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sexta-feira, 30 de maio de 2014

A amizade como um tesouro de valor inestimável em 3 idiotas

"[...] mas há um amigo mais chegado do que um irmão." (Pv 18.24)

Gentileza e carinho genuínos. Ambos os ingredientes transbordam pelos quase 180 minutos de duração de 3 idiotas (3 idiots, 2009) e estão inseridos em um contexto de amizade que não conhece quaisquer fronteiras de espaço ou tempo. O realizador indiano Rajkumar Hirani foi extremamente feliz ao reunir três sujeitos com suas idiossincrasias através de laços invisíveis, mas estreitíssimos e profundos, comprovando a veracidade do versículo bíblico que abre está crítica, encontrado no livro de Provérbios, coletânea de reflexões sobre a vida em sua plenitude que demonstram uma sabedoria decorrente da experiência ou da inteligência adquirida ao longo de muitos anos. Os tais idiotas do título são Raju (Sharman Joshi), Rancho (Aamir Khan) e Farhan (Madhavan), que se conhecem na faculdade de engenharia, na qual estão por razões distintas e não exatamente por vontade própria. 

Boa parte da história é narrada sob a forma de flashback, com a voz em off de Farhan, que trata de informar os detalhes do relacionamento do trio, que viveu poucas e boas (ou muitas e péssimas, para ser mais fiel aos acontecimentos) desde que iniciaram o curso universitário, até que seus caminhos foram se dividindo. A união dos amigos foi propiciada pela figura algo subversiva de Rancho, questionador dos métodos adotados e dos conteúdos ministrados pelos professores da faculdade, que envolvem memorizações mecânicas e teorias que soam muito distante da realidade que espera ao alunos. Tal conjunto de regras é fruto da mentalidade tacanha do diretor Viru Sahastrabudhhe (Boman Irani), "carinhosamente" apelidado de ViruS, por sua influência perniciosa aos corpos docente e dicente, não permitindo que ninguém pense fora de seu horizonte de expectativas, limitadíssimo, como se pode perceber por essa breve descrição de seu caráter.

Durante as aulas, Rancho manifesta seu inconformismo, e deixa um professor sem palavras ao fazê-lo cair em sua própria armadilha de exigir que os alunos expliquem tudo em função de uma série de termos técnicos. Ele se refere a um de seus pertences com um vocabulário propositalmente pedante e confunde o mestre para, em seguida, usar o nome pelo qual o objeto é facilmente conhecido: caderno. Em outra ocasião, ele consegue boicotar o tradicional trote aplicado aos calouros, pregando uma peça no líder da prática. Por essas e outras atitudes, ele se torna uma referência para Raju e Farhan, e não tarda para que os três se tornem inseparáveis e comecem a ser vistos como idiotas pelo restante das pessoas. Mas trata-se de uma perspectiva enviesada, já que nenhum deles tem nada de idiota. Muito pelo contrário: a inteligência de Rancho para inventar soluções e o afinco de Raju e Farhan, que logo aprendem a ir além em seus conhecimentos, colocam em xeque o uso do adjetivo com eles.

O contraponto desse pensamento arejado é o irritante Chatur (Omi Vaidya), que restringe seus estudos a decorar fórmulas e conceitos para repeti-los mecanicamente nas aulas e nas provas, servindo de oportunidade para o roteiro escrito pelo realizador em colaboração com Abhijit Joshi criticar o sistema de ensino indiano. É prática comum ainda hoje nas escolas e universidades do país a mera transmissão de conteúdo por parte dos professores, que também insistem em uma relação verticalizada com os alunos, como supostos detentores da verdade e da certeza sobre tudo que apresentam em sala. Ao ir contra esse sistema, Rancho se torna persona non grata, indignando ViruS, um homem de hábitos estranhos, como a soneca diária de sete minutos e meio depois do almoço, durante a qual é barbeado em sua sala. Para piorar, ele se envolve com Pia (Kareena Kapoor, lindíssima), ninguém menos do que a filha daquele que se tornou seu inimigo declarado.


Em meio a esses e outros elementos folhetinescos, 3 idiotas pensa a amizade como um fonte de ajuda e aprendizados mútuos, falando ao coração muito mais do que aos olhos ávidos de efeitos visuais mirabolantes. Em se tratando do cinema indiano, também se trata de um filme bem típico, que reúne vários números musicais, que podem ser de gosto duvidoso para alguns espectadores, mas nunca perdem totalmente de vista o senso de humor, como a passagem em que os amigos dançam no vestiário durante o banho e vão até o pátio central da faculdade, combinados com uma letra digna de atenção e uma melodia contagiante. A dose de romantismo - também passível de análises positivas e negativas por ser uma questão de gosto, afinal - fica por conta de Rancho e Pia. Com seu jeito inquiridor, ele acaba levando a jovem a reconsiderar a ideia de se casar com um playboy que está sempre dizendo o preço de tudo que compra, numa aspiração deletéria à aristocracia.

Com uma narrativa tão longa, sobra tempo e ocasião para 3 idiotas discutir várias outras questões, como o direito dos filhos à escolha de seus caminhos, promovida através de Farhan, que alimenta o sonho de ser fotógrafo e só está cursando engenharia por causa do pai, e também de Raju, que toma uma atitude drástica ao ver que corre o sério risco de desapontar a mãe necessitada, que aposta todas as fichas em sua graduação. Não faltam momentos em que pode ser muito difícil segurar as lágrimas, já que o cuidado e o apreço dos amigos um pelo outro é incondicional e se traduz em gestos emocionantes, como fazer uma festa para um deles voltar à consciência. O grande herói da história é mesmo Rancho, interpretado por um dos atores mais requisitados do país, que também exibe vocação para galã com sua estampa visualmente agradável, por assim dizer. Sua figura já foi até matéria-prima de uma monografia da área de Comunicação Social que versa justamente sobre a representação do herói, mais um atestado do valor do filme para além de algumas horas de entretenimento - embora cumprir esse papel já o legitimasse o suficiente. 

Aliás, se encarado sob o prisma conservador da cultura indiana, Rancho é o extremo oposto do que se espera de um herói, segundo a análise empreendida nessa monografia. O que se nota é um país que, apesar de tão distante e diferente do Brasil, também é palco da convivência sempre tumultuada entre o tradicional e o moderno, o que torna ele e ViruS personagens extremamente verossímeis. O traço mais cinematográfico talvez fique por conta do testemunho da mudança experimentada por esses indivíduos, que desenvolve de maneira gradual e faz acreditar que ninguém é tão inflexível no fim das contas. Em seu todo, 3 idiotas acende a esperança diante das pessoas e relembra que ninguém está sozinho se tem amigos, lição já ensinada por Frank Capra em A felicidade não se compra (It's a wonderful life, 1946), e que um bom amigo é para se levar para vida toda, o que seu xará Darabont fez ver em Um sonho de liberdade (Shawshank redemption, 1994). Resta, então, a certeza de que todos precisamos de amigos assim.

10/10

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