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quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Algumas pequenas descobertas juvenis ou Moonrise kingdom

O inusitado continua presente no universo de Wes Anderson, como atesta Moonrise kingdom (idem, 2012), seu mais recente trabalho na direção. Com o foco sobre algumas pequenas descobertas juvenis, sobretudo o amor em seu aspecto mais desengonçado, o filme nos apresenta Suzy (Kara Hayward) e Sam (Jared Gilman), dois pré-adolescentes que decidem fugir de casa depois que se apaixonam e percebem o quanto será difícil convencer os pais dela a aceitar a novidade surgida tão precocemente – afinal, eles ainda não passaram dos 13 anos. A fuga dos dois acaba por movimentar toda a pequenina cidade que eles habitam, colocando boa parte da população no seu encalço. E, para se manter sempre à frente da busca frenética de Walt (Bill Murray) e Laura (Frances McDormand), os pais da menina, Sam se utiliza de suas habilidades de escoteiro, aprendidas com o período no qual foi aluno do Mestre-de-Enfermaria (Edward Norton).

Desde o começo, Anderson pinta o filme com tintas de fábula, e enaltece ângulos bizarros da vida com seu jogo cênico pitoresco. Sua câmera está sempre à procura de enquadramentos improváveis e ele consegue, mais uma vez, transformar uma premissa batida em uma história praticamente impossível de resistir. Ao longo de sua filmografia, ele tem mostrado o quanto essa é uma das suas especialidades, em títulos como Três é demais (Rushmore, 1998) e Os excêntricos Tenenbaums (The Royal Tenenbaums, 2001), em que os pontos de partida eram temáticas exploradas pelo cinema há tempos. O resultado de sua busca esmerada pelo que há de extraordinário no óbvio são filmes que flertam com a artificialidade propositalmente, lembrando o seu espectador o tempo todo de que se trata apenas de um filme. E não há demérito algum nisso, já que, via de regra, o cinema não tem compromisso algum com a realidade e, muitas vezes, nem mesmo com a verossimilhança, bem como a arte em geral. Antes, ela reconstrói a realidade segundo o bel-prazer de seu autor, seja para reordená-la, seja para denunciar um estado de coisas caótico e inexplicável.

À medida que a busca por Suzy e Sam avança, presenciamos os momentos de ternura e, por vezes, malícia, que os envolve. Eles estão crescendo juntos, e experimentando todas as consequências desse fato. Estão processando suas transformações e tentando entendê-las. E, dessa série de descobertas, nasce a beleza algo desastrada de Moonrise kingdom, cujo título pode ser traduzido livremente como “O reino da lua nascente”, bastante apropriado para um filme que trata de um tipo de despertar. Com o crescimento, vem a noite, e um mundo novo se impõe, tão cheio de mistérios quanto o da infância. Até que seja lua cheia, há um longo caminho a ser percorrido, com tantas ou mais fases do que as tradicionais quatro por que passa o satélite natural do nosso planeta. Calcado nessas certezas demonstradas sob a forma de entrelinhas, Anderson nos entrega mais um exemplar precioso de sua forma artesanal e cheia de sentimento de enxergar o mundo, sem aparentar qualquer esforço para ser outsider – muito pelo contrário, é essa a sua vocação. Assim como Suzy e Sam bagunçam o coreto de uma cidade adormecida e cheia de gente estranha em suas conchas, Anderson subverte, em parte, o cânone cinematográfico para impingir novidades em sua estrutura, sem contudo, importar-se em inventar a roda.


O elenco de coadjuvantes é outro ponto bastante positivo do filme. Murray, ator recorrente do realizador – ausente apenas de seu primeiro trabalho, Pura adrenalina (Bottle rocket, 1996), tem um personagem restrito a lampejos, mas que se encaixa perfeitamente em seu cabedal intepretativo, atestado ao longo dos últimos anos em numerosos títulos da seara indie. Sua química com McDormand é notável, e os dois juntos ilustram aqueles casais cujo relacionamento perdeu o tempero em algum momento e que hoje são mais convivas de casa do que propriamente marido e mulher. E um dos grandes temores de Suzy é terminar em um casamento parecido com o deles, que ela sequer consegue entender, sobretudo depois que descobre que a mãe está tendo um caso com o Capitão Sharp (Bruce Willis, ótimo), que, mais adiante, fica interessado em adotar Sam, cujos pais adotivos já não o aceitam mais em casa depois de sua fuga frustrada. Ainda há espaço para uma divertida Tilda Swinton, que encarna a Assistente Social, responsável por cuidar da ida de Sam para um orfanato, antes que Sharp intervenha em seu caso.

O festival de Cannes foi a vitrine de estreia de Moonrise kingdom, onde foi exibido como filme de abertura para uma plateia que aprovou o realismo fantástico habitual de Anderson. Definitivamente, ele é um daqueles diretores cuja obra se debruça sobre poucos temas, para os quais são propostas variações sutis e diálogos com o que foi produzido anteriormente. No caso desse filme, um dos indícios perceptíveis para espectadores mais atentos e fiéis do cineasta é olhar melancólico e distante de Suzy, que lembra muito o da Margot (Gwyneth Paltrow) de Os excêntricos Tenenbaums, como se houvesse um parentesco entre as duas. Sem dar um sorriso do início ao fim da história, ela conquista com sua aura supostamente inatingível, e diz frases atrevidas com muita naturalidade, como quando constata a excitação de Sam com a intensa proximidade de seus corpos, em uma cena passada na praia, tão idílica quanto saudavelmente bem-humorada. Anderson, portanto, recompõe o mundo a seu modo e nos embevece com sua atmosfera estilizada e com personagens plenos de antíteses, no limiar entre o pitoresco e o afetuoso. Eis aqui uma fábula de sons e cores que impregnam.

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