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sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

A convivência com ressalvas de Margot e o casamento



Conhecido pelo seu trabalho admirável como roteirista, Noah Baumbach também é capaz de oferecer interessantes exercícios de direção através de seu olhar arguto. Depois de se confessar por meio de A lula e a baleia (The squid and the whale, 2004), ele volta a se debruçar sobre a temática das relações familiares em Margot e o casamento (Margot at the wedding, 2007), um filme de instantes de sorriso comedido. Como em seu trabalho anterior, o foco são as dificuldades de relacionamento entre pessoas que carregam consigo os laços familiares, a deixa e a justificativa para se dizer palavras e cometer atos que, se não fossem pelos graus de parentesco, poderiam ser classificados com imperdoáveis. A personagem-título é vivida por Nicole Kidman, que se despe de sua lourice habitual para encarnar uma mulher de temperamento difícil e personalidade algo bizarra. O tal casamento é o de sua irmã Pauline (Jennifer Jason Leigh, uma atriz subestimada).

A vida de Margot é confortável, e ela se mostra como alguém autossuficiente, que só parece dar espaço ao filho, um garoto que se ressente, ao seu modo, da ausência de uma figura paterna. Quando decide viajar para o casamento da irmã, ela decide levá-lo consigo e, ali, os dois passarem um pequeno período de férias. Natural que, com suas palavras e atitudes controversas, Margot seja responsável por detonar, mais cedo ou mais tarde, um colapso familiar. A espinha dorsal de Margot e o casamento se apresenta semelhanças notáveis com a de O casamento de Rachel (Rachel getting married, 2008), e a comparação entre ambas é até cabível. Entretanto, os olhares lançados sobre o assunto são diferentes. Enquanto Jonathan Demme espia os dilemas sob uma ótica dolorida, Baumbach demonstra sua predileção pela comédia dramática, inserindo instantes de alívio cômico para dar conta de uma narrativa simples, que se ancora em desempenhos sinceros e acertados de seu elenco.

Entre os atritos que surgem na temporada de convivência entre as irmãs, está o que envolve Malcolm (Jack Black), o futuro marido de Pauline. Ele é um tipo boa praça, mas tem lá suas esquisitices. Como todos os personagens do filme, aliás. O fato é que Margot não simpatiza com Malcolm logo de cara, e disso decorrem as tentativas de aceitação do personagem, um forte candidato a beberrão. Verdadeiramente, o realizador não apresenta nada de extraordinário com Margot e o casamento, o que não significa que seu filme seja totalmente banal. Ele se torna interessante por se mostrar como uma plataforma para a reflexão sobre assuntos prosaicos, como as diferenças que precisam ser desconsideradas tantas vezes em prol da harmonia familiar. O convívio entre as irmãs não é fácil pelo que ambas carregam de defeitos, e Baumbach nos leva crer que é no equilíbrio entre vícios virtudes que a pacificação entre parentes pode ser alcançada. Essa parece ser a lição que Margot e Pauline ainda não aprenderam a colocar em prática.



Os intérpretes de que o diretor se serviu são um dos aspectos mais interessantes do filme. Nicole Kidman, por exemplo, demonstra que ainda sabe escolher bons papéis, depois de uma sequência de filmes e personagens equivocados. Sua Margot está longe de ser uma heroína típica. Muito pelo contrário: ela é uma mulher neurótica, autoritária e que se recusa até mesmo a dar entrevistas sobre o seu ofício de escritora. Seus comentários sobre as pessoas também costumam ser um tanto agressivos, e ela parece fazer questão de viver em meio a animosidades. Leigh, por sua vez, oferece sua interpretação a uma irmã que ora é o contraponto, ora é o espelho de Margot. Por essas e outras, as personagens ganham uma dimensão de humanidade que as isenta de tradicionais esquematismos de roteiro, algo que Baumbach não costuma fazer. Ainda que, por muitos momentos, a protagonista cause a impressão de ser a ovelha negra ou o algoz daquela família, Pauline também exibe seus traços negativos, e o público fica na dúvida entre poder ou não rotular cada uma delas como inocente ou culpada. Daí decorre uma espécie de revezamento entre as duas na posições típicas de mocinha e vilã, um reducionismo que não encampa o filme.

As duas irmãs passam o tempo todo por cima da antiga desavença que as fez pararem de se falar anos atrás, unicamente pela importância do casamento de Pauline. Elas mantém, portanto, uma relação de altos e baixos, caminhando na corda bamba – Pauline, principalmente. Ambas ainda chegam a citar, em alguns momentos, uma certa Becky, também irmã das duas, mas que jamais aparece em cena. O motivo do desentendimento entre Margot e Pauline também não é jamais explicitado, e cabe ao espectador preencher essa lacuna com o que lhe parecer mais coerente. O fato é que a lavagem de roupa suja se instaura em meio aos personagens, e sobra até para Malcolm o espaço para o desabafo. Lá pelas tantas, nem ele nem a noiva se sentirão mais tão seguros da decisão que tomaram anteriormente, e as oscilações de pensamento se traduzem em novos focos de discussão. O filme está longe do brilho e da pertinência de A lula e a baleia, mas ainda lembra um pouco aqueloutro por conta da abrasividade nos diálogos que caracteriza a obra do diretor. Nesse sentido, Margot e o casamento desponta como um ensaio menos inspirado sobre um tema cuja repercussão é sempre notória e sobre o qual nenhum discurso se esgota completamente.

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