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segunda-feira, 26 de setembro de 2011

As artimanhas da vontade depuradas em Um sonho de amor

Conjugar uma narrativa de qualidade com bons intérpretes, direção e aspectos técnicos é sempre louvável para o cinema. Luca Guadagnino demonstra plena consciência dessa prerrogativa, e o faz por meio de Um sonho de amor (Io sono l’amore, 2010), um filme que flerta com a moda antiga de se fazer cinema e entrega uma das histórias mais arrebatadoras a aportar nas salas escuras nos últimos anos, afirmação que pode ser feita sem o menos receio de se estar exagerando. Calcado na presença estupenda de Tilda Swinton, o diretor presta uma grande homenagem ao áureo cinema italiano, desde os créditos de abertura até à imponência que imprime a cada fotograma de uma obra apaixonante em seus 120 minutos de duração. A atriz inglesa se lançou no papel de uma enigmática imigrante russa casada há anos com um empresário do ramo industrial, com quem teve dois filhos e por quem passou a se chamar Emma Recchi.



Como vai ficando mais evidente no transcorrer do enredo, os laços que a ligam ao seu país natal se afrouxaram de tal forma que ela já não se reconhece mais como russa, uma derivação da obrigação de domínio do idioma materno de seu esposo, o resignado Tancredi (Pippo Delbono), um homem cuja presença rarefeita no cotidiano da personagem é um dos fatores que impulsiona seu olhar para outras direções. Os resquícios da cultura de Emma se restringem ao contato com o filho Edoardo (Flavio Parenti), um jovem com quem mantém uma relação saudável e amigável, o único que parece entender as palavras em russo de sua mãe. As conversas que os dois mantêm e que só eles compreendem reportam à questão de que só se pode expressar amor, ódio e qualquer outra emoção intensa em sua própria língua. Emma, que nem sabe mais seu verdadeiro nome, traduz seu amor. Sua identidade foi forjada, mas ela ainda luta bravamente para manter junto a si alguns signos que a liguem a um ser que é só dela. Ao longo de todo o filme, esse será um dos enigmas da personagem. A sensação que Emma transmite é a de ter sido brutalmente transmutada, atravessada por uma necessidade de aprender a “ser italiana”, como ela mesma diz com um de seus interlocutores. E é exatamente essa aura nebulosa que incita o desejo de saber cada vez mais sobre a personagem. Em pouco tempo, o público passa a se ver em seu encalço.

Um sonho de amor se desenvolve como um filme simples, mas de emoções complexas. A revolução da narrativa é interior, decorrente do estado de paixão e encantamento quase gratuito que Emma passa a sentir por Antonio (Edoardo Gabriellini), rapaz que se torna amigo de seu filho depois de reconhecer o talento do jovem em uma competição esportiva e oferecer seus cumprimentos a ele. É então que a protagonista entra em um estado de sonho, e constrói seu castelo de cartas que a empurra para uma crescente espiral de desejo pelo rapaz. Em detalhes sutis, percebe-se o enlevo em que Emma se encontra a partir de então: uma cena exibe o êxtase da personagem com um dos pratos preparados pelo alvo de sua cobiça. Entre olhares de esguelha e encontros dissimuladamente fortuitos, floresce uma paixão arrebatadora, que confere ao filme um tom operístico, que é um outro índice de seu diálogo com a estética de grandiloquência de um cinema que conheceu a glória nas décadas de 40 a 70.

Paralelamente, os laços entre Antonio e Edoardo se estreitam, pavimentando uma relação ambivalente, que poderia ganhar contornos mais íntimos, não fosse a presença imponente de Emma na vida do jovem gastrônomo. Sugere-se uma reciprocidade, entre os dois rapazes, do desejo de levar aquele contato adiante, mas as perspectivas a esse respeito acabam por se esvair pouco a pouco. O fato é que Emma conhece a instabilidade depois de conhecer Antonio, e o leva consigo para uma teia engendrada pelas artimanhas da vontade, suplantando qualquer outra possibilidade de envolvimento do rapaz com outro alguém. Enquanto isso, Elisabetta (Alba Rohrwacher) nutre e concretiza sua paixão por uma outra jovem, algo que a mãe acabará compreendendo sem dificuldade, por se associar à filha no campo de sentimentos invasivos que assomam em sua vida.



Ambas tomam atitudes que simbolizam suas redescobertas: cortar os cabelos bem curtos. Trata-se de um discreto simbolismo entre outros tantos de um filme que transmite informações e constatações por atitudes, não por palavras. Emma pouco verbaliza o que sente, mas o espectador pode inferir seu estado de ânimo pelos seus passos, pela sua forma de se vestir e, sobretudo, pelos seus olhares. Entre ela e Antonio, nasce um amor visceral, vislumbrado com completude na sequência em que ambos se entregam ao êxtase erótico sobre a relva, “contaminando-se” com a natureza do entorno, e sentindo-se um só. Essa é uma das cenas mais belas de todo o filme, e pode fazer resfolegar os que esperam apenas um romance no plano das ideias.

Não se pode negar que Tilda Swinton seja o corpo e a alma de Um sonho de amor. Seu envolvimento com a produção foi tamanho que seu nome também figura nos créditos como produtora. O projeto de filmar o longa era uma vontade antiga, tanto dela quanto de Guadagnino, que dirigiu 100 escovadas antes de dormir (Melissa P., 2005) enquanto captava recursos para rodar o filme em questão. Valeu a pena tanto investimento. Depois de anos de espera, o público ganhou de presente um filme que, em todos os aspectos, apresenta qualidades inenarráveis. Swinton é a primeira dessas qualidades. Sua desenvoltura com o italiano é notória aos que dominam o idioma, e ela ainda é capaz de produzir frases em bom russo. Para ambos, teve de estudar continuamente, e seu esforço resultou em um trabalho de composição incrível, além de seu biotipo extravagante que ajuda a envolver sua personagem em uma aura de doce mistério. Antonio se torna aparvalhdo depois de conhecê-la, e quer, cada vez mais, conhecer aquela mulher.

A grandiosidade do filme também reside em seus planos-sequência deslumbrantes. O primeiro deles, com Milão sob a neve diurna, é estonteante, e funciona como o vaticínio de um conto de encanto que atravessará a tela dali em diante. Com seus créditos nos moldes de filmes do cinema de ouro e italiano, também da nouvelle vague, o diretor nos reporta a uma época cristalizada, ao mesmo tempo que reveste o enredo e sua condução de uma contemporaneidade patente. Os belos figurinos com que Emma desfila, pensados por Antonella Cannarozzi, são um espetáculo à parte, que renderam uma indicação ao Oscar da categoria. O conflito entre seguir a vida corriqueira e ceder ao ímpeto de uma paixão avassaladora está presente na arte de modo geral, desde a literatura antiga, pelo menos. No fundo, o que interessa aqui não é a história que será contada, mas a maneira pela qual isso será feito. Há quem diga que só existem 48 histórias, e que as demais são variações desses tipos limitados. Talvez seja verdade. Não importa. Um sonho de amor consegue partir de uma temática esgarçada para lhe conferir um tratamento precioso e levar à fruição com requinte e passionalidade.

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