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domingo, 6 de abril de 2014

De volta para o futuro 3, a despedida de parceiros inesquecíveis

Cheiro de nostalgia no ar... As aventuras de Marty McFly (Michael J. Fox) e Emmett Brown (Christopher Lloyd) oferecem ao público que não as acompanhou à época de seu lançamento uma empolgação difícil de conter, e chegar à sua última parte traz uma saudade antecipada, que se confirma depois que a última cena termina de ser exibida. De volta para o futuro 3 (Back to the future part III) é o desfecho de uma premissa genialmente desenvolvida, e o foco, dessa vez, recai sobre o cientista, como o final do filme anterior deixava indicado. Ao visitar a versão de 1955 de Emmett em busca de ajuda, Marty se apavora ao encontrar uma lápide com o nome do amigo, cuja causa mortis é uma briga tipicamente westerniana: um assassinato decorrente da perda em um duelo com um rival mal-encarado. O ano do falecimento é 1885, em que Emmett foi parar depois do acidente com o DeLorean no segundo filme. É então que eles precisam usar novamente o veículo e retroceder até o século XIX, tirando o inventor da máquina do tempo dessa enrascada. 

Em uma rápida comparação com seus antecessores, De volta para o futuro 3 perde alguns pontos, mas não deixa de apresentar suas qualidades próprias e reforçar algumas que são características da trilogia. Entre elas, o companheirismo irrepreensível de Marty e Emmett, capazes de se meter em grandes encrencas para, pouco depois, sacar soluções espertas da manga. No caso específico desse terceiro filme, o que é mais notável é a homenagem ao gênero faroeste realizada através do roteiro de Bob Gale. Da ambientação da história, passando pelos figurinos interioranos dos EUA - com os quais Marty não se dá muito bem - até os diálogos curtos e grossos proferidos pelos sujeitos nada amistosos que habitam a pequena cidade, há muitas remissões à cartilha clássica que nomes como Sergio Leone ajudaram a consagrar no transcorrer dos anos. Em meio a essas referências, não se perde de vista o humor, que surge do comportamento atrapalhado da dupla, longe de um perfil heroico tradicional.

O aspecto verdadeiramente incômodo dessa etapa da história é a sensação de que faltaram mais boas ideias a serem trabalhadas. Ainda pensando em termos comparativos, os filmes anteriores tinham vários acontecimentos sobrepostos, e uma simples piscada poderia representar a perda de detalhes importantes. De volta para o futuro 3 é, por assim dizer, minimalista, delimitando o seu nó narrativo em poucos minutos e desenvolvendo-se inteiramente ao redor de sua resolução, e as tentativas para tal se estendem por duas horas. Mas, até nesse ponto, o filme se assemelha a um faroeste, em que se costumam ver enredos áridos sendo trabalhados ao longo de muitos minutos, e os duelos regados a muitas balas dão o tom da experiência fílmica. Ao mesmo tempo que é um defeito da obra, afirma-se como uma de suas peculiaridades, a depender do prisma sob a qual ela é observada. Vale dizer que Marty e Emmett se saem muito bem como caubóis de ocasião, e a valentia do segundo, despertada quando o chamam de covarde, é bem útil para livrá-los de algumas situações.


De todas as homenagens e citações ao gênero cinematográfico mais representativo dos EUA, porém, a mais escancarada surge quando Marty se apresenta como Clint Eastwood, ninguém menos que o protagonista da Trilogia dos Dólares. O rapaz usa o pseudônimo quando é perguntado por Seamus (o próprio J. Fox) e Maggie (Lea Thompson), ninguém menos que seus trisavós, sobre sua identidade, e não quer causar mais confusão àquela altura por ser reconhecido como descendente daquela família. Foi uma boa sacada de Gale essa. Ele ainda brinca com o fato de que Eastwood ainda não era um nome icônico em 1885, um dos anos porque a história passa, além de um dos índices de unidade da trilogia. Entrar em detalhes sobre outros desdobramentos da trama é cortar o barato de seus futuros espectadores. Por outro lado, quem já conferiu os filmes pode se relembrar de outros momentos inspirados e cultivar a sua saudade por saber que Emmett e Marty não voltam mais. Os amigos e suas histórias ficam na memória, onde podem ser acessados sempre que der vontade.

De volta para o futuro 3 foi rodado simultaneamente com a segunda parte, lançamento de ambos ocorreu com um intervalo de apenas 6 meses, o que serva para comprovar o sucesso da série, que tem como um de seus produtores ninguém menos que Steven Spielberg, vale lembrar. Outra figura carismática presente nos filmes é o cãozinho Copérnico, que leva Marty ao túmulo de Emmett no início desta terceira parte e dá início a uma nova aventura. Um detalhe curioso a respeito do personagem é que, na verdade, era um homem fantasiado de cachorro! A "interpretação" foi tão convincente que mal se pode reparar isso. Apenas as cenas filmadas mais de perto é que contam com o animal verdadeiro. Entre as várias outras curiosidades sobre os filmes, há uma que envolve o nome de Emmett: ao ser lido invertidamente, seu som é muito próximo ao de "time", palavra em inglês para "tempo", elemento mais importante de toda a saga. Com certeza, não foi uma escolha aleatória do roteiro, cuja estrutura bem arquitetada falta a muitas produções dos últimos anos. Em sua sequência final, montanha-russa de emoções, Marty e Emmett demonstram o quanto sempre estiveram unidos, e o cientista deixa uma mensagem estimulante ao jovem amigo e sua namorada: O futuro ainda está por ser escrito, e cabe a cada um torná-lo o melhor possível. E dois parceiros inesquecíveis se vão...

8/10

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