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segunda-feira, 7 de março de 2011

Os incompreendidos, uma bela homenagem ao cinema

Celebrado como uma das obras basais da cinematografia europeia, sobretudo a francesa, Os incompreendidos (Les 400 coups, 1959) marcou a estreia de François Truffaut como diretor de cinema. Egresso do corpo de críticos da revista Cahiérs Du Cinema, ele lançou-se para trás das câmeras a fim de pintar com poesia o quadro de desalento de um garoto de apenas 14 anos de idade. Iniciava-se, ali, a sega de Antoine Doinel, vivido por Jean-Pierre Léaud, e que viria a ser reconhecido como o alter ego de Truffaut.

A narrativa do filme se concentra em uma série de eventos que sucedem na vida de Antoine, com um ritmo leve e gracioso que cooperam decisivamente para tornar o filme bastante agradável. Ele é um adolescente em plena fase de autoafirmação, que não hesita em matar aulas diante da ausência de seus pais, muito mais voltados para os próprio problemas do que para a educação do garoto. Por conta disso, Antoine vai adquirindo um comportamento nocivo a si mesmo, andando com más companhias e se dando ao desfrute de pequenos vícios que lhe vão corrompendo sutilmente. Um dado que já chama a atenção na rotina de caminhadas a esmo do protagonista é a sua paixão pelo cinema, já que ele sempre aproveita o tempo em que deveria estar nas aulas para ir assistir a algum filme em cartaz. Verifica-se, nesse aspecto da sua personalidade, uma delicada homenagem pensada por Truffaut àquele que se tornou o seu ofício.
Os incompreendidos é cheio de passagens que exalam poesia, e flagram a fase de transição entre o fim da infância e o começo da adolescência, em que a necessidade de se conhecer de tudo parece gritar dentro do indivíduo. Como sugere o título em português, o olhar lançado pelo diretor é de ternura e de certa compaixão por aqueles meninos tão sem rumo, sem eira nem beira. Antoine discute com mãe nas poucas vezes em que tenta dialogar com ela, e o problema do conflito de gerações se instaura com veemência no seu cotidiano. É como se Truffaut fosse, em certa medida, complacente com os pequenos dramas que Antoine vive, e tentasse se colocar no lugar do garoto, fazer da lente das câmeras que acompanham os seus passos os seus olhos.
A situação de Antoine só piora quando, em uma de suas escapadas do colégio, ele descobre que seu pai tem uma amante, e então seu universo fica ainda mais desorganizado. É quando ele começa a praticar pequenos roubos, caminhando para a esfera da delinquência juvenil. A essa altura, o título original da obra, de sentido muito diverso do título em português, começa a fazer ainda mais sentido: a expressão “les quatre cents coups” é oriunda de outra, “faire les quatre cents coups”, que pode ser traduzida livremente para nossa língua como “pintar o sete”. Antoine e seus amigos fazem exatamente isso, quando descambam para uma vida de golpes e dissimulações, fazendo de Os incompreendidos um libelo à ausência dos progenitores no cotidiano de seus rebentos. Cabe ressaltar que o diretor não está interessado em ser didático, como um pedagogo que pretende apresentar as diretrizes para a boa educação de um filho. Entretanto, ao colocar na tela jovens rapazes que não hesitam em cometer pequenos roubos e pais que estão mais atentos aos seus bel-prazeres, ele oferece exemplos que não devem ser seguidos.

O filme foi rodado em solo francês em pouco menos de dois meses, de 10 de novembro de 1958 a 5 de janeiro de 1959, e deu o pontapé inicial na carreira de um cineasta que passou a ser conhecido como um dos mais importantes de todos os tempos. Juntamente como nomes como Claude Chabrol e Eric Rohmer, François Truffaut trouxe à existência o movimento da Nouvelle Vague, a nova onda que injetou um frescor notável ao modo de fazer cinema de seu tempo. Não há uma lista de melhores filmes do século XX que não conte com Os incompreendidos entre seus títulos, tamanha a relevância dessa obra no trato das questões que atravessam a fase mais tumultuada da vida de uma pessoa. Dali para frente, Truffaut dirigiria uma série de filmes igualmente relevantes, entre os quais se pode citar o lendário Jules e Jim – Uma mulher para dois (Jules et Jim, 1962) que, apesar de superestimado, tem suas qualidades como filme. Ele chegou a filmar na Inglaterra, onde realizou o ótimo Fahrenheit 451 (idem, 1966), adaptação do famoso romance de Ray Bradburry.
Antoine Doinel, por sua vez, tornar-se-ia um personagem recorrente na filmografia do diretor, sempre interpretado por Jean-Pierre Léaud, até que este crescesse e se tornasse adulto. Ele também esteve presente em Antoine e Colette (idem, 1962), um média-metragem, Beijos proibidos (Baisers volés, 1968), Domicílio conjugal (Domicile conjugal e O amor em fuga (L´amour em fuite, 1979). Juntos, o filmes compõem a chamada série “Antoine Doinel”, e representam uma espécie de retrato da vida do diretor, mas que também possuem vida própria. Ao final da sessão de Os incompreendidos, o espectador pode facilmente concluir que estava diante do nascimento da filmografia de um realizador de olhar atento para as agruras da vida, sem abrir mão de uma dose de humor e de carinho com as figuras que retrata, e que viria a inscrever seu nome no panteão dos grandes artistas da imagem.

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