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terça-feira, 29 de abril de 2014

O nevoeiro, uma discussão para além do suspense e da ficção científica

Em sua superfície, O nevoeiro (The mist, 2007) funde suspense e ficção científica, envolvendo seus personagens numa atmosfera literal de medo e ameaça. Desde os primeiros minutos, o mistério se instaura e produz a inquietude de uma visão bloqueada, como alguém que não consegue mais enxergar um palmo à frente do nariz. Uma forte e anômala tempestade precede o fenômeno atmosférico que dá título à história e, após ela, outros acontecimentos estranhos começam a invadir o cotidiano dos moradores de uma pequena cidade. Entre eles, David Drayton (Thomas Jane), desenhista de cartazes de filmes que tem seu trabalho prejudicado pela tormenta e vive uma demanda judicial com o vizinho da direita, a quem é obrigado a se dirigir para cobrar o seguro pela destruição de sua casa de barcos. Ao perceberem que estão em situações de estrago similares, eles acabam movidos por um espírito solidário e dão início a uma trégua implícita. 

Com o espalhar da névoa espessa sobre a cidade, os habitantes que estavam fazendo compras no supermercado principal se veem obrigados a permanecer ali, sobretudo depois que um homem entra desesperado no estabelecimento e anuncia que existe algo naquele nevoeiro, desconhecido e terrível na mesma proporção. Daí por diante, a narrativa começa a mostrar que vai além de uma mescla de gêneros cinematográficos, trazendo à tona discussões de ordem moral, religiosa e até filosófica. A produção tem seu roteiro e sua direção assinados por Frank Darabont, que adaptou uma obra de Stephen King pela terceira vez - ele já havia filmado Um sonho de liberdade (The Shawshank redemption, 1994) e À espera de um milagre (The green mile, 1999). Novamente, ele mostra enorme competência ao se apropriar de um texto do autor celebrado como um dos grandes contadores de histórias aterrorizantes, confirmando-se como o melhor adaptador de seus enredos soturnos.

Uma vez confinados no supermercado, David, seu filho e vários outros habitantes são confrontados em seus temores, que ora paralisam, ora desesperam, ora enlouquecem. Muito mais do que um conto de terror, O nevoeiro é uma proposta de análise sobre como situações-limite podem revelar o melhor e o pior dos homens, e a diversidade de reações nada mais é do que o reflexo nítido da complexidade da nossa natureza. Diante do mistério que o tal fenômeno atmosférico traz consigo, surgem explicações que incorrem nas mais variadas instâncias, como a da Sra. Comody (Marcia Gay Harden), uma fanática religiosa convicta de que os desdobramentos sobrenaturais que todos presenciam são resultado da ira de Deus. Para embasar sua crença, menciona passagens bíblicas, mas se equivoca por se manter presa à ideia de que Deus ainda exige sacrifício de alguma espécie para não lançar maldições sobre as pessoas, uma perspectiva sob a qual muitos homens e mulheres O enxergam ainda hoje e que divulgam nas várias mídias.


O papel é defendido com muita vitalidade por Harden, e o posto de grande vilã acaba sobre a Sra. Comody, através da qual o roteiro critica a postura de fundamentalistas religiosos que insistem nesse Deus carrasco e extremamente punitivo, esquecendo que Sua justiça e Sua misericórdia caminham lado a lado, sem que um atributo anule o outro. Tais conclusões podem ser encontradas a partir de uma leitura atenta do texto bíblico, não são meras opiniões surgidas deste ou daquele. Obviamente, é necessário ter fé para crer e assumir essas verdades, mas esse aspecto já levaria a questão para um outro rumo, que não cabe discutir nesta crítica. O fato é que Harden rouba todas as cenas em que aparece, levando personagens e espectadores a avaliarem sua conduta como repulsiva. Não obstante seu enviesamento, ela consegue arrebanhar seguidores conforme alguns acontecimentos vão amedrontando ainda mais os remanescentes dos ataques de seres descomunais e furiosos. Mas qual seria a explicação para o surgimento daquelas criaturas, afinal?

A resposta demora a chegar, o que leva às conjecturas da Sra. Comody e de outros personagens que seguem linhas de raciocínio distintas. É o caso de Brent (Andre Braugher), vizinho de David, que adota uma postura de extremo ceticismo diante dos testemunhos de seus companheiros de confinamento e insiste em deixar o local para descobrir o que pode estar acontecendo fora dali. Quando o primeiro fenômeno estranho ocorre e vitima Norm (Chris Owen, o garoto nerd de O céu de outubro [October sky, 1999]), atendente do estabelecimento, ele reage incrédulo e pensa que tudo não passa de uma armação de David, com quem volta a discutir. A bem da verdade, o acidente com o jovem é produto da teimosia de outros dois homens, que duvidam da audição de David e entregam Norm ao perigo. Depois de constatarem que David tinham a razão, só lhes restam a vergonha e a lamentação. A propósito de David, vale comentar o bom trabalho de Jane, no que parece o melhor desempenho de sua carreira, formada em grande parte de tropeços, sendo O justiceiro (The punisher, 2004) o mais apontado pela crítica. Aqui, ele vive um herói crível e vulnerável em constante luta contra o próprio medo.

Darabont teve autonomia para fazer algumas alterações no texto de King. No original, havia um ensaio de romance explícito entre David e Amanda (Laurie Holden), mas o realizador limou esse traço de obviedade da história, preferindo concentrar-se nos esforços dos personagens para lidar com as agruras impostas pelas entidades mutantes (?) que, cedo ou tarde, os atingem no supermercado. A sensação constante de insegurança exige medidas urgentes, e esse enfrentamento causa atitudes que, em condições cotidianas, muito provavelmente, não se concretizariam. Em certas passagens, o filme lembra Ensaio sobre a cegueira (Blindness, 2008), também baseado em um livro, por sua característica de expor indivíduos a um desconhecido que incide sobre as estruturas de sua humanidade. Para claustrofóbicos, O nevoeiro pode ser ainda mais aterrorizante, já que se passa a maior parte do tempo no espaço mínimo do supermercado. O restante da plateia também pode viver instantes de pavor, o que põe o filme entre os melhores dos últimos anos nos gêneros que abraça.

9/10

Um comentário:

  1. O confinamento, como dito no texto, derruba qualquer resquício de conservadorismo, obrigando-os a fazer o necessário para sobreviveram. Defrontes à situações de risco o homem é capaz de tudo, ótimo Texto Patrick!

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