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terça-feira, 6 de setembro de 2011

A solidão dos números primos e seu olhar sobre a sensação de deslocamento



Alice (Alba Rohrwacher) e Mattia (Luca Marinelli) demonstram não ser pessoas muito comuns desde o início de A solidão dos números primos (La solitudine dei numeri primi, 2010). Na infância, tinham poucos amigos, sendo alvos fáceis para muitos tipos de ridicularização e escarnecimento, e o passar dos anos não demonstrou ter sido benéfico para ambos, que se conhecem ainda muito jovens. A comparação com os números primos justifica o título do filme de Saverio Costanzo, uma adaptação do livro homônimo de Paolo Giordano. Esses algarismos guardam consigo, de acordo com a matemática, a propriedade de serem divisíveis apenas por um e por si mesmos, uma particularidade que é claramente metaforizada no longa-metragem do diretor de Violação de domicílio (Private, 2004). Os protagonistas se habituaram desde muito cedo a encarar traumas fortes, o que lhes trouxe algumas singularidades e muitas dificuldades de relacionamento com outras pessoas. Essas figuras cheias de questões mal resolvidas vão se encontrar e se desencontrar ao longo dos anos, em uma narrativa que, em muitas passagens, revela-se um tanto seca e objetiva.

Não demora para que o espectador se dê conta de que a película, assim como o livro, é uma proposta de tratamento – aqui tomado como sinônimo de abordagem – de um tema dolorido: a sensação de deslocamento e vazio. Quando crianças, ambos já demonstravam uma certa vocação para o sofrimento. Alice sofreu um acidente no qual quase perdeu a perna, e Mattia foi negligente com a irmã gêmea, até que ela desaparecesse e ele começasse a carregar uma grande culpa pelo fato. Eis alguns indícios da densidade do longa-metragem, que, entretanto, não se revela apelativo ou excessivamente melodramático. Em parte, graças ao bom roteiro, o filme apresenta uma narrativa não-linear, que deixa parte da responsabilidade por entender o que se passa nas vidas dos personagens com o espectador. As legendas que indicam os anos transcorrendo ajudam a compor um quadro minimamente ordenado, mas também apresentam a característica de ir e vir no tempo impressa à obra.

Os personagens são interpretados por dois atores, sendo Marinelli e Rohrwacher os que passam a maior parte do tempo interpretando-os. Ambos demonstram grande competência e talento para defender seus papéis, valendo-se de seus biótipos algo excêntricos para serem jovens que carregam na própria pele as marcas de suas depressões e de suas tentativas de colocar um ponto final em suas próprias existências. Mattia chega a ser um rapaz bonito e com algum viço, mas Alice exibe uma silhueta esquálida que lhe rouba boa parte da beleza e do charme. É impressionante observar a magreza daquela que fora uma adolescente tão cheia de brilho e que se tornou uma fotógrafa de casamentos que acaba indo clicar a cerimônia de casamento de um antigo desafeto que a torturou psicologicamente no passado. Ele, por sua vez, tem cortes pelo corpo que demonstram o quanto se odeia, e o quanto sofre pela autocomiseração que aprendeu a cultivar desde muito cedo. O envolvimento entre Alice e Mattia progride pouco, e dura a adolescência e parte da juventude de ambos, até que Mattia é seduzido por uma oferta de emprego fora da Itália.



A solidão dos números primos tem o mérito de não se “comportar” como um filme pretensioso. Não há grandes inovações na forma nem no conteúdo da obra, mas há o trunfo de se apresentarem personagens muito carismáticos e intensos, que exibem empatia apesar dos seus dramas interiores. O livro no qual o filme se baseia e a estreia de Paolo Giordano na literatura. Escrito quando ele tinha apenas 26 anos, a obra alcançou grande sucesso em seu país, e o estilo do autor foi classificado como enxuto e objetivo. Essa mesma enxutez transparece no filme, cujo roteiro tem a sua colaboração direta e muito eficiente. As cores quentes que atravessam sua fotografia também são um atestado de sua qualidade, ajudando a compor um quadro de sofrimento que contribui para o mergulho naquela atmosfera sombria que circunda os protagonistas. A sensação de agonia pode acometer o público muitas vezes, essencialmente por causa da insistência dos personagens na autodestruição. Para viver Alice e Mattia na fase adulta, os atores percorreram caminhos inversos: ela precisou perder dez quilos a fim de convencer na pele de uma bulímica, ao passo que ele teve de ganhar quinze quilos e se mostrar convincente como um jovem que desistiu de cuidar de si mesmo. Juntos, eles são a síntese de uma história de amor torta e anticonvencional entre dois outsiders, que comove e impressiona.


Ainda há espaço para a nobre presença de Isabella Rossellini como coadjuvante, vivendo a mãe de Mattia, uma mulher cônscia das feridas internas e externas que o filho carrega, e que exibe um misto de resignação com tentativas de auxílio ao rapaz. Ela busca, principalmente, aproximá-lo de Alice, e vê a completude de um no outro. De fato, eles conseguem se relacionar muito melhor um com o outro do que com qualquer pessoa ao seu redor. Existe uma notável complementaridade entre os dois, que dá sentido total ao título do filme, como já se comentou. Há um outro grande acerto na narrativa, que é o de se concentrar no que realmente interessa, tanto no filme quanto no livro. Tudo o que se vê está entre os anos de 1983 e 2007, e muitas ocasiões também estão suprimidas nesse ínterim, bem como depois dele. Com isso, a obra foge de ser tão didática, e permite ao espectador fazer suas inferências acerca do que pode ter sobrevindo ao destino de Alice e Mattia. A sensação de aperto no peito pode ser inevitável perto do final do filme, revelando o alcance da história ao coração e a sua grande capacidade de despertar identificação.

A crítica apontou A solidão dos números primos como um trabalho de resistência autoral, que caminha na contramão da ideia de pasteurização dos sentimentos que toma conta do cinema de um modo geral, inclusive o italiano, que já gozou de um prestígio espetacular no passado. Afinal, estamos falando da pátria de nomes como Luchino Visconti, Michelangelo Antonioni e Sergio Leone, que respondem por filmes de grande qualidade artística, depositados no imaginário cinéfilo coletivo. À acusação de que o cinema italiano contemporâneo esteja sucateado esteticamente, o cineasta oferece uma obra vigorosa, que permite ao público elaborar seu próprio juízo de valor sobre as atitudes tomadas por Alice e Mattia. Pode haver muito mais de cada um de nós nos protagonistas, o que, ao mesmo tempo, é alentador e aterrador. Porventura alguém desejaria ver em si semelhanças com pessoas tão desorientadas e capazes de fazer tantas escolhas erradas nas suas trajetórias? Em todos os anos nos quais acompanhamos essa saga de aritmética emocional cujo resultado sempre apresenta um resto, notamos o quanto eles estão à deriva, necessitados de um leme e uma bússola que lhes aponte para um rumo. Um rumo certo, talvez, pois os errados eles já encontraram muitas vezes. Em A solidão dos números primos, reside um impacto tremendo, e pulsa uma força que confronta o espectador com suas mazelas pessoais de forma intensa. Pode não mudar a vida de ninguém, o que, aliás, não parece ser a intenção do diretor – e, ainda que fosse, pouco importaria. Entretanto, não há como não reconhecer o seu poder de inquietar.

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