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domingo, 5 de outubro de 2014

Terror com pitadas de sarcasmo em Um lobisomem americano em Londres

Ao som de Blue moon, entoada por Bob Vinton, surgem os créditos de abertura de Um lobisomem americano em Londres (An American werewolf in London, 1981), e a mesma canção sonoriza o encerramento da história, dessa vez, na voz da banda The Marcels. Durante toda a narrativa, outras músicas contendo "moon" (lua) na letra vão sendo executadas, e ajudam na composição de um clima soturno e, ao mesmo tempo, sarcástico do filme escrito e dirigido por John Landis. É uma trilha sonora quase personagem, por assim dizer. A trama orbita ao redor de dois amigos que viajam a passeio para Londres. David (David Naughton) e Jack (Griffin Dune) chegam ao interior da cidade depois de pegar carona com um senhor que transportava cabras, e só querem um pouco de novidade e diversão. 

Entretanto, uma aura macabra recobre aquele local de pouquíssimos habitantes, todos desconfiados daquelas presenças estrangeiras e cheios de meias palavras. Quando entram numa taverna à procura de uma refeição, a postura claramente arredia desses moradores denuncia que algo de muito estranho acontece por ali, mas os amigos não fazem muito caso do fato, tamanha a empolgação de turistas que levam consigo. Mas a semente do sobressalto já foi plantada, e a sensação de que o perigo ronda os dois cresce depois que eles saem da taverna e começam a caminhar sob a luz de um luar sinistro por um descampado deserto. Nesse cenário, o primeiro clímax de Um lobisomem americano em Londres vem à tona, e lançam o filme definitivamente na esfera do horror, mas Landis nunca perde de vista um certo bom humor na condução da história, o que a mantém como um diferencial entre tantos filmes sobre a clássica lenda do homem que se transforma em lobo em noites de lua cheia.

Por sua estrutura e conteúdo, pode-se afirmar tranquilamente que se trata de um longa que não se leva a sério. Ao mesmo tempo, a narrativa oferece um estudo sobre a metamorfose de um homem absolutamente comum e sua dificuldade com o deslocamento resultante dessa condição distinta. É uma feliz conjugação de terror físico e psicológico, comédia ocasional e drama, cada um na sua medida e contribuindo para a totalidade da história. Em determinada passagem, é o primeiro que predomina e lhe confere um teor nevrálgico para, a seguir, prevalecer o segundo e alguns sorrisos serem esboçados ou efetivamente abertos, enquanto o terceiro responde pela franca agonia de um homem prisioneiro de sua própria natureza. A tal metamorfose é um trunfo dos efeitos visuais, exibindo riqueza de detalhes e surpreendendo pela qualidade, sobretudo quando se pensa que o filme foi rodado há mais de trinta anos, e houve tanta revolução na tecnologia desde então. Aliás, a maquiagem primorosa de Rick Baker fez dele o primeiro vencedor nessa categoria do Oscar, adicionada, em grande parte, pelo sucesso desse aspecto no filme.


A escolha de Naughton e Dune para os papéis dos turistas partiu de Landis, que vetou a presença de Dan Aykroyd e John Belushi, escolhidos da Universal. Vendo os dois perfeitamente entrosados em cena e sabendo ou não da decisão inicial do estúdio, é fácil constatar que Landis tinha razão. Naughton foi selecionado depois que o diretor o viu em um comercial de TV, enquanto a presença de Dunne no elenco foi questionada pelo sindicato de atores da Inglaterra, já que havia muitos atores residentes no país disponíveis para o personagem. O pé firme de Landis nessa e em outras questões deixou o filme com sua cara, mostrando que realmente é possível imprimir a marca autoral e a personalidade do diretor, um alento quando se pensa que na seara hollywoodiana, muitas vezes, são os produtores que ditam as regras. Até mesmo as filmagens aconteceram na ordem em que as cenas aparecem, uma demonstração do método de Landis, que trabalhou no roteiro do longa enquanto rodava Os guerreiros pilantras (Kelly's heroes, 1970), pouco mais de uma década antes.

O charme de Um lobisomem americano em Londres também está em sua pinta de filme B, um dos indicadores de seu pertencimento aos anos 80, que entraram para a História como exagerados e extravagantes. As aparições grotescas de Jack, cada vez mais decrépito, indicam essa verve um tanto quanto ordinária do filme, que pode ser apreciado tão somente como um terror divertido ou lido em mais camadas, sendo legítimas ambas as concepções. A graça de uma obra de arte, seja de que natureza for, é dar-se ao desfrute ou à repulsão conforme o receptor, que entra em contato com ela e, numa espécie de transação, apreende-lhe possíveis significados. Essa característica está assegurada aqui, fazendo da produção uma das mais interessantes para um público ávido de identidade própria em um universo cada vez mais isomorfista. A bem da verdade, Landis fez misérias com um orçamento de "apenas" 10 milhões de dólares e deixou à disposição da plateia, entre outras leituras, um tratado sobre feras e feridas internas.

8.5/10

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