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sexta-feira, 30 de setembro de 2011

A ruptura com os limites do palatável de Violência gratuita



Certos diretores têm como característica a dedicação a um ou uns temas específicos, para os quais vão procurando diferentes abordagens a cada filme. Com isso, podem refinar seu estilo de narrativa, seu recorte subjetivo ou se tornarem repetitivos, exaurindo um assunto que, a princípio, soava atraente. Há vários exemplos de realizadores que se encaixam nessa breve descrição. Talvez o caso magno dessa constante depuração de estilo seja Woody Allen, com suas comédias e eventuais dramas sobre as neuroses de cada um. Entretanto, há outros que podem ser citados, como Gus Van Sant e seu constante olhar para a juventude, Sofia Coppola e seus ensaios poéticos sobre a solidão e a volatilidade das relações humanas, Martin Scorsese e seus retratos de homens em estado de franca batalha e os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne com seus pungentes dramas humanistas. Todo esse percurso se justifica para se pensar no nome de Michael Haneke, o grande responsável por trazer Violência gratuita (Funny games, 1997) à existência. O diretor elegeu como temática preferida os colapsos civilizatórios desencadeados por um indivíduo ou por um grupo e, de suas premissas relacionadas ao assunto, surgem instantâneos de uma realidade perversa.

Conforme seu título em português denuncia, há um componente de gratuito nas altas doses de violência a que um casal pacato e seu filho são submetidos por um dupla de psicopatas. A cena inicial apresenta Georg (Ulrich Mühe) e Anna (Susanne Lothar), nomes recorrentes na filmografia do diretor. Eles são pais de um garoto e vão passar um final de semana em sua casa de praia. A ocasião, que tem tudo para ser de lazer e descanso, ganha ares de horror depois que dois rapazes, um por vez, aparecem no lugar pedindo por ovos. Uma vez tendo entrado na casa, eles não mais sairão, e se mostrarão capazes de elevar seu sadismo a níveis insuportáveis para uma plateia que, de uma hora para outra pode se ver aturdida com tamanho descalabro vindo da parte de dois jovens de aparência tão amistosa. Uma das grandes fontes de angústia do longa-metragem é não saber a razão pela qual Paul (Arno Frisch) e Peter (Frank Giering) cometem tantas atrocidades em série com o casal, bem como a incerteza sobre de onde eles teriam surgido. Os dois propõem jogos um tanto macabros para aquela família, e desafiam, por conseguinte, o público, engessado na condição de espectador de um circo tétrico.

A polêmica em torno de Violência gratuita ajudou a cristalizar uma imagem de sádico em torno de Haneke, que prosseguiu em sua senda de pavor, por assim dizer, em seus filmes sucessivos, a saber: Código desconhecido (Code inconnu, 2000), A professora de piano (La pianiste, 2001) e o controverso A fita branca (Das Weisse Band, 2009). Antes disso, contudo, ele já havia iniciado sua caminhada pelos exercícios de observação de um caos violento, sobretudo em seus primeiros trabalhos, O sétimo continente (Der Siebente Kontinent, 1989) e O vídeo de Benny (Benny’s video, 1992) e 71 fragmentos de uma cronologia do acaso (71 Fragmente einer Chronologie des Zufalls, 1994). Todos esses títulos demonstram que entrar na obra do austríaco é entrar em contato com uma realidade esmigalhada, que mostra facetas de alta vileza. Por qualquer um desses filmes que se comece a visitar sua obra, haverá um contato com narrativas incômodas. Especificamente no caso do filme aqui comentado, fica patente o desafio imposto por Haneke: até que ponto somos capazes de lidar e suportar um jogo tão desprezível, desenvolvido por duas criaturas que amplificam o que pode haver de mais abjeto em um ser humano? Ao mesmo tempo, é hábil em manipular sutilmente o público no que tange a suscitar a reação mais óbvia em um momento como esse: o desejo de ver Anna e Georg virarem o jogo e pagarem na mesma moeda as atrocidades que sofreram. Desse modo, somos levados a querer combater o mal com mais doses de crueldade. Contra maldade, maldade e meia?



