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sexta-feira, 27 de maio de 2011

Desejo e reparação, um estudo sobre consequências

Em seu segundo filme, Joe Wright se propõe a uma nova adaptação cinematográfica, a exemplo do que fizera em seu début. Depois de levar às telas mais uma versão de Orgulho e preconceito (Pride and prejudice, 2005), ele se impôs o desafio de transformar em filme o romance Reparação, de Ian McEwan. O resultado atende pelo nome de Desejo e reparação (Atonement, 2007). A escrita de McEwan é considerada difícil e árida de ser adaptada para o cinema, mas o diretor parece ter vencido a questão, tendo ao seu favor um elenco afiado, de jovens talentos. A trama segue os passos de Cecilia (Keira Knightley), Robbie (James McAvoy) e Briony (Saoirse Ronan/Romola Garai), um trio que terá para sempre suas vidas entrelaçadas. É na junção de seus destinos que o filme revela seu grande propósito: examinar o poder de fogo de uma calúnia.

Ao longo de 130 minutos, o longa-metragem se calca nas consequências geradas pela impressão errônea de Briony sobre o relacionamento de Cecilia, sua irmã mais velha, com Robbie. Tomada por um misto de ciúme e vingança, ela faz todos acreditarem que ele foi capaz de violentar Cecilia. O fator que corrobora essa visão da jovem é ela ter visto anteriormente Robbie numa estranha proximidade com outra menina. Assim que vê Cecilia envolvida com ele, Briony não hesita em denunciá-lo para toda a família. Esse escândalo passará a persegui-los por anos, e criar uma constante espiral de culpa e tristeza, cuja maior vítima é Briony. Aliás, a personagem é belamente interpretada por Saiorse Ronan na primeira fase do filme. Seu desempenho lhe credenciou a uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante, perdido para Tilda Swinton, ótima em Conduta de risco (Michael Clayton, 2007). Nesse primeiro momento da personagem, ela surge como uma garota cheia de imaginação e muito inteligente, que se destaca das demais meninas da sua idade por apresentar um senso crítico acurado das coisas.
Na verdade, Desejo e reparação é muito mais um filme sobre Briony que sobre Cecilia e Robbie. Os sentimentos presentes no título em português se referem à menina, que nunca mais é a mesa depois de se interessar pelo rapaz que trabalhava na sua casa. A culpa passa a consumi-la depois de se dar conta do terrível engano que cometeu, e sua vida parece só ter razão se for pela busca do correção do erro que cometeu. Quando a personagem cresce, passa a ser interpretada por Romola Garai, uma atriz ainda pouco conhecida do grande público, que atuou em filmes como Angel (idem, 2006), mas que demonstra talento e maturidade para o papel. Inicialmente, esse seria o papel de Keira Knightley, mas ela pediu ao diretor para dar vida a Cecilia por ser essa uma personagem mais madura, e ela já havia interpretado muitas jovens, inclusive em seu trabalho anterior com o diretor. Garai gravou sua participação no filme em apenas quatro dias, um período recorde para qualquer filmagem. Sua permanência em cena é relativamente curta, mas basta para atestar suas qualidades como atriz.
Desejo e reparação conquista por outros aspectos. Além dos bons desempenhos dos atores, capazes de notáveis peripécias dramáticas dentro do contingente que lhes é permitido, a música é outro detalhe que chama a atenção. Ela é assinada por Dario Marianelli, um compositor veterano que levou o Oscar na categoria de trilha sonora por seu trabalho. As canções que compõem o filme são extasiantes, e ajudam a traçar um percurso doloroso pelos destinos alterados dos protagonitas. Marianelli é um dos vários nomes italianos que circulam por Hollywood atualmente. Nascido em Pisa, ele tem outros trabalhos no currículo, e é colaborador fiel de Joe Wright. Além desse filme, ele também é responsável pela trilha sonora de Orgulho e preconceito e de O solista (The soloist, 2009). Recentemente, se ocupou da música de Comer, rezar, amar (Eat, pray, love, 2010), filme que tem certa relação com seu país natal. Em Desejo e reparação, as canções envolvem e inebriam com sua atmosfera de desalento e desassossego. A reparação que Briony busca ao longo de sua vida só se dá muito mais tarde, e a cada nova música que se instaura na narrativa, sente-se um forte peso dramático. Ela só consegue expurgar seu sentimento de culpa na arte, ao verter para o ambiente literário o comentário sobre o erro que cometeu.

Curiosamente, o título original do romance no qual Desejo e reparação é baseado não uma relação tão estreita com o que foi dado em português. Em Portugal, o livro foi intitulado como Expiação, um termo muito mais coerente com a trajetória de Briony, sempre em busca de uma forma de apagar a falha de que foi capaz. No fundo, é como alguém que peca e não se sente jamais perdoado, ainda que o outro contra quem se pecou admita ser indulgente com ele. Mais do que qualquer outra pessoa, ela não se perdoa, e fica patente com o avançar do filme que, na verdade, Cecilia e Robbie são os coadjuvantes da história, uma ironia que a Academia parece ter ignorado ao indicar Knightley como atriz principal e Ronan como coadjuvante. Entretanto, como no livro, a narrativa se bifurca algumas vezes no viés de uma ou outra irmã, de Robbie e de Emily, a mãe delas, e tudo começa em uma tarde de verão de 1935, apenas alguns anos antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial. Outro aspecto que requer a atenção do público e do leitor é a ausência de um fio condutor cronológico, deixando a ação da trama muitas vezes correndo a esmo, aparentemente. Num recurso semelhante ao adotado por Gus Van Sant em dois de seus filmes – Elefante (Elephant, 2003) e Paranoid Park (idem, 2007) – a narrativa dos acontecimentos aparece duas vezes, e permite que se organizem os fatos dentro de uma temporalidade.
Com uma estrutura bem colocada, apoiada em um roteiro certeiro de Christopher Hampton, Desejo e reparação oferece uma reflexão profunda sobre os efeitos devastadores que um simples engano premeditado por gerar. O peso da infâmia, o valor das escolhas, a dificuldade em perdoar, tudo isso se apresenta ao longo do filme, que tem uma deslumbrante fotografia e uma reconstituição de época muito acurada. Perto de seu final, o espectador ainda é brindado com a presença de Vanessa Redgrave, em uma participação pequena, quase afetiva, mas decisiva para o enredo, entregando a condição errante e expiatória da personagem que passa a assumir a essa altura. As portas abertas pelo filme só reforçam a tese que defende sua validade, e assinalam um diretor pronto para alçar voos cada vez mais altos e intrépidos.

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