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sábado, 3 de novembro de 2012

Setembro e a insistência dos fantasmas em perseguir


Setembro (September, 1987) é um dos exercícios de apropriação bergmaniana apresentados por Woody Allen ao longo de sua filmografia. Entusiasta confesso do realizador sueco, o nova-iorquino septuagenário, de obra tão extensa quanto sua fonte de inspiração, acumula com ela diálogos de diferentes intensidades e calibres. No filme em questão, nota-se facilmente uma associação com Sonata de outono (Höstsonaten, 1978), o denso filme de Bergman sobre incongruências entre mãe e filha, a começar pela sinopse. Lane (Mia Farrow) é uma mulher de muitas fragilidades, que não consegue manter um relacionamento saudável com sua mãe, Diane (Elaine Stritch). Basicamente, aos conflitos entre elas derivam da oposição de suas personalidades, quase um jogo de chiaroscuro, tal e qual as personagens de Liv Ullmann e Ingrid Bergman naquele filme. Ainda que se esforcem, sempre permanece uma barreira inexpugnável no trato de uma com a outra, o que produz e renova chagas emocionais em ambas, embora somente as de Lane soem mais patentes.

A insegurança de Lane advém de sua dificuldade em concluir projetos que inicia, como o livro que começou a escrever, mas que deixou de lado por não se considerar talentosa o bastante para lhe dar continuidade. Trata-se de uma mulher retraída, que prefere passar despercebida nos ambientes e represa suas emoções o máximo que pode, num esforço de autonegação silenciosamente desesperador. O modo solar com que Diane encara a vida e as pessoas só amplifica as dificuldades de Lane, e passar alguns dias que seja na companhia da mãe se lhe torna um suplício. No fundo, as duas são inábeis no que tange a demonstrações de sentimentos, uma característica que parece impensável para duas pessoas que compartilham laços de sangue. Mas Allen, tal qual Bergman já fizera, deixa entrever que o simples fato de serem mãe e filha nem sempre é o bastante para gerar e desenvolver amor entre duas mulheres.

Essa reflexão dolorida se dá por inteiro em um único ambiente. O espectador é confinado às quatro paredes de uma casa em Vermont, onde os diálogos doloridos ecoam por toda a parte, muito distantes da pegada cômica habitual impressa pelo cineasta às suas tramas. Existe uma aura de tristeza que impregna Setembro e produz um desconforto constante, que atordoa. Mais uma vez, Allen selou uma parceria com Carlo Di Palma, um dos seus colaboradores mais recorrentes – em títulos como Um misterioso assassinato em Manhattan (Manhattan murder mistery, 1993) - , para clicar com cores cálidas, sobretudo ocres, o processo de intemperismo enfrentado por Lane e Diane em tão poucos dias de convivência. As dissonâncias surgem nos momentos mais prosaicos e revelas as rachaduras que as afastam. Lane quer ver um filme de Kurosawa que está em cartaz em um cinema próximo, Diane prefere organizar um jantar ao qual devem comparecer alguns de seus amigos. Lane é suave e discreta, enquanto Diane explode em extravagância e vive a vida em alto e bom som. Torna-se cada vez mais difícil para as duas sustentar uma postura conciliatória: elas não nasceram para conviver. Estar lado a lado perenemente não é para elas.


Inicialmente, Allen planejava filmar Setembro na casa de campo de Farrow, com quem já era casado a essa altura, em Connecticut. Mas o roteiro do longa só foi concluído quando já era inverno, o que inviabilizou o projeto. A propósito, o filme acabou ganhando mais fama por seus bastidores do que propriamente pelo que foi levado às telas. Foi o único que teve boa parte de suas cenas filmadas mais de uma vez, indo na contramão do estilo mais “improvisado” que o diretor gosta de manter em seus trabalhos. Ele chegou ao ponto de, ao ver o material filmado na sala de edição, tomar a atitude de rodar tudo novamente, dessa vez, com um elenco quase totalmente novo. E, ainda assim, permaneceu insatisfeito, cogitando a hipótese de uma terceira filmagem. Todos esses problemas fizeram que ele estourasse o orçamento da produção, que acabou passando longe de ser um sucesso de público e crítica, indo parar no rol dos filmes injustiçados e considerados menores de sua carreira. Quase um título apócrifo. Para fãs ou não, é bastante razoável dar uma chance a Setembro, pela chance de encontrar um Allen mais soturno, de emoções duras e praticamente isento de comentários sarcásticos proferidos por seus personagens.

Também vale destacar a presença marcante de Dianne Wiest, encantadora na pele de Stephanie, a melhor amiga de Lane, que se vê na armadilha do triângulo amoroso ao ser alvo do interesse de Peter (Sam Wasterston), por quem Lane é apaixonada. Ele está na casa a convite de Lane, e Elaine aproveita para lhe pedir que escreva sua biografia, pedido ao qual ele se propõe a atender por pura educação. Cedo ou tarde, o clima de sufocamento entre os presentes naquele local se torna insustentável. Nesse sentido, Setembro é um dos filmes mais claustrofóbicos de Allen, quase um teatro filmado, que discute, como de hábito, o impedimento moral que produz hesitação em seus personagens a cada nova atitude que represente uma transgressão a algum item do vasto código de ética a que todos estamos submetidos a vida inteira. Afinal, porque Stephanie resiste tanto a Peter? Por causa de sua amizade com Lane? Pelo fato de ser casada há anos e não estar preparada para sair do comodismo? Não fossem esses “detalhes”, ela se entregaria por inteiro àquele arroubo passional. A ciranda sentimental que a mantém unida a Lane e Peter acarreta, quase inevitavelmente, feridas. Normalmente, é assim: machucamos sem querer, por total falta de tato. É para essa conclusão que o filme parece apontar, com sua frequência sonora discreta e sua intensidade dramática desnorteante. Afinal, estamos diante da obra de um dos mais exímios retratadores de vidas à procura de rumo, obrigadas a conviver com fantasmas que insistem em não partir.

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