A agonia dura longos minutos no filme, e é colocada de forma naturalista, o que redobra a sua capacidade de espantar o espectador. A nítida impressão que essa condução causa é a de que todo aquele sofrimento é interminável e, pior, em vão. Da observação paciente e, aparentemente, sem intervenções de Haneke, nasce o poder de reflexão de Violência gratuita. Há quem acuse o diretor de tendencioso e estúpido, mas não se pode negar que seus closes na hecatombe de um mundo povoado de malícia abrem portas para discussões urgentes. Ainda que não se assuma o seu ponto de vista, é intensa demais para ser negada a fúria de uma sociedade à qual a violência é algo inerente. Faz parte do genoma e da psique humanos a pulsão para morte, que se traduz em diferentes maneiras para diferentes pessoas. E, no fundo, todas as histórias que o cinema, bem como as outras artes contam, convergem para o sexo e a morte. Não é diferente com Violência gratuita, já que o sexo também aparece em uma sequência na qual, dentre tantos outros constrangimentos, Anna é obrigada a se despir na frente dos rapazes, do marido e do filho, num sugestivo avizinhamento com a cena musicada de estupro de Laranja mecânica (A clockwork orange, 1971). Cada qual a seu tempo, ambos os filmes apontam para a maldade que já se encontra instalada na humanidade, e que é refreada pela necessidade de estado gregário. Pode-se citar, ainda, Dogville (idem, 2003), com seu epílogo estupefaciente pela capacidade de confronto com o cerne do mal que reside em cada homem para manter o comentário sobre as pulsões.

Por outro lado, ao contrário do que possa parecer para quem ainda não assistiu ao filme, não há um desfile de pedaços de corpos nem sangue jorrando na tela. Como bom thriller psicológico, a película leva a pensar sobre os limites da diversão com a violência na tela. A sociedade hodierna aprende desde muito cedo a jogar com vidas, em dispositivos eletrônicos que incitam o combate violento a indivíduos virtuais e desembocam numa concepção de descartabilidade da vida. Haneke consegue tudo isso sem apelar para a dor física exagerada. O que fere de morte os personagens são os tapas e socos em suas consciências, bem como o espectador é ferido em seus brios ao ser desafiado o tempo todo com a inquietação trazida pelo filme. Pode advir um dado alarmante de uma sessão do filme: se a crueldade mostrada aqui não causa o menor desconforto, então o espectador está perfeitamente integrado a essa lógica de violência como espetáculo. E então, vem outra importante questão: existe reversibilidade nesse estado de coisas? É tudo tão pungente no longa que o pensamento chega a ser asfixiado com esse desafio constante. Mais do que isso, o público pode se alternar na posição de presa e predador, no sentido de que acordar com o jogo sádico dos jovens e desejar sua morte cruel representam pólos igualmente perniciosos.

A estética do filme, com sua câmera silenciosamente intrusa, aproxima-o de uma abordagem naturalista, como já se disse. Ela parece estar ali apenas para documentar o que está acontecendo, sem a menor pretensão de intervir no desenrolar dos fatos. Percebe-se que se está diante de uma sociedade doente, e que o registro de suas mazelas pode ser o primeiro grande passo para encontrar o antídoto que sublime esse mal. Mas a afirmativa de que não há uma interferência, ainda que discreta, do diretor, é de todo discutível. Como também é habitual no cinema de Haneke, as perguntas são maiores e mais fortes que as respostas e lancinam o intelecto a cada vez que se levantam. Com longos e intermináveis planos que abusam do tempo psicológico, os instantes de desespero daquela família são congelados e corroboram a escolha por um retrato cru de pessoas que se valem da coação ao outro, indicadoras de um alto grau de psicopatia. Sem falar nos diálogo direto dos rapazes com a plateia, uma quebra da quarta parede que mantém a ilusão do cinema e talvez seja o apogeu de um filme que não deixa espaço para relaxar, e cujo fim pode ser apenas o começo de um caloroso debate por horas a fio.

2 comentários:

  1. Eu sou louco para conferir esse filme, mesmo não sendo dos maiores fãs das obras do Haneke.

    http://thecrimnson.wordpress.com/

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  2. Vale a pena conferir, sendo fã ou não.

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