Pesquisar este blog

quinta-feira, 2 de junho de 2016

BALANÇO MENSAL - MAIO

É hora de reunir todos os títulos que compuseram mais um mês deste cinéfilo que escreve a vocês. Compartilhar com outros apaixonados pela Sétima Arte o que me agradou (ou não) ao longo dos 31 dias de maio - um total de 41 filmes - é uma tarefa tão cansativa quanto prazerosa. Assim como tem sido desde 2015, trago um parágrafo para cada integrante do pódio, que esse mês tem seu primeiro lugar ocupado por mais uma nota 10, e espero em breve poder redigir uma crítica decente sobre ele. É meu queridinho Aki Kaurismäki de novo fazendo por onde garantir seu espaço no meu coração, e até aqui já são 11 filmes dele que vi, nenhum menos que ótimo. 

O segundo lugar é para um segundo Elio Petri, e vale a atenção sobre o diretor, um italiano que sabia como injetar vigor às suas histórias. Por fim, o bronze foi endereçado a um representante do Oriente. Aliás, é impressionante como sempre acaba havendo espaço para o cinema daquele lado do hemisfério nos meus pódios, uma "cota" involuntária e muito oportuna. Feita a tradicional introdução, vamos aos trabalhos!

MEDALHA DE OURO

Juha (Aki Kaurismäki, 1999)


Praticante de um cinema minimalista - inclusive no que tange à duração da maioria dos exemplares de sua carreira fílmica - Kaurismäki aboliu a palavra falada em Juha. O título é o nome do protagonista, um homem tão grande em tamanho quanto em generosidade que se apaixona por uma mulher órfã e se casa com ela. A proposta de uma vida glamourosa, longe daquele ambiente campestre, vem encarnada na figura de um homem que a seduz, e pouco há a ser acrescentado ao enredo do longa de 70 minutos. Nem importa, aliás, pois o brilhantismo do cineasta se mostra muito mais na forma do que no conteúdo, ainda que o segundo não seja negligenciado. Prestando uma deliciosa homenagem ao cinema mudo e fazendo comédia de sorrisos de canto de boca, ele consegue entregar uma preciosidade audiovisual - sim, os ouvidos também são agraciados com a trilha sonora de pulsações intensas e até dançantes onde não seriam esperadas inicialmente.

MEDALHA DE PRATA

Um lugar tranquilo no campo (Elio Petri, 1968)


Os primeiros 20 ou 30 minutos do longa de Petri produzem sensação e efeitos análogos ao de uma sessão de apneia, tamanha a enxurrada de movimentos que sucedem na tela, ante aos quais a mais breve respiração causa perdas no finíssimo fio condutor da narrativa. Idealizado pelo menos desde a Grécia Antiga como um ambiente de calmaria e meditação, o campo aqui não inspira tais sensações, devido a inquietude que aflige o personagem de Franco Nero, um protagonista que leva um certo tempo para se mostrar como tal. Antes, somos apresentados e convivemos com sua esposa (interpretada por Vanessa Redgrave), de beleza tão atraente quanto explosiva. Mas onde está realmente o perigo é uma questão que reverbera pelas paredes, pelas ruas e tantos outros locais por que passa o homem de encantadores olhos azuis. Quando o Cinema oferece mais perguntas do que respostas, o sentimento de fruição dá lugar ao de abalo interno.

MEDALHA DE BRONZE

Cemitério do esplendor (Apichatpong Weerasethakul, 2015)


Ciente do quanto seu nome é complicado para os ocidentais (e deve ser para alguns do lado de lá também), ele se permite ser chamado apenas de Joe. E a força motriz do seu cinema está em dois grandes pilares: o entrelaçamento do homem com a natureza e o surgimento de situações fantásticas apresentadas como triviais. No filme que lhe valeu a Palma de Ouro em Cannes também já era assim, e em Cemitério do esplendor ele segue fiel à sua cartilha pessoal, tão instigante quanto repelente - arte é isso mesmo, faca de dois gumes. Acompanhando seus personagens sempre de uma certa distância - reforçando a postura de um observador discreto e próximo de uma neutralidade (essa quimera perseguida por muitos e aparentemente reconhecida como tal por ele), o realizador descortina algumas tradições de sua terra e instaura o jocoso em território sério, sem soar deslocado. É vida e morte justapostas sob efeitos luminosos de empapuçar os olhos.

