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segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Sonata de outono: amarguras revolvidas entre mãe e filha


Nem sempre o fato de compartilhar laços sanguíneos com alguém é o bastante para haver afinidade e carinho. A regra do amor entre pessoas da mesma família apresenta inúmeras exceções, e parece ser esse o caso das protagonistas de Sonata de outono (Höstsonaten, 1978), ensaio arrepiante sobre contas a acertar entre mãe e filha concebido por Ingmar Bergman. A trama focaliza Eva (Liv Ullmann) e Charlotte (Ingrid Bergman), cuja relação é tumultuada desde muitos anos, o que gera uma enorme inabilidade por parte de uma no trato com a outra. O cerne dessa dificuldade é a decisão de Charlotte de ter seguido adiante com sua carreira de pianista, deixando Eva constantemente longe da sua presença, já que o ofício sempre a fez viajar por vários lugares. Para Eva, essa escolha de Charlotte foi traumatizante, e sedimentou rachaduras profundas no relacionamento entre elas, que tentam, mais uma vez, podar as arestas que as atrapalham quando a filha convida a mãe para ficar alguns dias em sua casa.

O reencontro de Eva e Charlotte, após mais algum tempo de distância, é emotivo e pontuado por cordialidades, o que já permite notar que elas se tratam com um certo protocolo, uma herança direta da falta de convivência diária. Eva demonstra um esforço enorme para se aproximar da mãe, valendo-se de toda a sua simpatia e carinho, como quem precisa cativar alguém que acabou de conhecer o faz procurando ser a figura mais agradável possível. A fragilidade da harmonia entre elas se verifica em pouco tempo, uma vez que pequenas dissonâncias são suficientes para deflagrar a dificuldade de relacionamento que ambas tem uma com a outra, a qual passa diretamente pelo âmbito da comunicação. A propósito, esse é um mal das relações humanas em geral, um fato angustiante, mas com o qual é preciso conviver em maior ou menor grau, com maior ou menor frequência. Por mais dispostos que estejamos a entender o outro e a nos fazer entender, há um componente de incomunicabilidade que trunca nossos contatos.

O cenário para esses dias de convivência entre Eva e Charlotte diz muito sobre a própria relação que elas mantêm. Afinal, o outono, assim como as demais estações do ano, é associado a algum tipo de metáfora. A estação evoca a ideia de renovação com suas folhas que caem e permitem às árvores se reinventar, ao mesmo tempo em que frutificam. A queda das folhas tinge o ar livre de tonalidades êneas que, em certa medida, também apresentam um componente de melancolia. Numa abordagem mais romântica, é possível pensar na natureza como uma determinante para o comportamento do homem, no sentido de moldá-lo de acordo com seu estado – isso pode ficar mais claro quando, em dias chuvosos, parecemos estar “chovendo” também, o que se traduz em um comportamento mais introspectivo e algo cabisbaixo. Eva está disposta a renovar a si mesma e também a sua relação com Charlotte, e ela têm parte do outono para alcançar esse propósito. Mas, cedo ou tarde, algumas feridas não cicatrizadas voltam a ser expostas, e revelam os estragos que a mãe produziu na filha com sua conduta relapsa. Sem falar na trilha sonora, de peças clássicas pungentes e de notas predominantemente graves, que amplificam esse reencontro e, muitas vezes, dizem tanto quantos os olhares e as palavras que elas trocam.


Uma das especialidades do cinema bergmaniano é justamente as interdições derivadas da dificuldade de comunicação. Ao longo de sua filmografia, o realizador sueco apresentou variações dentro desse tema, focalizando amantes, maridos, esposas, e irmãos, além de se propor a analisar as dessintonias entre os homens e Deus. São elementos que fizeram parte de sua vida pessoal e serviram de base para obras profundas, muitas delas capazes de operar transformações internas em seu público ou, no mínimo, de causar o desconforto de um nó na garganta. Acontece exatamente assim com Eva e Charlotte. O que a filha deseja, na verdade, é reavaliar todos os anos em que se sentiu abandonada e rejeitada pela mãe através de um confronto direto. Porque chega um tempo em que não é mais possível manter tantos sentimentos represados: é preciso liberá-los de alguma maneira, e cada um deve encontrar a sua. Eva tentou as cartas, através das quais falava com a mãe e consigo mesma, porém precisava ir além dessa comunicação. Uma vez frente a frente, portanto, elas suplantam os tais protocolos e se despem emocionalmente de modo devastador.

A força de Sonata de outono está em seus diálogos e na interpretação extraordinária de Liv Ullmann e Ingrid Bergman, que reinam absolutas durante todo o filme e expõem com franqueza dolorida suas chagas em duelos verbais pesados. Com isso, o filme apresenta uma atmosfera teatral, que acabou sendo aproveitada por Marieta Severo e Andréa Beltrão, as quais também viveram as personagens na temporada de inauguração de seu teatro no Rio de Janeiro. Entre Eva e Charlotte, não cabem mais meios termos ou falsas adulações: o tempo de se esconder sob esses artifícios se encerrou. Isentas de qualquer persona, Eva e Charlotte são demasiado humanas, e isso implica defeitos e qualidades que, a depender do critério de comparação adotado, podem fazer a balança pender ora para o lado de Eva, ora para o lado de Charlotte. Essa acabou sendo a única vez em que Ingrid Bergman foi dirigida por seu conterrâneo, embora houvesse intenção de ambas as partes em uma parceria há muito tempo. Teria sido maravilhoso assistir à atriz em outros filmes do diretor, mas, ao menos, ficou esse exemplar maravilhoso compartilhado na filmografia dos dois. E Bergman vislumbra os conflitos entre elas amparado pela direção de fotografia estupenda de Sven Nykvist, seu habitual colaborador em sua fase mais madura, que soube captar a aura dos filmes do cineasta com a perícia de um artesão imagético. Plena de nuances, as personalidades de Eva e Charlotte se reclamam e se repelem, e o esforço descomunal de convivência empreendido por elas se justifica sempre pelo fato de serem mãe e filha. Mas, como na vida, não é nada simples reconstituir cacos sentimentais, e esse relacionamento pontilhado de incongruências permanece extenuantemente em aberto.

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