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segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A lenta agonia de um desesperado ou 127 horas

Depois da superexposição gerada com Quem quer ser um milionário? (Slumdog milionaire, 2008), Danny Boyle enveredou por uma nova empreitada que chamou a atenção da crítica e da Academia. Trata-se de 127 horas (127 hours, 2010), um de seus trabalhos mais viscerais, em todos os aspectos. Focalizando sua narrativa na figura de Aron Ralston (James Franco), o longa-metragem versa sobre a agonia solitária de um homem em ponto de contato longo e dolorido com uma rocha, a qual se prende depois de um passo mal dado. O enredo é de inspiração real, extraído do livro escrito pelo alpinista homônimo, que conta seu drama de superação e, na tela, desafia o ânimo do espectador com imagens fortes, de grande impacto emocional. Como qualquer sinopse dá conta de adiantar, as tais 127 horas do título são uma referência cronológica à permanência de Aron numa incômoda posição de aprisionamento, que culminou com sua decisão de cortar fora o próprio braço com o canivete que portava durante todo o tempo de sua expedição.



Antes de vivenciar essa situação extrema, contudo, o personagem demonstrava, com grande vivacidade, a capacidade de procurar todo tipo de aventura que envolvesse o contato com a natureza, como o roteiro escrito por dá conta de indicar. Assim que o filme começa, somos colocados diante dos planos de Aron para um dia de exploração pelas montanhas e desfiladeiros de Utah, para os quais ele parte sem deixar aviso prévio a qualquer pessoa. Evidencia-se, nesse momento, a opção do protagonista pela condição de ermitão, de quem não se importa em minimizar a preocupação de quem o ama. Seus pais nunca se conformaram com sua decisão, algo que aparece discretamente nesse início, e que faz lembrar vagamente a situação do protagonista de Na natureza selvagem (Into the wild, 2007), que também demonstrava preferência pelo isolamento da família e a proximidade com o ecossistema. Interpretado por Treat Williams, um ator de raras aparições atualmente, o pai conversa brevemente com o filho, a quem pede cuidado em suas empreitadas. Esse é um dos únicos momentos em que se vê Aron interagindo com um interlocutor real. O outro será quando ele encontrar duas jovens pelo caminho, com quem mergulha nas profundezas de uma gruta, uma atitude capaz de empalidecer o menos afoitos. Dali em diante, a ação encaminhar-se-á para uma jornada individual de Aron.

Cumpre assinalar o grande talento de James Franco na pele do alpinista. O ator já havia demonstrado em trabalhos anteriores o quanto pode ser competente, mas ainda não havia recebido um papel tão denso e intenso como esse. Revelado para o grande público como Harry Osborne em Homem-aranha (Spider man, 2002), ele também figurou em títulos como Segurando as pontas (Pineapple Express, 2008) e Milk – A voz da igualdade (Milk, 2008), nos quais deu vida a coadjuvantes que captaram para si as atenções quando de suas presenças em cena. 127 horas é totalmente de Franco. Ele dialoga com a plateia indiretamente ao conversar com a própria câmera, gravando vídeos e falando sem parar, como quem busca manter a sanidade intacta. Quando ainda não sabe se poderá escapar ao confinamento em que se encontra, ele se expressa com o que ainda lhe resta. E o tempo transcorre de modo lento, tão lento que transmite a impressão de ser palpável. Conforme o título indica, o filme trata da passagem do tempo, e as tais horas equivalem a cinco dias de uma lenta agonia que gera o desespero. Com isso, Boyle entregou um filme selvagem, muito mais contemplativo que seu trabalho anterior, ainda que o resultado final da obra demonstre uma capacidade do diretor em conciliar as dimensões alternativa e de apelo popular do filme. Assim como já se afirmou, o grande trunfo que o diretor tem nas mãos é a atuação hipnótica de Franco, merecidamente indicado ao Oscar de melhor ator, que perdeu para o favorito Colin Firth e seu desempenho em O discurso do rei (The king’s speech, 2010). A maturidade artística e profissional de Franco é flagrante em 127 horas, e seu sofrimento é matizado em diversas tonalidades, com os vários instantes apreendidos pela câmera de Boyle e a paleta de cores quentes e frias que demonstram o amanhecer, o entardecer e o anoitecer.



Também salta aos olhos a montagem acelerada impressa no filme. Ainda que a lentidão seja mais acentuada a partir do momento em que ele se prende à rocha, 127 horas também se revela frenético, especialmente quando vemos os escassos contatos de Aron com outras pessoas, e os supracitados contrastes com as multidões de várias partes do mundo no plano de abertura. Nesse sentido, este também é um filme de fruição, com belas paisagens e uma atmosfera extática que pode causar ainda mais horror ao espectador que se defronta, poucos minutos depois, com a situação de imobilidade física a que seu protagonista passa a se encontrar. Surgem na mente de Aron lampejos, rememorações e temores que o consomem, aos quais ele tenta escapar com seu monólogo. Visceral é um adjetivo bastante adequado para caracterizar o seu desempenho, contrastando com seu agir contido na apresentação da festa do Oscar 2011 ao lado de Anne Hathaway, que lhe roubou a cena – em grande parte, por conta de sua constante troca de figurinos.

No mais, 127 horas atesta a capacidade de Danny Boyle de flertar com uma gramática mais comercial sem deixar de lado o componente mais humanista que pode e deve estar presente em um filme, especialmente um filme que trate de um profundo drama humano como esse. É como se, durante toda a sua duração, o longa-metragem trafegasse por uma estrada com bifurcações para o lado mais blockbuster e para o lado mais alternativo e pleno de sentimentos. À tragédia particular sucedida a Aron Ralston, é impossível permanecer impassível, e seu desespero em lutar pela própria existência também pode ser alargado como uma luta diária pela vida a que qualquer pessoa pode ser exposta. Verdadeiramente, é impossível sair o mesmo depois da sessão e, mesmo que já se saiba de antemão qual é o nó da narrativa, presente em qualquer comentário mínimo sobre a obra, nada se compara ao impacto de vê-la por si mesmo. As palavras, como tentativa de encampar o que os eventos são ou parecem, revelam-se, mais uma vez, insuficientes, e apontam para uma jornada vertical de agruras e intempestividade.

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