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sábado, 19 de agosto de 2017

QUINTETO DE OURO - FILMES DE ESTRADA

Referidos mais comumente pela nomenclatura inglesa - road movies - os filmes que colocam seus personagens para rodar por aí constituem um subgênero prolífico, que contém várias pérolas a serem conferidas ou rememoradas. Particularmente, é um dos que eu mais gosto, e já era hora de prestar minha singela homenagem a ele com uma edição do Quinteto de Ouro. A seleção de apenas cinco títulos, como de hábito, é trabalhosa, porque me obriga a deixar de fora alguns queridinhos por pura falta de espaço, mas sigo fiel à proposta de me esforçar num recorte, mesmo que ele possa ser representativo apenas da época em que foi feito. E será interessante, daqui a algum tempo, revisitá-lo e constatar o que mudou ou o que segue firme e forte no meu coração. 

O critério para organizá-los na lista, dessa vez, não foi cronológico. Para variar um pouco, decidi recorrer à ordem alfabética, tão prática e objetiva quanto a cronologia e, por isso mesmo, um pouco menos torturante - o paradoxo das listas é esse: uma deliciosa agonia. Cada diretor aparece com somente um filme, compondo um panorama rico de indicações e lembretes que, certamente, suscitarão debates - "esse entrou e aquele não?", dirão alguns. Mas aí também está a graça de fazer listas: compartilhar com os amigos e conhecidos e discutir os vários pontos de vista e gostos. Agora é hora de cair na estrada com ótimas companhias!

1. A estrada da vida (Federico Fellini, 1954)


Desencanto e ternura desfilam pela tela em igual proporção nos 104 minutos dessa viagem felliniana pelos caminhos tortuosos em que se mete Gelsomina (Giulietta Masina). A protagonista baixinha e de olhos altamente expressivos deixa seu cotidiano de pobreza com a mãe para uma suposta melhora de vida com Zampanò (Anthony Quinn), mas as dificuldades permanecem. E o relacionamento entre eles não é dos melhores, ocasionando momentos oscilantes entre expectativa e ilusão. O mundo parece não ter boas surpresas para Gelsomina, mas existe um brilho no fundo de seu olhar que insiste em se manter aceso - o mesmo brilho que veríamos poucos anos depois na personagem título de Noites de Cabíria (Le notti di Cabiria, 1957), vivida pela mesma Masina. Esposa de Fellini até a morte do cineasta, era uma gigante em cena, a despeito da estatura física desfavorável à primeira vista. Três paixões fellinianas estão reunidas aqui: ela, a estrada e o circo, este último um palco e tanto para suas alusões ao sonho e à esperança.

2. História real (David Lynch, 1999)


O filme mais comportado de Lynch é também o seu mais emocionante. Quem conhece um pouco de sua filmografia sabe que ele capaz de abraçar a estranheza em maior ou menor grau - A estrada perdida (Lost highway, 1997) e Cidade dos sonhos (Mulholland Drive, 2001). Mas aqui ele deixa a sutileza reinar e nos leva junto com Alvin (Richard Farnsworth), que usa um velho cortador de grama como meio de transporte para visitar o irmão que não vê há anos e mora longe demais. À medida que vai trilhando seu caminho, Alvin vai se deparando com variados tipos, alguns com verdadeira vocação para o abandono e sedentos de afeto em seus corações. Exatamente como a jovem grávida que ele encontra logo no começo de sua odisseia particular, a quem dá conselhos sábios, assim que descobre sua situação complicada. Como um bom exemplar do subgênero que é, reforça a certeza de que o percurso é tão importante quanto a chegada ao destino, reservada para os minutos finais, em uma das cenas mais acolhedoras de toda a narrativa. Triste é saber que apenas um ano depois do longa, Farnsworth deixou este mundo.

3. Nebraska (Alexander Payne, 2013)



Terceiro filme consecutivo a abraçar a temática, Nebraska mostra seu valor logo em seus primeiros minutos. A questão familiar também rege a narrativa, centrada em pai e filho que viajam os 1300 km que separam sua casa do estado que intitula o filme para receber um suposto prêmio de uma editora. O genitor é vivido por Bruce Dern, prêmio de interpretação masculina em Cannes: arrancou elogios da plateia, que se emocionou com seu desempenho minimalista de um homem marcado pelo tempo e pelo vício, mas que conserva um humor sagaz sob a aparência de idoso desamparado. Seu sarcasmo vem à tona nos diálogos com Will, travados nos bares aos quais ele não resiste não entrar. E não se pode deixar de mencionar June Squibb (indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante) a matriarca que também acaba se juntando nessa longa viagem. Sem quaisquer papas na língua diante dos demais componentes da família, que todos visitam no caminho para o prêmio falacioso, assim como os vizinhos locais, ela destila seu senso de humor pesado contando várias verdades que Will não imaginava existirem. 

4. No decurso do tempo (Wim Wenders, 1976)


No Quinteto de Ouro sobre a década de 70, ele estava presente, assim como no artigo dos 15 subestimados e se encaixou muito bem em mais uma categoria, por isso volta a aparecer.  Já deu para ver o quanto amo o filme, e repito aqui o texto escrito para o Quinteto. As viagens dos protagonistas pelas estradas também traz à tona a questão da incomunicabilidade que tanto aflige os seres humanos, da qual os personagens não escapam. Os pequenos ruídos de comunicação entre ambos responde pela oscilação na sua proximidade, assim como acontece com amigos cuja relação sofre ranhuras, ainda que imperceptíveis a olho nu, a cada vez que uma dissonância importante se concretiza. Nesse sentido, a abrangência de No decurso do tempo é enorme, por nos deixar entrever na lenta caminhada de Bruno e Robert algumas das nossas idiossincrasias mais veladas, ainda que, mesmo no filme, elas não apareçam escancaradamente. Wenders aposta nos silêncios e nos olhares que comunicam em parte e sublinham a angústia da procura por um interlocutor. A amizade entre Bruno e Robert é como um pálio de luz que se abre sobre eles e está circunscrita a um arco de tempo específico. Enquanto o tempo não finda, eles conhecem um pouco sobre o outro e um pouco sobre si mesmos. 

5. Pequena Miss Sunshine (Jonathan Dayton e Valerie Falls, 2006)


Uma família com várias disfunções entre seus membros cai na estrada e propicia uma crítica bem-humorada e consistente ao nefasto hábito estadunidense de tachar alguns de perdedores, longe de qualquer perspectiva refratária. A estreia de Jonathan Dayton e Valerie Faris atrás das câmeras, digna de alvíssaras, é um achado em termos de personagens, tão verossímeis em suas fragilidades. Quem nunca se viu inclinado a torcer por um candidato com poucas chances de vitória talvez não compreenda o fascínio exercido por Pequena Miss Sunshine, mas cada instante seu transpira encanto genuíno. Da pequena Olive ao atormentado Frank, passando pelo tresloucado Edwin, os habitantes da narrativa são mais do que meros tipos desenhados às pressas. Cativam pelo que têm de mais parecidos com cada um de nós, para o bem e para o mal, sem demonstrar qualquer esforço para serem adoráveis. Pontuado por cenas inesquecíveis, os diretores indicam o quanto um olhar afetuoso pode ser a melhor alternativa diante da indizível tristeza quando os sonhos se frustram e é preciso certo tempo antes de se encarar o recomeço. Entre risos e lágrimas, invoca nossa humanidade, por vezes, combalida. (Texto originalmente publicado no Cineplayers)

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