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quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Amor pleno e as eternas lacunas

Ondas vão e vem. Silêncio. Uma voz interior. Pensamentos que se misturam, sem qualquer ordenação cronológica ou espacial.  _______ Uma vida em comum, as memórias compartilhadas, a celebração dos momentos felizes, o desgaste, a separação. Tudo em Amor pleno (To the wonder, 2012), sexto filme de Terrence Malick em 39 anos, é fragmentário.


As imagens e os sons aparecem superpostos a maior parte do tempo, e essa conjunção audiovisual traz como consequência paradoxal uma série de lacunas.              A escolha por uma abordagem desordenada, por assim dizer, amplia os horizontes do espectador posto em contato com a obra, exibida na 69ª edição do Festival de Veneza.



Novamente, as opiniões foram rachadas. Há os que se rendem, há os que repelem o percurso acidentado de vivências de Neil (Ben Affleck) e Marina (Olga Kurylenko), que se casam e vão conhecer A Maravilha, famosa antonomásia para se referir ao Monte Saint-Michel, um ilhéu rochoso no qual se encontra uma abadia em homenagem a um dos únicos anjos (   ) cujo nome é revelado pela Bíblia: Michel, que traduzido, é Miguel.

Os dias se passam e a felicidade parece eterna para o casal. Mas o sopro da crise os alcança e os abala. O eterno, talvez, seja apenas um instante. (                                                                               )



A constatação da finitude das coisas é sempre dolorida. Teriam as relações um prazo de validade que só é conhecido quando se chega a ele?                                   Como lidar com essa possibilidade nefasta? O coração tapeia os homens. É balança enganosa.        Quem pode conhecê-lo de fato? Nem mesmo seu próprio dono.



Enquanto se pensa a respeito, é preciso continuar vivendo. _______________O fluxo de pensamentos ____________ não se encerra _____ jamais. Viver é pensar. (Como as ondas incidem sobre a mais robusta das rochas, as ideias, os desejos e as intenções assaltam o corpo, o coração, a mente e a alma. O antigo amor volta à tona. Um novo/velho turbilhão de emoções retorna junto com o amor) de outrora. É felicidade para sempre dessa vez? Vamos tentar outra vez? Mas... ainda falta algo.


A lacuna. Para onde quer que olhe, o homem encontra uma lacuna, um vazio, uma aresta. O que poderá aplacar a sede insistente?        Para onde o olhar se volta?    ___________________  Para si mesmo soa como uma resposta razoável. E os céus, o que dizem sobre a questão?

(                                                 ) (      )  (                                             )


A fé. O crer sem ver. O diálogo com o invisível. O relacionamento íntimo e sincero com quem não se pode apalpar. Quando se anda por vista, não se anda por fé. Esqueça as leituras fechadas. Divagação, teu nome é ser humano.

A palavra. Em nossos lábios, nossas próprias palavras nunca são o bastante. Parecem nunca cumprir de fato o objetivo para o qual foram direcionadas.                           E a vida é vivida, em grande parte, de tentativas de esclarecer o que se quis dizer e, na verdade, não se disse.     De arrependimentos pelo que se disse. De arrependimentos pelo que não se disse.              Onde não cabe a palavra, resta o olhar, o gesto. Onde só cabe o olhar, resta a contemplação.

9/10


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