INÉDITOS

154. O tesouro (Corneliu Porumboiu, 2015) -> 8.0
155. Poesia (Lee Chang-dong, 2010) -> 8.0
156. Eu te amo, eu te amo (Alain Resnais, 1968) -> 8.0
157. A difícil arte de amar (Mike Nichols, 1986) -> 7.0
158. O show de Truman - O show da vida (Peter Weir, 1998) -> 8.0
159. O segundo círculo (Aleksandr Sokurov, 1990) -> 7.0
160. 30 dias de noite (David Slade, 2007) -> 7.5


161. Cortina rasgada (Alfred Hitchcock, 1966) -> 6.0
162. Delírios (Tom DiCillo, 2006) -> 6.0
163. Aniki Bobó (Manoel de Oliveira, 1942) -> 8.0
164. Sem controle (Paul Verhoeven, 1980) -> 8.0
165. Sublime obsessão (Douglas Sirk, 1954) -> 8.5
166. 007 A serviço secreto de Sua Majestade (Peter R. Hunt, 1969) -> 6.5
167. Umberto D (Vittorio de Sica, 1952) -> 8.0



168. Cemitério do esplendor (Apichatpong Weerasethakul, 2015) -> 8.5
169. Depois da chuva (Takashi Koizumi, 1999) -> 8.0
170. Olhar estrangeiro (Lucia Murat, 2006) - 7.0
171. Sicario - Terra de ninguém (Denis Villeneuve, 2015) -> 8.0
172. Magnum 44 (Ted Post, 1973) -> 8.0
173. A casa de Alice (Chico Teixeira, 2007) -> 8.0
174. Citizen Dog (Wisit Sasanatieng, 2004) -> 7.0
175. Protegendo o inimigo (Daniel Espinosa, 2012) -> 6.0
176. Inverno de sangue em Veneza (Nicolas Roeg, 1973)-> 8.0




177. Dias de outono (Yasujiro Ozu, 1960) -> 7.5
178. Enigma do poder (Abel Ferrara, 1998) -> 4.0
179. O chicote e o corpo (Mario Bava, 1963) - 7.0
180. Um lugar tranquilo no campo (Elio Petri, 1968) -> 8.5
181. Pixote - A lei do mais fraco (Hector Babenco, 1981) -> 8.0
182. Nós não envelheceremos juntos (Maurice Pialat, 1972) -> 7.5
183. O estranho poder de matar (Jerzy Skolomowski, 1978) -> 7.0
184. Baleias de agosto (Lindsay Anderson, 1987) -> 7.5
185. Marcas da vida (Andrea Arnold, 2006) -> 8.0



186. Guerra sem cortes (Brian De Palma, 2007) -> 8.0
187. Serviço (Brillante Mendoza, 2008) -> 7.0
188. Jogo do dinheiro (Jodie Foster, 2016) -> 7.0
189. A humanidade (Bruno Dumont, 1999) -> 7.0
190. A marca do assassino (Seijun Suzuki, 1967) -> 8.0
191. O gigante de ferro (Brad Bird, 1999) -> 8.5
192. Juha (Aki Kaurismäki, 1999) -> 10.0
193. Beautiful city (Ashgar Farhadi, 2004) -> 7.5

REVISTOS


Viagem a Darjeeling (Wes Anderson, 2007) -> 9.0
Volver (Pedro Almodóvar, 2006) -> 9.0
Drive (Nicolas Winding Refn, 2011) -> 10.0
Neblina e sombras (Woody Allen, 1991) -> 9.0
Short cuts - Cenas da vida (Robert Altman, 1993) -> 8.5


MELHOR FILME: Juha
PIOR FILME: Enigma do poder
MELHOR DIRETOR: Aki Kaurismäki, por Juha
MELHOR ATRIZ: Kati Outinen, por Juha e Katie Dickie, por Marcas da vida
MELHOR ATOR: Franco Nero, por Um lugar tranquilo no campo
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Marília Pêra, por Pixote - A lei do mais fraco
MELHOR ATOR COADJUVANTE: John Hurt, por O estranho poder de matar
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Aki Kaurismäki, por Juha
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Hector Babenco e Jorge Durán, por Pixote - A lei do mais fraco
MELHOR TRILHA SONORA: Juha
MELHOR FOTOGRAFIA: Cemitério do esplendor
MELHOR CENA: A catarse de Alice em A casa de Alice
MELHOR FINAL: Juha
MENÇÕES HONROSAS: Sublime obsessão e O gigante de ferro

Nenhum comentário:

Postar um comentário