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domingo, 26 de fevereiro de 2017

A jornada sutil de autodescoberta de Moonlight: sob a luz do luar

Silêncios pontuam a trajetória de Chiron, protagonista visitado em três fases da vida e interpretado por três atores diferentes ao longo de Moonlight: sob a luz do luar (Moonlight, 2016). A dificuldade em verbalizar o que sente e pena o acompanha desde a infância, quando já era exposta a alguns dos males do mundo, como o vício em drogas da mãe (Naomie Harris) e a intolerância somada à perseguição dos garotos da escola. Um alento surge no caminho por meio da figura de Juan (Mahershala Ali), que se compadece de sua condição e lhe dá ensinamentos importantes que, se não são bem entendidos àquela altura, repercutem em sua mente pelos anos seguintes. O realizador Barry Jenkins diz se tratar de um filme autobiográfico. Não é um estreante na função, contrariando a máxima de que todo autor começa sua obra falando mais de si mesmo que de qualquer outro tema. Seja como for, a obra sempre importa mais do que a intenção do autor em si, e os olhos postos nessa narrativa testemunham um caminhar nada tranquilo pela estrada da vida. 

Cada intérprete de Chiron imprime o olhar desconfiado e a retração em falar de si mesmo, num exemplo de atuações harmoniosas que garantem a coerência do personagem. O problema está na aparência de cada um: não existe quase nenhuma semelhança entre os atores, como se, a cada novo recorte da vida do rapaz, ele sofresse uma metamorfose física que não o fizesse lembrar em quase nada o que era na fase anterior. Pode ter sido o caso de privilegiar o talento deles em vez do biótipo, e todos preenchem bem ao requisito da competência; então, pode-se relevar o detalhe do visual. Eles são vividos, respectivamente, por Alex Ribbert, Ashton Sanders e Trevante Rhodes, cujos currículos apresentam diferentes extensões. Enquanto Ribbert é estreante, Sanders já atuou em outras cinco produções - e está filmando a sétima - e Rhodes soma 15 presenças entre longas e séries para a televisão. O que também os une é o silêncio: como já foi dito, é a característica mais marcante de Chiron.

As cores são outro aspecto que chamam a atenção em Moonlight. A tal luz do luar a que o pleonástico subtítulo brasileiro se refere pontua vários momentos do longa, assim como as tonalidades azuladas e arroxeadas predominam. Vale lembrar que o azul é correlacionado à tristeza em inglês e, de fato, a história de Chiron é muito triste, com poucos instantes de alívio. Crescer dói bastante mas, no seu caso, esse processo machuca ainda mais, o que ainda não torna o garoto o único no mundo, mas cada um só consegue sentir de fato a própria dor, afinal, e o personagem serve como tipo de todo um grupo a quem tantas oportunidades são negadas cotidianamente. Assim como nesse texto, o filme também não faz muitas menções a dois fatos sobre ele, mas ambos pesam bastante: Chiron é negro e homossexual, duas condições marginalizantes às quais ele tenta reagir da sua maneira, nem sempre digna de aprovação. Em parte, a ausência materna pode explicar sua conduta, uma vez que ele muitas vezes precisou agir como se fosse responsável por ela, e qualquer criança com uma tarefa dessa nas mãos tem bem poucas chances de realizá-la com sucesso.


Ao optar por deixar mais implícitas as características de Chiron que dificultam sua caminhada, Moonlight consegue escapar de ser panfletário, colocando-se no grupo dos filmes em que a sensibilidade e a sutileza ditam o ritmo e acabam gerando empatia. Qualquer pessoa com um mínimo de alteridade pode compreender parte da dimensão dos problemas do jovem, que guarda pontos em comum com outro longa sobre a dificuldade de ser negro nos Estados Unidos, um dos países mais racistas do mundo: Preciosa - Uma história de esperança (Precious: based on the novel Push by Sapphire, 2009). Porém, enquanto Lee Daniels, realizador deste, pesava a mão em sequências de alta carga dramática, Jenkins expõe discretamente as camadas de Chiron: uma hesitação ao falar, os olhos de brilho raro, as mãos e braços compridos da adolescência que não encontram chance de acariciar e acabam usados para agredir, num claro rompante de saturação. E, apesar dos ditos traços autobiográficos, o cineasta se baseou em um livro, a partir do qual concebeu o roteiro, provando, assim, que a arte também é feita de diálogos constantes. Curioso notar o detalhe de que Jenkins nasceu em Miami, ainda hoje um paraíso dos brancos endinheirados.

No time dos coadjuvantes, Ali e Harris apresentam desempenhos contrastantes. O primeiro atua somente no primeiro terço, mas sua presença determinante para fornecer lições impacta pelo resto da narrativa; a cena dele ensinando o garoto a boiar tem vocação para ser chamada de clássica logo logo. Já a segunda tem seu melhor momento ao contracenar com Rhodes, e é de se espantar que a personagem seja tão longeva, dado seu histórico de abuso de entorpecentes. Nas sequências anteriores, ela está um tanto forçada, repetindo um tiques pouco orgânicos para demonstrar a instabilidade psicológica de Paula. Ambos foram indicados ao Oscar, em uma edição marcada pelo elevado número de negros contemplados, depois de dois anos seguidos em que a etnia foi praticamente ignorada. Se havia méritos ou não para indicações nesses anos não é a questão aqui: faz-se apenas uma constatação quantitativa. E, no quesito silêncio, Chiron tem um semelhante no mesmo ano: Lee Chandler (Casey Affleck) em Manchester à beira-mar (Manchester by the sea, 2016) é tão econômico nas palavras quanto ele. E boa parte da força desses longas parentes vem daí: sobressai-se a pulsão imagética em detrimento das manifestações verbais.

8/10

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