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quarta-feira, 27 de setembro de 2017

QUINTETO DE OURO - INGMAR BERGMAN

Em julho deste ano, completamos uma década sem Ingmar Bergman. Como passou rápido... Se, por um lado, porém, lamentamos que ele tenha partido desse mundo, por outro celebramos o fato de que sua obra resiste ao tempo, convidando a primeiras, segundas e terceiras visitas periódicas, com maior ou menor grau de aproveitamento a depender da inclinação da alma. Sim, a alma é um elemento basilar na filmografia desse sueco nascido em Uppsala, que dedicou boa parte de seus 88 anos a "capturar" uma parte intangível de todos nós, e que ele acreditava ser vermelha, levando essa ideia em toda sua explicitude para um de seus longas, entre os mais celebrados de sua carreira.

Como nas demais edições do Quinteto de Ouro, a ideia aqui não é oferecer uma biografia pessoal ou artística de um diretor homenageado. Livros e sites já existem aos montes para cumprir essa função. A proposta é destacar, num mar (in)finito de possibilidades o que mais me atrai em um tema relacionado ao universo cinematográfico. No caso de Bergman, quais são os cinco títulos que me atraem em um filmografia composta por nada menos que 64 títulos, entre produções para cinema e televisão, longas e curtas. Ainda não vi muitos deles - foram 30 longas e 1 curta até agora -, mas me considero com base quantitativa e qualitativa o suficiente para apontar (em ordem cronológica) o que há de melhor do realizador preferido de Woody Allen, e um dos meus preferidos também.

1. Morangos silvestres (Smultronstället, 1957)


Um dos ícones máximos de sua carreira juntamente com O sétimo selo (Det Sjunde Inseglet, 1957), que ele teve a capacidade de rodar no mesmo ano, essa ode à memória não poderia deixar de ganhar uma vaga no meu quinteto. É com muito carinho e quase nenhuma indulgência que Bergman, então à beira dos 40 anos, filmou o percurso de um médico veterano (Victor Sjöström, ator e diretor bissexto) até uma universidade onde será homenageado pelas décadas de profissão. Os tais morangos do título são uma entre tantas lembranças afetivas, tristes ou raivosas que povoam sua cabeça, e vão sendo acionadas neste que também é um belíssimo exemplar de filme de estrada. Há quem diga que a experiência causa sono: de fato, tudo caminha lentamente aqui, incluindo o carro com o qual Isak viaja. Mas aonde vamos com tanta pressa? Sentar e contemplar uma vida compartilhada, com a qual pode surgir mais ou menos identificação, é uma espécie de terapia muito válida e, com o tempo, que me parece cada vez mais necessária, já que o tempo ensina (ou obriga) a fazer revisões periódicas na caminhada. 

2. Persona (idem, 1966)


Não há como não se maravilhar com as interpretações de Andersson e Ullmann em seus respectivos papéis. Ambas propiciam um embate inesquecível em cada cena, mexendo com os nervos e as emoções de um público que assiste atordoado a alguns devaneios, confissões e a uma apropriação intensa de personalidade. Persona requer as nossas inferências, exige um espectador sem qualquer passividade para completar as muitas lacunas que a narrativa oferece e ler a trama à sua maneira. Esse é um traço típico do cinema bergmaniano, mas, aqui, aparece elevado a um nível de radicalismo que o torna mais aparentado de outras obras perturbadoras de sua carreira, como o aterrador A hora do lobo (Vargtimmen, 1968), rodado apenas dois anos depois. O realizador sueco se aproveitou e realçou a semelhança física entre as atrizes, duas de suas musas maiores, e o ápice dessa similitude entre elas é o plano que traz os seus rostos praticamente fundidos, confundindo-nos. Os rostos que contêm as máscaras. Os rostos que são as máscaras. Caem as máscaras. Rasga-se o véu. Tudo é um claro enigma. Viver mata. [crítica completa]

3. Cenas de um casamento (Scener ur ett Äktenskap, 1973)


Entre as várias qualidades que podem ser apontadas no filme, uma das principais é, seguramente, o texto muito bem escrito , cuja autoria coube ao próprio diretor. As palavras quase sempre exalam sinceridade e, quando não o fazem, um gesto ou um olhar dão conta de exprimir aquilo que realmente se passa com o casal. Não há reducionismos aqui: tanto um quanto o outro se mostra em vários lados, corroborando a ideia de que a fragmentação é parte integrante da composição de cada indivíduo. Avesso a qualquer formatação e opinião pré-concebida, Bergman examina Johan e Marianne e deixa que o público escolha de que lado prefere ficar, se é que se pode falar em lados quando se trata de um relacionamento a dois. De qualquer modo, mesmo que a decisão do espectador seja a de torcer por um deles, é bem provável que suas impressões mudem a todo tempo, à medida que o filme transcorre e mais e mais aspectos da natureza dos personagens vão vindo à tona. E, de nada adiantaria um texto tão transparente se o diretor não contasse com os desempenhos assombrosos de Ullmann e Josephson. Velhos conhecidos de Bergman, eles são escolhas acertadíssimas, demonstrando mais uma vez o quanto são intérpretes talentosos. [crítica completa]

4. Sonata de outono (Höstsonaten, 1978)


Uma das especialidades do cinema bergmaniano é justamente as interdições derivadas da dificuldade de comunicação. Ao longo de sua filmografia, o realizador sueco apresentou variações dentro desse tema, focalizando amantes, maridos, esposas, e irmãos, além de se propor a analisar as dessintonias entre os homens e Deus. São elementos que fizeram parte de sua vida pessoal e serviram de base para obras profundas, muitas delas capazes de operar transformações internas em seu público ou, no mínimo, de causar o desconforto de um nó na garganta. Acontece exatamente assim com Eva e Charlotte. O que a filha deseja, na verdade, é reavaliar todos os anos em que se sentiu abandonada e rejeitada pela mãe através de um confronto direto. Porque chega um tempo em que não é mais possível manter tantos sentimentos represados: é preciso liberá-los de alguma maneira, e cada um deve encontrar a sua. [crítica completa]

5. Saraband (idem, 2003)


Muitos anos transcorreram desde que Marianne (Liv Ullmann) e Johan (Erland Josephson) se viram pela última vez. O tempo é implacável: não espera por nada nem por ninguém. Por outro lado, é curioso o fato de que, muitas vezes, constatamos que longo período de distância de alguém parece se reduzir a uma escala ínfima quando se reencontra essa pessoa. Essa impressão, de certa forma, sobrevém a Marianne quando ela volta a fazer contato com Johan, exatos trinta anos após um dia que talvez tivesse sido uma despedida. E assim temos a introdução de Saraband (idem, 2003), que carrega consigo a “responsabilidade” de ser o último filme de Ingmar Bergman. Depois de uma carreira que cobriu um arco temporal de décadas, ele entregou mais um exemplar filmico de sua capacidade impressionante de escavar sentimentos de seus personagens como quem fustiga um rochedo e vê brotar dali uma nascente.  [crítica completa]

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