ali. Dentro de casa é Ozon em grande forma, atraente e reflexivo sem hermetismos – o que, por sua vez, está longe de ser um demérito por si só. O longa ganhou a Concha de Ouro no Festival de San Sebastián e coroa o caminhar em curva ascendente do diretor, lapidado a cada novo exemplar de sua filmografia.

AVALIAÇÃO: ****

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