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sábado, 25 de junho de 2016

QUINTETO DE OURO - GRANDES PARCERIAS

Como em qualquer contexto que envolva seres humanos, a realização de um filme também possibilita encontros e reencontros, que acabam se fixando como parcerias para trabalhos recorrentes. Dessa forma, os profissionais envolvidos acabam se tornando queridinhos um do outro, e o público também se acostuma a vê-los sempre juntos. Uma olhada rápida para décadas passadas e também para a atual confirma a existência de inúmeros exemplos de atores, diretores, roteiristas, músicos e diretores de fotografia, entre outros, que se entendem muito bem, a ponto de a figura de um ser atrelada à do outro.

O tema do Quinteto de Ouro desse mês é justamente essas parcerias que deram tão certo que se repetiram várias vezes. Para chegar aos escolhidos, recorri a quatro critérios objetivos: considerei parceria todo caso em que dois profissionais trabalharam juntos pelo menos três vezes, seguidas ou não; só valiam parceiros de quem já tinha visto a maioria das parcerias - então, se alguma dupla está de fora, é por falta de filmes suficientes vistos (o caso de Frank Capra e James Stewart); e entendi que seria interessante não colocar apenas diretor e ator ou atriz, mas também diretor e fotógrafo, diretor e roteirista. 

Por fim, decidi não comentar todos os exemplares de cada dupla: a opção foi por destacar dois ou três dos vários trabalhos e enaltecer algumas de suas qualidades. Assim nasceu um pequeno panorama (seria um paradoxo) que, no fundo, são gavetas e janelas que dão passagem a diversos outros nomes, tempos e lugares. E vale dizer que, de novo, é uma lista sem ordem de preferência clara, mesmo porque não constam dela todos os meus preferidos, mas cinco entre meus preferidos...

1. James Gray e Joaquin Phoenix


Filmes: Caminho sem volta (2000), Os donos da noite (2007), Amantes (2008), Era uma vez em Nova York (2013).

O biotipo de Joaquin Phoenix cai como uma luva para homens problemáticos, e James Gray captou essa predisposição, usando-a brilhantemente por quatro vezes. Assim, nasceram Willie, Bobby, Leonard e Bruno, todos atormentados em maior ou menos grau. Em Os donos da noite, a impossibilidade de levar uma vida inteira à base de jogo duplo é confirmada em meio a tiros, escutas, chuva e perseguições, e Phoenix soube humanizar o empresário das noitadas que revê seus conceitos fluidos. Amantes, por sua vez, rebobina a fita do presente e nos leva de volta aos melodramas de uma Hollywood áurea, mas não necessariamente datada, na qual encontramos um sujeito destoante do mundo ao redor cuja âncora não é bem a que ele vislumbrava.

2. Woody Allen e Mia Farrow


Filmes: Sonhos eróticos de uma noite de verão (1982), Zelig (1983), Broadway Danny Rose (1984), A rosa púrpura do Cairo (1985), Hannah e suas irmãs (1986), Setembro (1987), A era do rádio (1987), A outra (1988), Crimes e pecados (1989), Simplesmente Alice (1990), Neblina e sombras (1991), Maridos e esposas (1992).

Casados à época na qual a parceria se desenrolou, Allen e Farrow e tornaram um dos exemplos de duplas mais recorrentes do cinema. Em 13 filmes rodados em um período de 10 anos, eles foram da comédia ao drama com notável desenvoltura, contracenando em quase todos os longas e quase sempre repetindo a relação amorosa da vida real. O auge da parceria se deu em dois anos seguidos, com A rosa púrpura do Cairo e Hannah e suas irmãs, nos quais Farrow viveu, respectivamente, a otimista ingênua Cecilia e a batalhadora personagem-título. Infelizmente, o casamento se dissolveu de maneira escandalosa ainda nos bastidores de Maridos e esposas, que acabou se tornando um retrato assustadoramente realista da falência dessa união em frente e atrás das câmeras.

