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sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

O espetáculo multicolorido de La la land: cantando estações

Musicais frequentemente são acusados de falta de compromisso com a verossimilhança. Pudera. Onde já se viu gente cantando e dançando alegremente sem mais nem menos no meio da rua? É característica do gênero esse tipo de situação, e com La la land: cantando estações (La la land, 2016) - vencedor do Globo de Ouro nas sete categorias em que foi indicado - não é diferente. Mas o diferente é superestimado. Algumas lições e cenas merecem ser repisadas muitas e muitas vezes, porque sempre haverá alguém precisando ser lembrado delas. Aqui, o amor e o sonho dão o tom e a paleta multicolorida empapuça as retinas para apresentar um recorte da trajetória de Mia (Emma Stone) e Sebastian (Ryan Gosling), cada qual perseguindo sua quimera em uma Los Angeles atemporal, com referências à Hollywood clássica, uma fábrica de ídolos que fez a cabeça de gerações. 

Pois se a verossimilhança não é o forte dos musicais, nem por isso eles devem ser deslegitimados. É apenas uma questão de proposta. No outro extremo ficam os documentários, exaltados como "cinema verdade", mas que não deixam de ser um olhar conduzido, com direito a roteiro também. Para muitos, tal constatação soa óbvia, mas esse tipo de confusão ainda está longe de ser raro entre o público. E a tal cantoria típica já aparece na primeira sequência, em pleno viaduto engarrafado, prenunciando o clima de romance que vai permear boa parte da história e deixando uma mensagem no ar: as decepções são parte da caminhada, e nem por isso justificam interrompê-la. Há que se aprender a se refazer dia após dia: as estações passam, nenhum ciclo tem de ser necessariamente igual ao outro.

Mia e Sebastian têm aspirações que ultrapassam os limites aos que vem sendo sujeitos, mas são resistentes às intempéries. Enquanto ela vive atrás de testes para engrenar uma carreira de atriz, ele é um músico purista amante do jazz e almejando mais do que dedilhar canções natalinas em um bar. Como em O fabuloso destino de Amélie Poulain (Le fabuleux destin de Amélie Poulain, 2001), são tempos difíceis para os sonhadores Mia e Sebastian, e as sucessivas portas na cara teriam feito muitos outros jogarem a toalha. Tais ideias surgiram da cabeça de Damien Chazelle, que entrou pela porta da frente de Hollywood com Whiplash - Em busca da perfeição (Whiplash, 2014), em que a música também pulsava com força. Novamente assinando roteiro e direção, ele é daqueles jovens cheios de amores pelo Cinema, com toda a pinta de que cresceu fascinado pelos áureos tempos dessa arte centenária.


Homenagem e citação é o que não falta em La la land. E a mais notável paráfrase do longa, sem dúvida, é a Os guarda-chuvas do amor (Les parapluies de Cherbourg, 1964), clássico cinquentão de Jacques Demy sobre um casal e seu relacionamento atravessado pelas estações. A estrutura adotada por Chezelle é análoga àquele, evidenciando a beleza de um diálogo com uma geração que até hoje ecoa no próprio e cinema e deixa saudade em muitos pelo seu modus vivendi. Foi a década que chegou à sua reta final com os protestos de maio de 68 e Woodstock: os jovens sonhadores estavam com a corda toda, ávidos de transformação, mas o fim da história não é novidade para ninguém. O fim de uma etapa, pelo menos. E, de tempos em tempos, é preciso voltar a sonhar, daí certamente vem o forte apelo de La la land sobre as plateias, já que o cinismo dos anos 2010 cansa e magoa demais.

Outra flagrante homenagem é a Juventude transviada (Rebel without a cause, 1955), representante mais icônico da filmografia de um certo Nicholas Ray, a quem Jean-Luc Godard apontou como sendo o cinema. A passagem na qual o longa é trazido para a narrativa é metalinguagem pura, com saudosismo aos baldes para os personagens e para o público atento às referências. Daí não é absurdo comparar Chezelle e Tarantino e lembrar que cinema também é cruzamento de bagagens e afluir de experiências distinas, que contribuem para o enriquecimento mútuo. Quanto de Mia e Sebastian não existem em vários corações por aí? E o mérito dessa alta identificação também é de Stone e Gosling, afiando um pouco mais a química que já haviam demonstrado ter em Amor a toda prova (Crazy, stupid love, 2011), outra produção que se vale com esperteza do cânone cultivado dentro do gênero, e Caça aos gângsteres (Gangster squad, 2013). Os olhos arregalados dela se encontram com as órbitas discretas dele e é assim que muito mais é dito do que em longos diálogos expositivos.

A problemática do longa está na montagem um tanto descuidada. Cenas que parecem embaralhadas e uma duração um tanto excessiva comprometem parte do resultado, ainda que ele continue sendo embevecedor a maior parte do tempo. Alguns momentos também são desnecessários, seja pela pieguice, seja pela redundância, e um exemplo de cada caso é o monólogo de Mia em um de seus testes para o cinema, e seu retorno ao café onde trabalhava, dessa vez como cliente, agindo com a nova funcionária exatamente como uma outra atriz. Mas ainda cabe um outro elogio: mesmo destoante da realidade a maior parte do tempo, La la land ainda se parece com a vida, uma fábrica de ilusões que não está sempre de portas abertas. Não se pode dizer, portanto, que Chezelle não esteja trilhando um belo caminho como realizador e roteirista, e sua juventude talvez explique parte da prolixidade que acomete a obra, inclusive na reta final, quando o epílogo é insinuado pelo menos três vezes. Parece que só com o passar de muitas estações aprendemos que menos pode ser mais. 

8/10

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