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terça-feira, 27 de maio de 2014

O amigo da minha amiga e a irresistível prosa rohmeriana

Diretores como Eric Rohmer existiram (ou existem) para atestar que também é possível encontrar beleza no extraordinário. A cada filme seu, personagens dialogam interminavelmente sobre questões banais e profundas, e essa miríade de palavras que invade a tela é responsável por um fruir filosófico passível de ecoar na memória por um bom tempo. Esqueça a ação desenfreada, as reviravoltas policialescas ou qualquer outro elemento largamente utilizado pelo cinema das grandes plateias. Rohmer elegeu a prosa cotidiana como a base para sua carreira na sétima arte, e vale ressaltar o seu passado de crítico quando ele começou a carreira de realizador. Em suas produções, ele reuniu atores de rostos desconhecidos para declamar, com a maior naturalidade do mundo, um texto que, quando não se mostra rico em reflexões, exibe comentários espirituosos sobre as pessoas e suas complicações. 

O amigo da minha amiga (L'ami de mon amie, 1987) reúne essas características. Aliás, cada filme seu é metonímia de toda a sua produção, o que deixa o espectador à vontade para começar a visita à sua filmografia pelo título que preferir. Último exemplar da série de Comédias e Provérbios, que Rohmer dirigiu ao longo da década de 80 e se compõe de seis obras, parte de uma premissa incrivelmente simples para investigar os caminhos tortuosos do coração, simbolicamente o centro da vontade humana. Uma jovem secretária está almoçando sozinha em um restaurante quando uma outra moça se aproxima e pede permissão para se sentar com ela, que concorda. Em poucos minutos, as duas já terão engatado uma animada conversa sobre amenidades, e se tornarão como amigas de longa data. Elas atendem pelos nomes de Blanche (Emmanuelle Berchot) e Léa (Sophie Renoir). A primeira é solteira e um tanto seletiva com os homens, enquanto a segunda vive um relacionamento morno com Fabien (Eric Viellard).

Também em pouco tempo, Léa percebe que seu namorado cairia muito melhor para Blanche, e começa a empurrá-lo sutilmente para a amiga, a qual resiste devido à sua exigência e ao respeito que tem por Léa. Para introduzir um pouco mais de complicação à narrativa, surge a figura de Alexandre (François -Eric Gendron), um sujeito vaidoso ao extremo que está acostumado a esperar que as mulheres o abordem para iniciar a conquista. Esse garanhão às avessas, por assim dizer, consegue mexer com Blanche, mas Léa a aconselha a não criar muitas expectativas quanto a ele porque relacionamentos duradouros não fazem parte de sua cartilha. Ainda assim, ela ajuda a amiga a se aproximar de Alexandre, como forma de fazê-la sentir na própria pele o desencanto conforme for conhecendo mais de perto aquele pavão nada misterioso. Mais adiante, porém, é Léa quem começa a se interessar de outra maneira por Alexandre, enquanto Blanche e Fabien, em boa parte devido a casualidades, se unem cada vez mais.


Em termos de sinopse, resta pouco a se descobrir sobre O amigo da minha amiga. Mas, em se tratando de um cinema pobre em ação como o de Rohmer, detalhe já apontado por esta crítica, o mais importante se torna a condução dos conflitos - leves ou pesados, a depender da perspectiva de quem os enxerga e, para quem os vive, sempre pesados. É uma história para quem gosta de se sentar à janela e olhar a paisagem enquanto o trem o ou ônibus se locomove, sem pressa de chegar. A modernidade nos roubou esse tempo e essa inclinação, fazendo cada segundo se tornar uma eternidade diante da pressa - quem suporta esperar cinco segundos para pular as propagandas que antecedem os vídeos do YouTube? Entretanto, para os amantes de uma boa prosa, os filmes de Rohmer são altamente compensatórios, e a teia de coincidências engendrada pelo diretor em O amigo da minha amiga soa orgânica e interessante. A pergunta que não quer calar não é "quem vai ficar com Blanche?", mas "como as amigas conseguirão administrar a mistura de sentimentos que vêm experimentando?".

O figurino das amigas também merece atenção. O roteiro brinca o tempo todo com as cores que cada uma escolhe, transmitindo mensagens através delas. É como se ambas estivessem numa espécie de distribuição complementar diante da vida, perspectiva que encontra correspondência na atração despertada em uma e outra diante de Fabien e Alexandre. Se uma veste uma blusa azul, a outra aparece vestindo verde, e esses tons frios contrastam com as personalidades cálidas de ambas, embora Blanche aparente ser um pouco mais fleumática. As protagonistas parecem ter sido revistas anos mais tarde por Woody Allen no seu Vicky Cristina Barcelona (idem, 2008), um outro belíssimo ensaio sobre as armadilhas do querer estrelado por duas amigas cindidas por suas escolhas. Por fim, cabe assinalar a ambiguidade presente no título original: "ami" pode ser traduzido como "amigo" ou "namorado", o que faz toda a diferença nos códigos estabelecidos entre os indivíduos. Esse detalhe se perdeu no nome brasileiro do filme, e é claramente reforçado com a epígrafe, que resume: "Os amigos dos meus amigos são meus amigos".

8.5/10

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