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quinta-feira, 20 de outubro de 2016

QUINTETO DE OURO - DÉCADA DE 50

Eleger apenas cinco títulos de uma década inteira é tarefa hercúlea, mas vale a pena a tentativa. Daí nasceu mais um Quinteto de Ouro, que reúne longas-metragens rodados entre 1950 e 1959 para formar um panorama singelo - na quantidade, não na qualidade - de olhares e construções dessa imensa árvore de tantos frutos que é o cinema. 

Apenas para esclarecer, a ordem adotada para dispor os filmes, como é hábito meu, foi a cronológica. Para que se torturar com ordem de preferência envolvendo filmes quase igualmente amados? Também evitei a repetição de diretores, e alguns dos que assinam os filmes selecionados têm mais de uma belezura nessa mesma década. Então, vamos aos cinco queridinhos da década de 50 na minha modesta opinião...

1. A montanha dos sete abutres (Billy Wilder, 1951)


Lá se vão mais de 60 anos desde que Billy Wilder levou Kirk Douglas ao deserto para extrair dele uma de suas primorosas interpretações. Na pele de Charles Tatum, o ator (hoje quase centenário) mostrou uma faceta odiosa, um daqueles raros casos hollywoodianos de protagonista digno do selo de vilão, embora os caminhos do roteiro centrifuguem o maniqueísmo. Designado para cobrir o caso de um acidente envolvendo um mineiro, o personagem é antecipação do sensacionalismo dos programas que se infiltraram na televisão em fins da década de 90 e lá estão ainda hoje. O que entristece o público de A montanha dos sete abutres é constatar que o passar de tantos anos não tirou nem um pouco de sua atualidade.

2. Luzes da ribalta (Charles Chaplin, 1952)


Um belo título alternativo para Luzes da ribalta seria Calvero e a bailarina. O despertar da amizade entre um veterano da atuação pantomímica e uma amante da dança permeia esse filme-testamento, que poderia perfeitamente ter sido o último trabalho de Chaplin, mas ele ainda levaria quase uma década para se despedir do ofício que tanto amava (e, por um lado, foi ótimo que outros filmes tenham vindo). A conhecida resistência do ator e realizador em inserir falas nos seus longas foi, aos poucos, vencida, e aqui as palavras aparecem carregadas de ternura, mas os gestos, os olhares e outras expressões visuais ainda são bem mais potentes do que qualquer diálogo. Como todo artista vocacionado, ele sabia a hora do adeus, e o tempo o eternizou no coração do público.

3. Janela indiscreta (Alfred Hitchcock, 1954)


Ah, o que o tédio não faz... O velho Jeff (James Stewart) que o diga! Drasticamente podado em seus movimentos, o jornalista tem ao seu alcance uma janela de onde enxerga o que quer. E o problema está exatamente nesse último aspecto: ele enxerga o que quer. Avesso aos comentários da namorada - interpretada por uma certa Grace Kelly - ele exercita seu faro investigativo e chega a conclusões que parecem irrefutáveis. Mas, em se tratando de um legítimo Hitchcock, pode haver sempre o binômio lugar certo, história errada. Tomando por base um conto de Cornell Woolrich intitulado Tem que ter sido crime, em tradução livre, o Mestre do Suspense deita e rola com macroplanos e nos torna cúmplices de Jeff. E, uma vez cooptados, queremos ir até o fim nessa busca voyeurística pela real versão.

4. A palavra (Carl Theodor Dryer, 1955)


Cinema é imagem, mas também pode ser palavra. A fusão desses dois suportes de comunicação resulta em uma poderosa reflexão sobre os limites da fé - e eles não são curtos nem estreitos, como o longa de Dryer permite concluir. Os escandinavos têm uma relação difícil com a crença no Deus invisível, mas muitos deles, ao menos os cineastas, não deixam de tentar dialogar de alguma forma com esse ser cuja grandeza faz pressupor ausência ou distância. Longe de ser panfletário para um ou outro lado da discussão de século sobre Ele, A palavra é pacientemente observador e flagra seus personagens em hesitaçõs e conflitos pelos ambientes das casas de duas famílias que divergem quanto à religião, esse conjunto de ritos que pesa, e muito sobre os ombros.

5. Morangos silvestres (Ingmar Bergman, 1957)


Cinema é lembrança, e o percurso de imersão na memória proposto por Bergman através da figura de um velho professor de volta à sua terra segue como um emocionante tratado no melhor estilo "minha vida passou como um filme diante dos meus olhos". Mostrando que ser humano é ser complexo, incluindo qualidades e defeitos, o realizador sueco examina a velhice e ausculta sentimentos como alguém já íntimo deles há tempos - e olha que ele ainda estava para completar 40 anos quando rodou o longa. Exemplar de um subgênero periodicamente revisitado, o "filme-testamento", Morangos silvestres deixa um gosto agridoce no paladar cinéfilo e ocupa as paredes da memória com quadros vivazes e deslumbrantes.

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