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terça-feira, 6 de novembro de 2012

Eles vivem: cinema trash no melhor estilo


Na fusão entre cinema trash e alegoria política está o maior trunfo de John Carpenter como diretor de Eles vivem (They live, 1988), um dos vários exemplares cultuados de sua filmografia. Partindo de uma premissa simples e, ao mesmo tempo, inusual, o longa-metragem discute alienação, consumismo, vazio interior e despotismo como quem aponta suas armas diretamente na cara dos culpados, dos cúmplices e dos meramente omissos, todos envolvidos em uma nuvem sórdida de costumes e reprodutibilidade mecânica. O personagem principal da história é John Nada (Roddy Piper), simplório trabalhador braçal que aporta em Los Angeles à cata de um emprego, e logo consegue uma vaga de operário em uma fábrica, onde conhece Frank (Keith David), com quem logo pode começar a contar. Ele não tem mais qualquer parente e se vira como pode, tendo a sorte como aliada.

Desde esse início, Carpenter já apresenta ao espectador o lado lúgubre de uma cidade comumente associada às celebridades e, em consequência disso, ao glamour. A Los Angeles de Eles vivem é lúgubre e caótica, e seus habitantes não passam de marionetes as quais o governo e a mídia são capazes de controlar com mensagens subliminares que os induzem a adquirir, preservar e espalhar hábitos de consumo e comportamento. Pode parecer exagero, mas a máquina capitalista funciona perfeitamente naquele lugar, graças a um engenhoso sistema de repressão disfarçado, que John passa a enxergar com total clareza depois que encontra uma caixa com óculos escuros que, a princípio, são como quaisquer outros. Depois que ele experimenta um deles, um novo mundo se lhe abre, expondo os mecanismos que regem o estado das coisas da metrópole. Diante dos seus olhos, há zumbis e códigos cifrados revelam seus verdadeiros significados, aos quais a população obedece cegamente, sem sequer saber que está obedecendo.

Palavras de ordem como “Compre”, “Obedeça”, “Não discuta, aceite” são incutidas na mente de todos, embutidas nas revistas de fofoca, nas propagandas televisivas de produtos supérfluos e nos discursos políticos supostamente cheios de boas intenções. E o flme não abre mão da tal pegada trash, reunindo elementos que podem caractarizá-lo como tal não apenas pelo baixo orçamento da produção, mas por alguns efeitos visuais propositalmente toscos e atores com certa dose de canastrice em suas interpretações, cujo efeito, por incível que pareça, é benéfico para a narrativa. Sem falar nas generosas doses de humor negro e completamente apartado da insuportável correção política excessiva, que, talvez, dificultasse muito a distribuição e o lançamento do filme nos dias de hoje. Também está presente aquela estética oitentista do exagero, que faz o filme parecer histérico em várias passagens, misturando a piada certeira e o riso involuntário, sobretudo na sequência em que John faz de tudo para convencer Frank de que os óculos que ele está usando são especiais e, diante da resistência do novo amigo, os dois caem na porrada.


Para muitos, Piper é um ator desconhecido. Hoje com 58 anos, ele fez carreira como wrestler – mesma profissão do personagem de Mickey Rourke em O lutador (The wrestler, 2008) – e foi chamado por Carpenter para encarnar o típico sujeito sem lenço nem documento que, de uma hora para outra, tem uma virada que o faz correr pela sua própria sobrevivência. A base para seu John veio de uma revista em quadrinhos intitulada Alien Encounters. Enxergar além é um dom perigoso e, no caso de John, traz muito mais problemas que vantagens. Afinal, o governo, com todos os tentáculos que estão a seu serviço, não pode admitir uma figura destoante em meio à paisagem humana monocromática e, logo, ele se torna uma ameaça pública, assim como Frank, a quem consegue trazer para o seu lado e com quem inicia um corajoso movimento de resistência que, pouco a pouco, ganha novos adeptos.

Daí para frente, Eles vivem apresenta uma legião de inconformados, para os quais o título do filme como uma luva, já que, à diferença da maioria esmagadora das pessoas, que apenas existe e não reflete, aquele grupo está disposto a experimentar e ousar fazer e assumir suas próprias escolhas. E, como essa ousadia tem um preço, eles se dispõem a pagá-lo e sair distribuindo tabefes, socos e pontapés em quem quer que seja, numa constante luta pelo direito ao exercício pleno da liberdade individual. John, Frank e sua trupe vociferam o desejo de ter seus próprios desejos, e a cidade entra em fervura máxima com as divertidas cenas de perseguição que envolvem balas traçantes, saltos mortais espetaculares e voos rasantes de helicópteros com vocação assassina. O espectador, do outro lado da tela inflamada, permanece atento e eletrizado, vivendo pouco mais de uma hora e meia de ficção científica cômica reflexiva e dando boas risadas com o caos urbano que não perdeu a atualidade. Até chegar ao seu último ato, Eles vivem reserva ótimos momentos e faz pensar sobre até que ponto, em nosso dia a dia, somos indivíduos pensantes e de decisões cônscias ou reles títeres cujas condutas estão subvencionadas a toda uma lógica de consumo e alienação.

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