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terça-feira, 2 de setembro de 2014

Despedida em Las Vegas, o encontro de duas almas corroídas

Ben Sanderson (Nicolas Cage) decidiu se entregar à bebedeira sem qualquer restrição, e parece bastante consciente da inevitável consequência dessa escolha. Aliás, ele a deseja. Disposto a ingerir doses cavalares de álcool - passando por cerveja, uísque, tequila e tantos outros privadores da lucidez -, ele passa boa parte da narrativa do longa de Mike Figgis embriagado e decide fazer sua Despedida em Las Vegas (Leaving Las Vegas, 1995). Na cidade onde tudo que acontece deve ficar por lá mesmo, ele conhece acidentalmente a prostituta Sera (Elizabeth Shue), e passa a ter ao seu lado uma espécie de alento momentâneo, para o bem e para o mal - seu bem e mal da moça, vale dizer. Os descaminhos (des)encontrados desses personagens são a tônica de um drama em que o tempo não parece mais urgir.  

Envolvidos e decididos a não interromper suas rotinas optadas, eles desenvolvem uma relação, até certo ponto, simbiótica, à semelhança dos protagonistas de Contra a parede (Gegen Die Wand, 2003), que selam um acordo de interesses para que ela possa se ver livre das regras extremamente rígidas de sua família. O processo de desintegração, por assim dizer, de Ben,  encontra-se em um estágio adiantado. Incapaz de se manter sóbrio por minutos que sejam, ele já comprometeu seu trabalho como roteirista de Cinema: foi demitido e gasta todo o dinheiro em alcóolicos, inclusive o que não tem. Diante desse cenário desolador, a figura de Sera é a melhor alternativa aos seus momentos de delirium tremens, psicose causada pela abstinência de drogas em geral. Sempre perto e disponível, ela assume todos os riscos de sua companhia, levando-o para morar em sua casa.

Despedida em Las Vegas é um filme sobre dois malditos, um homem e uma mulher que reúnem dor e desolação e as transpiram por todos os poros, resultando em um drama de alta voltagem que caminha em direção a um abismo cada vez mais deprimente. Sob a responsabilidade de Cage e Shue, os personagens são dilacerados a cada passagem, deflagrando a coragem suicida de um e a insistente bondade de outro. Ambos eram merecedores do prêmio da Academia, mas apenas Cage foi oscarizado e esse trabalho pertence à fase profícua de sua carreira, hoje reconhecidamente pontuada por equívocos (decerto, seu agente era outro nessa época; ele até tinha sido dirigido por David Lynch em Coração selvagem [Wild heart, 1990] poucos anos antes). Seus porres são sonorizados pelo próprio Figgis, também autor do roteiro, escrito a partir do romance de John O'Brien. São canções doloridas, verdadeiras pauladas que amplificam a espiral crescente de autoflagelo de Ben, o que torna o filme cada vez mais angustiante.


A propósito de O'Brien, sua história pessoal é bastante trágica. Tendo cometido o suicídio apenas duas semanas depois de o longa entrar em produção, ele fez o cineasta repensar o projeto no sentido de abandoná-lo, mas Figgis mudou de ideia e acabou levando-o adiante como forma de homenagear o escritor.  No que tange ao teor sensual das cenas, havia mais nas primeiras versões em VHS, assim como na versão em laserdisc, mas elas acabaram limadas do filme. E mesmo a sequência mais ousada se interrompe de modo um tanto abrupto, revelando mais uma vez os danos causados pelo abuso de álcool praticado por Ben. Definitivamente, ele já não consegue mais construir relacionamentos, seja no plano meramente físico, seja no aspecto sentimental. Sera é, antes de tudo, uma personagem quixotesca, doando-se em um relacionamento fadado ao fracasso.

Não há muitas pistas que conduzam a uma estruturação do que foi o passado de Ben. A escolha de Figgis é por apresentar o roteirista já em queda livre, descortinando sua fragilidade crescente e despertando um misto de compaixão e lamento por sua jornada de contornos cada vez mais letais. O filme já começa com Ben enchendo o carrinho de compras de bebidas com uma assustadora euforia. Em função dessa escolha, o cineasta afasta possibilidades redentoras, ofuscando qualquer luz, por mais tênue que seja, de incidir sobre sua vida. Trabalhando com um orçamento de "apenas" 4 milhões de dólares, ele demonstra habilidade na condução da câmera e investe em planos íntimos, que dissecam a fisicalidade combalida de Ben e, por tabela, escancaram sua decrepitude iminente. O final da sessão é apenas o início de um período reflexivo sobre o que acabou de passar diante dos olhos que fitaram a tela até ali.

8/10

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