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sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Uma extensa obra revisitada em Woody Allen: um documentário

Pertencente à estirpe dos realizadores de obra extensa e celebrada, Woody Allen estava, há tempos, merecendo um documentário. Eis que, finalmente, Robert B. Weide decidiu fazer justiça e filmar Woody Allen: um documentário (Woody Allen: a documentary, 2012), cuja tarefa mais árdua é revisitar os mais de 40 longas-metragens que compõem a filmografia do novaiorquino septuagenário. Como resultado, a versão original do filme acabou tendo quase 3 horas de duração, que foram transformadas em pouco menos de 2 horasna versão para o cinema. Antes de mais nada, o seu valor está no simples fato de tratar acerca da produção cinematográfica de um autor na essência. Weide conduz o público em um trajeto delicioso pelos primeiros passos de Allen, quando ainda era um comediante daquilo que hoje se conhece como stand-up comedy, cujo cerne é o humor despojado de maquiagem, baseado na palavra. Mesmo que, para os seu fãs mais ardorosos, boa parte da história seja conhecida, torna-se interessante conferir entrevistas e imagens dessa época inicial de sua carreira.

Não faltam depoimentos de pessoas que convivem com o diretor há anos, muitos deles seus colaboradores leais atrás das câmeras, como Jack Rollins, com quem trabalhou em quase todos os seus filmes, e que conhece Allen profundamente. Também sobra espaço para vários atores tecerem os seus comentários sobre o prazer de trabalhar com ele e confirmarem algumas informações relativas ao seu método de trabalho, como o fato de ele raramente repetir tomadas e dar poucas instruções sobre como deseja as interpretações, deixando os atores livres para apostar em um trabalho mais intuitivo. Lá estão Mariel Hemingway, Louise Lasser, Josh Brolin, Scarlett Johansson e Owen Wilson, por exemplo. As velhas manias do diretor também aparecem, sobretudo o seu apego a uma antiga máquina de escrever que ainda lhe serve para a escrita de seus roteiros. Questionado sobre o motivo de não se atualizar e escrever seus textos em um computador, ele diz não ver necessidade e argumenta que se vira muito bem com a máquina, além de apresentar suas estratégias para o caso de errar uma palavra e ter de corrigi-la. Então, mostra uma pilha de papéis cheios de colagens, que ele admite ser o único a entendê-los perfeitamente.

A estrutura de Woody Allen: um documentário é a mais ortodoxa possível. Weide investe nos depoimentos que se alternam com imagens de arquivo e vídeos antigos que mostram participações de Allen em vários programas de humor, que ajudam a nortear o público na rota de crescente popularidade que ele foi percorrendo, especialmente depois de começar a dirigir filmes. Allen sempre encontrava espaço para fazer galanteios às apresentadoras e brincava com sua própria timidez, mostrando o quanto seu humor também traz uma cota de autodepreciação, que ele normalmente imprime aos alter egos que habitam sua obra. Do ponto de vista dramático, Weide poderia ter se arriscado mais quanto à forma e apresentado um documentário mais azeitado, mas a sua sorte é ter como eixo temático um realizador que, por si só, já é capaz de conferir qualidade a qualquer produção feita a seu respeito. Diante disso, pequenos deslizes acabam sendo irrelevantes e assistir ao longa se torna uma experiência de fruição, um belo “recordar é viver”. Mesmo porque, não é toda hora que o diretor se abre na frente de uma câmera e começa a relatar passagens de sua vida. Há tempos, ele prefere a reclusão e tem se dedicado apenas a dirigir e roteirizar seus filmes, tornando suas aparições como ator cada vez mais esparsas.


Indo de Um assaltante bem trapalhão (Take the money and run, 1969) a Meia-noite em Paris (Midnight in Paris, 2011), o documentário analisa algumas fases identificáveis na obra de Allen, sem, contudo, deter-se no comentário sobre algumas constantes que se verificam nessa obra. Também nesse quesito, Weide optou pelo tradicionalismo, e apresenta a sua filmografia em ordem cronológica, dedicando tempos desproporcionais aos filmes e fazendo alguns saltos inexplicáveis. Nos primeiros títulos, há um aprofundamento maior e a demonstração do quanto eles representavam uma transição entre a vocação cômica de Allen talhada nos palcos e o humor físico, que seguem, pelo menos, até A última noite de Boris Gruschenko (Love and death, 1975), para, em seguida, ir-se diluindo. Como não poderia deixar de ser Noivo neurótico, noiva nervosa (Annie Hall, 1977) ganha muito espaço, e Diane Keaton aparece diversas vezes falando sobre a longa parceria com o diretor e o quanto esse filme é significativo para suas carreiras. Manhattan (idem, 1979) é outro ao qual Weide dispensa um bocado de minutos, assim como Memórias (Stardust memories, 1980), citado como um ponto de virada na carreira de Allen e um rearranjo no seu relacionamento com o público e a crítica, que recebeu mal sua primeira tentativa de estabelecer diálogo com o onirismo felliniano, cujo símbolo máximo é 8 ½ (idem, 1963).

O problema começa quando, a partir de certa altura, os filmes começam a ser comentados muito rapidamente. Por mais que a crítica diagnostique uma fase mais claudicante na obra alleniana, não cabe a Weide corroborar essa tese e, ao chegar ao final da década de 90, passar batido por certos exemplares. Ele simplesmente ignora Celebridades (Celebrity, 1998), Trapaceiros (Small time croocks, 2000) e Dirigindo no escuro (Hollywood ending, 2002), como se os filmes nem existissem. E só retoma a calma ao chegar a Ponto final (Match point, 2005), cujo trailer surpreendeu até mesmo Rollins. Há que se lembrar que Woody Allen: um documentário não é somente para fãs, e poderia representar também uma porta de entrada para não iniciados na filmografia do diretor, que teriam, assim o leque de opções de sua obra disposto na íntegra. Bastaria escolher com qual delas começar, o que seria um julgamento inteiramente pessoal. Algumas polêmicas também não são muito comentadas, sobretudo as que dizem respeito a sua vida particular. É claro que o documentário não deveria se parecer com um apanhado de fofocas sobre Allen, mas a proposta de colocar lado a lado o artista, o homem e a obra deveria levar a um mergulho o mais amplo possível nessas três instâncias, o que envolve um certo risco que, talvez, Weide não estivesse muito disposto a assumir. Sua paixão pela música, por exemplo, quase não é mencionada. Ainda assim, as qualidades do filme se sobrepõem aos seus defeitos e tornam-no um documento valioso sobre um diretor metódico e afeito aos diálogos cinematográficos que detesta ir a festivais mas se esforça por causa da esposa e dos filhos. Uma dívida, felizmente, saldada com ele ainda vivo.

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