3. Ingmar Bergman e Sven Nykvist


Filmes: Noites de circo (1953), A fonte da donzela (1959), Através de um espelho (1961), Luz de inverno (1962), O silêncio (1963), Para não falar de todas essas mulheres (1964), Persona (1966), A hora do lobo (1968), Vergonha (1968), O rito (1969), A paixão de Anna (1969), A hora do amor (1971), Gritos e sussurros (1972), Cenas de um casamento (1973), A flauta mágica (1975), Face a face (1976), O ovo da serpente (1977), Sonata de outono (1978), Da vida das marionetes (1980), Fanny & Alexander (1982).

Os recordistas de colaboração dessa lista atravessaram três décadas juntos, num casamento bem sucedido entre direção, escrita, ângulo e iluminação, entre outros aspectos que compõem o trabalho de um cineasta e um fotógrafo. Seja em preto e branco, seja a cores, cada filme de Bergman fotografado por Nykvist exibia marcas inconfundíveis, e o modo como as imagens são dispostas, aliado ao elenco recorrente, permitia reconhecer um filme como sendo dos dois mesmo que essas informações não tivessem sido entregues previamente. Os pesadelos psicológicos de Persona e A hora do lobo são ainda mais contundentes, assim como as nuances e matizes de Cenas de um casamento e Sonata de outono, sob suas lentes acuradamente manuseadas.

4. Aki Kaurismäki e Kati Outinen


Filmes: Sombras no paraíso (1986), Hamlet vai à luta (1987), A garota da fábrica de caixas de fósforos (1990), Se cuida, Tatiana (1992), Nuvens passageiras (1996), Juha (1999), O homem sem passado (2002), O porto (2011).

Ao olhar para a filmografia de Aki Kaurismäki, inevitavelmente deparamos com o nome de Kati Outinen na maioria de seus trabalhos. A figura da atriz combina perfeitamente com a proposta de cinema do diretor, que gosta de focalizar personagens marginalizados, aos quais falta algum tipo de calor no coração. Na pele da operária de uma fábrica de caixas de fósforos, Outinen encarnou à perfeição uma versão finlandesa de Macabéa - protagonista de A hora da estrela, de Clarice Lispector - e serviu de ilustração da miséria humana, num dos filmes mais pessimistas do realizador. Em Juha, não emitiu sons audíveis ao público, numa homenagem deliciosa ao cinema mudo, e resumiu a olhares e suspiros regados à comédia o arrependimento de uma mulher diante de uma escolha errada.

5. Sergio Leone e Ennio Morricone


Filmes: Por um punhado de dólares (1964), Por uns dólares a mais (1965), Três homens em conflito (1966), Era uma vez no Oeste (1968), Quando explode a vingança (1971), Era uma vez na América (1984).

Como dissociar as imagens desérticas e selvagens captadas por Leone das notas musicais em combinação certeira pensadas por Morricone? Essa dupla se encarregou de presentear olhos e ouvidos em histórias nas quais a selvageria é insígnia de sobrevivência e até de dignidade, e fez por onde ser lembrada por qualquer apreciador de bons filmes, não apenas dentro do mundinho cinéfilo. Assim como Allen e Farrow tinham uma relação para além dos estúdios, Leone e Morricone tinham sido colegas de ginásio, e o primeiro lembrou logo do segundo para a trilha de Por um punhado de dólares, inaugurando a trilogia que representa com folga o espírito do western spaghetti. Daí em diante, os dois romanos jamais deixaram de trabalhar juntos, até a morte de Leone por infarto. Que triste ele não ter podido contemplar a vitória tardia do amigo tempos depois: um Oscar por seu trabalho em Os oito odiados (2015).

Um comentário:

  1. Gostei, principalmente de Sergio Leone e Enio Morricone! Outra grande dupla de diretor/compositor é Jacques Demy/Michel Legrand. Parabéns!!!

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