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sábado, 26 de outubro de 2013

Eu e você, o isolamento juvenil revisitado

Saudado como o retorno de Bernardo Bertolucci à direção após um hiato de nove anos, Eu e você (Io e te, 2012) se firma, antes de mais nada, com um novo olhar do cineasta sobre a juventude. Ambientada na Itália contemporânea, a narrativa flerta com o minimalismo e está centrada em Lorenzo (Jacopo Olmo Antinori), um adolescente introspectivo, com seus 15, 16 anos, que experimenta a inquietude sentimental e a profusão hormonal típicas dessa faixa etária. Quando surge uma viagem para uma estação de esqui promovida pela escola, o garoto enxerga a oportunidade para continuar em casa e reúne mantimentos para ficar no porão do prédio em que mora no período em que deveria estar longe. Sua personalidade arredia o faz evitar aglomerações de pessoas, e a solidão de alguns dias lhe serve de alívio. 

Entretanto, a tranquilidade é logo interrompida pela chegada de Olivia (Tea Falco), a meia-irmã que enfrenta problemas com o abuso de drogas e pede para ficar ali com ele. Caso Lorenzo não aceite dividir o espaço com ela, será delatado para seus pais e o seu plano de isolamento voluntário fracassará. Diante da chantagem, ele cede e deixa a garota lhe fazer companhia, mas a sua permanência ali também é um problema. Progressivamente transtornada pela abstinência, ela sacode o porão com suas crises e expõe também a fragilidade interior de Lorenzo, inábil para lidar com uma série de problemas. É assim que Bertolucci vai fazendo de Eu e você um interessante estudo das angústias juvenis dos anos 2000. À diferença dos jovens ambíguos de Os sonhadores (The dreamers, 2003), sua obra-prima, Lorenzo e Olivia parecem não ter pelo que lutar, a não ser pelo próprio conforto.

Nesse estudo, o realizador demonstra um misto de sabedoria senil com frescor jovem. A consequência é um filme que não parece assinado por alguém de mais de 70 anos, como é o seu caso, mas por um garoto que está vivendo a mesma fase de seus protagonistas. Esse detalhe só vem demonstrar o quanto ele não perdeu o domínio sobre sua temática favorita, abordada com irregularidade ao longo de sua carreira - para além do seu êxito maior em Os sonhadores, Bertolucci foi feliz também em O conformista (Il conformista, 1970), outro retrato das transformações internas e externas de um jovem atravessado por mil alternativas. Entretanto, Eu e você soa como um projeto mais modesto, cujas ressonâncias reflexivas apontam para uma juventudade desencantada, que perdeu a fé no mundo e não sabe verbalizar com clareza os conflitos que se agrupam em seus pensamentos. Mesmo porque, dar nomes a sentimentos e caracterizá-los é uma tarefa hercúlea.


A tarefa de encarnar esses jovens inquietos foi entregue nas mãos de atores estreantes, o que confere graciosa naturalidade às suas interpretações. E, pela falta de experiência, tanto Antinori quanto Falco apresentam hesitações e uma certa apatia que funcionam a maior parte do tempo para seus personagens. Mesmo porque, os adolescentes da vida real também sofrem dessa falta de traquejo. Bertolucci também volta a tratar da questão do incesto, subscrita ao relacionamento entre os meio-irmãos e que oferece seus vislumbres no ciúme de Lorenzo quando aparece o pretendente mais velho de Olivia, bem como no tratamento que dispensa à mãe nas poucas cenas em que ela aparece. Todavia, como é tudo apenas sugerido, a leitura permanece uma responsabilidade do espectador, que pode ou não concordar que o assunto esteja imbricado na trama.

Em seu conjunto, Eu e você é um filme menor de Bertolucci, o que está longe de significar um demérito, mas uma espécie de aviso para que se entre em contato com a história de modo mais cauteloso, sem tantas expectativas. A força da história está na imagem e no som, não em seus diálogos simples e de profundidade psicológica relativa. A trilha sonora é formada por canções badaladas da contemporaneidade e sublinham os matizes sentimentais de Lorenzo e Olivia, tão perdidos no emaranhado de escolhas quanto seus antepassados de eventos célebres como o Festival de Woodstock, o Maio de 68 ou a Primavera de Praga. Nesse sentido, o diálogo do filme se estabelece não apenas com os longas anteriores do parmesão, que aqui adapta o romance Niccolò Ammaniti, mas com uma vasta galeria de títulos cujo ângulo de visão está inteiramente dedicado ao clamor jovem.

7/10

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