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quarta-feira, 24 de outubro de 2012

A virtude como alternativa à maldade em O homem elefante


A filmografia de David Lynch ganhou um sopro de docilidade inesperada quando ele concebeu O homem elefante (The elephant man, 1980). O diretor nascido em Montana havia dirigido anteriormente um média-metragem de toques surreais, assim como aconteceu ao seu primeiro longa, pontuado pela esquizofrenia. No filme em questão, a delicadeza ganha espaço em uma narrativa sobre John Merrick (John Hurt), um homem de aparência física aberrante que serve como atração em um circo de horrores. Suas condições de vida estão muito aquém daquilo que caberia a um ser humano. Ele é vítima da exploração do dono do lugar, que está inteiramente voltado para o lucro que John e outros integrantes da “companhia horrenda” podem lhe proporcionar. Entretanto, o Dr. Frederick Treves (Anthony Hopkins) se compadece do seu caso e decide livrá-lo daquela situação, além de se esforçar para encontrar uma cura para a doença que desfigurou o seu rosto ainda na infância.

A partir do encontro entre John e Frederick, O homem elefante começa a se mostrar como um filme sobre a bondade acima de tudo. A sociedade não está preparada para lidar com alguém tão diferente como John e, valorizando a aparência acima de tudo, é incapaz de perceber que, sob o visual grotesco daquele homem, existe uma pessoa extremamente generosa e sensível. Felizmente, o médico consegue enxergar essas virtudes nele e oferece a sua mão estendida, dando início a uma amizade extraordinária, que comove John a ponto de fazê-lo chorar. Como ele mesmo declara ao ser convidado para conhecer a casa de Frederick, onde é recebido tão gentilmente, não lhe é comum ser tratado com tamanho carinho. E, na verdade, o que o médico e sua esposa fazem é dispensar a John o tratamento que qualquer pessoa educada concederia a uma visita. Mas, em se tratando do protagonista, mesmo isso se torna muito raro. Não há como não ficar tocado diante dessa passagem do longa, que rasga o coração do espectador em vários outros momentos sem qualquer grau de apelação. A grandeza da história está em sua condução orgânica, emocionante simplesmente pela temática.

Tendo um personagem tão complexo nas mãos, é impossível não ressaltar o maravilhoso trabalho de composição de Hurt, que desaparece sob a pesada maquiagem que lhe transforma em John Merrick. O ator incorporou com maestria o protagonista, cuja dificuldade para falar é outro de seus problemas físicos, tanto que ele demora a falar a sua primeira frase na história, além do medo natural de se relacionar com as pessoas. Ele chegou a concorrer ao Oscar de melhor ator pelo papel, mas acabou derrotado por Robert De Niro, que foi premiado pelo seu desempenho em Touro indomável (Raging bull, 1980). Com isso, a Academia perdeu uma grande chance de coroar a interpretação memorável de Hurt, digna de ser listada entre as melhores de sua década. O homem elefante é inteiramente do personagem, o qual pode soar repelente mesmo para o público do filme no começo, algo que só reforça a teoria de que temos uma séria dificuldade para encarar anomalias e incorporá-las ao nosso cotidiano. Seu encontro com Frederick se revela, portanto, a grande chance que ele tem de recuperar sua dignidade, profundamente ferida pelos anos de exposição ao público como um monstro.


Nos bastidores do filme, reside uma informação curiosa da qual muitos não têm conhecimento. A escolha pela filmagem em preto e branco, assim como a contratação de Lynch para a direção da obra, partiu de Mel Brooks, produtor executivo do filme, que pediu para que seu nome não aparecesse nos créditos para evitar que o público da época o encarasse como algum tipo de sátira. Afinal, Brooks foi responsável, entre outros, pela direção de Primavera para Hitler (The producers, 1968), uma tremenda galhofa com o pavoroso ditador austríaco. E, de fato, o longa nada não apresenta qualquer teor cômico. A história de um homem em permamente luta pela afirmação de sua própria humanidade perante uma sociedade cruel e cínica não poderia mesmo ser revestida de traços de humor. Sendo assim, O homem elefante confronta o tempo todo, e faz pensar sobre até que ponto os bons são capazes de resistir aos assaltos da maldade alheia, e apresenta um diagnóstico animador a esse respeito, como se inscrevesse à sua narrativa a seguinte conclusão: A atrocidade pode ser suplantada pela gentileza e pela doçura e, ainda que isso não venha a acontecer, permaneça. Pouco vale a bondade se ela for exercida apenas com quem nos oferece o calor e a mão estendida. A esses últimos, dedique-se todo o carinho.

No caminho de John também aparece outra figura muito gentil e atenciosa: a Sra. Kendal (Anne Bancroft), uma atriz de teatro que fica sabendo de sua história pelos jornais e decide conhecê-lo pessoalmente. Em pouco tempo, os dois travam uma bela amizade, já que ela, a exemplo do médico, não se deixa bloquear pela aparência de John e oferece sua companhia e seu bem querer sincero e desinteressado. É somente com eles que John pode contar, no fim das contas. E, mesmo que a intenção de Frederick ao levá-lo para sua casa seja boa, ela acaba gerando um efeito colateral, pois John acaba se tornando uma atração para quem vai visitá-lo, exatamente como acontecia quando ele vivia no circo. O próprio médico se questiona a esse respeito, e vai combatendo o fato com a preservação da privacidade de seu novo amigo e faz de sua nova exposição uma garantia de seu bem estar, uma vez que até mesmo a Coroa britânica pede que ele seja bem tratado. A bem da verdade, John é uma daquelas pessoas que passa pela vida com a missão de abrir os olhos do mundo para a bondade e a ternura, a qual exerce em uma jornada integral e, quiçá, diuturna.

4 comentários:

  1. Olá Patrick! Conheci o seu blog através da votação da SBBC. Fico feliz que você tenha entrado, já que seu espaço é deveras interessante. Parabéns!

    Quanto a "O Homem Elefante", é até curioso afirmar que este seja o exemplar mais esquizofrênico na filmografia de Lynch rs. Um filme dócil, comovente e belíssimo que enche o coração do espectador. Pra mim, uma obra-prima do cinema! Um Lynch acessível e encantador.

    Belo texto!

    Abraços e, mais uma vez, bem-vindo!

    Elton

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  2. Olá, Elton.
    Agradeço pela visita e pelos comentários positivos ao meu texto.
    Gostaria de fazer um esclarecimento: quando falei em esquizofrenia, não estava falando de O homem elefante, mas de Eraserhead, o primeiro longa de Lynch. Apenas não citei o nome do filme nesse trecho do texto.

    Abraço!

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    Respostas
    1. Hehe, eu entendi. O que eu quis dizer é que, diante de tantas obras surreais e peculiares que formam a filmografia de Lynch, "O Homem Elefante" é até um estranho no ninho, um exemplar esquizofrênico por ser um ponto de ternura em meio à tanta insanidade. Espero ter sido claro.

      Abs!

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  3. Entendi sua colocação, Elton.
    Agradeço mais uma vez pela visita.

    Um abraço!

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