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quinta-feira, 5 de abril de 2012

Shame e a exposição de uma profunda carência de afeto duradouro


Nada. Esse é o conteúdo de quem se sente vazio. A constatação da opacidade e da incompletude estão presentes na vida de Brandon (Michael Fassbender) há muito, malgrado sua insistência sistemática em varrê-la para debaixo de um grosso tapete, sobre o qual se estendem numerosas experiências sexuais, solitárias, com uma ou mais parceiras ao mesmo tempo. Sua condição de refém do desejo é sublinhada o tempo todo, e constitui o tônus dramático de Shame (idem, 2011), trabalho de inteligência acurada assinado por Steven McQueen. O diretor se revela um artesão da imagem e da pungência ao colocar o público diante da jornada incômoda e acachapante de um viciado em sexo. Na pele do protagonista, Fassbender se despe literal e figuradamente para encarnar (verbo aqui tomado praticamente em sua acepção denotativa) um homem cuja tormenta interior é tamanha que dela decorrem tentativas preenchimento que, mais cedo ou mais tarde, revelam-se vãs. Pouco a pouco, esse executivo de vida profissional bem-sucedida vai minando suas relações por conta do aumento progressivo de sua incapacidade de resistir a um intenso impulso de gozar sua sexualidade furiosa.

É patente desde os primeiros minutos que Shame é uma fita desconcertante. McQueen não se furta de expor o cotidiano pontilhado de vácuos de Brandon, ainda que nunca explicite as reais razões de seu desafeto. Somos levados a tatear o caminho do personagem, inferindo, por nossa própria bagagem pessoal, possibilidades de justificativa para sua repulsão a relações duradouras. Seria um medo irracional de se prender a uma única pessoa longamente? Uma terrível inabilidade de manifestar seu carinho a alguém que não seja pela via do sexo? As indagações assomam na cabeça do espectador e, mais do que tentar entender o que realmente leva Brandon a insistir em pautar seus envolvimentos com parceiros pela volatilidade, é essencial notar o quão devastadora é essa decisão em sua vida e em sua rotina. Ele chega a comprometer seu desempenho no trabalho, levando seu vício para o escritório e reagindo com um desespero quase incontido à retirada temporária de seu computador para manutenção, cujo HD já não suportava mais tantos vírus decorrentes de acessos a páginas pornográficas apócrifas.

Cabe ressaltar que, em nenhum momento, o filme se insere na perspectiva reducionista de “diário de um tarado”. Brandon é humanizado em seu vício, sem que seja levantada uma bandeira contra ou a favor do personagem. Além do mais, o executivo serve eficientemente como tipo de toda uma sociedade vazia e carente de afeto, cuja necessidade de vínculo com outrem é terreno onde ninguém pode pisar. O realizador é dolorosamente feliz em conceber, com Shame, uma crônica urbana contemporânea sobre o vácuo abissal de toda uma geração. É inegável que se viva hoje em uma sociedade que preza o bem-estar particular acima de tudo, que culmina com pessoas amantes de si mesmas, ocupadas com sua própria vaidade e sem tempo para olhar quem lhe está próximo. E, ao olhar, procura no outro o seu próprio reflexo, amando a sua imagem. Brandon é a síntese desse ser humano perdido, carente, inábil e desarraigado de uma estabilidade emocional. Esse é um dos motivos pelos quais Shame nos incomoda tanto. E quem tem e sente afeto e amor duradouro se incomoda por não se conformar em ver alguém tão sem rumo quanto o protagonista do filme.



A grande potência dramática da película se afirma também na devastadora interpretação de Michal Fassbender. O ator é uma escolha acertadíssima para um homem que caminha na tênue fronteira entre o medo e o vazio, evidenciando o talento de um nome que vem se tornando cada vez mais frequente no cinema atual. Ele sela aqui sua segunda parceria consecutiva com McQueen, com quem já havia filmado Fome (Hunger, 2008), e empresta novamente seu corpo para as investigações pungentes do diretor, que não abre mão de ser expositivo em sua perseguição às angústias humanas interiores, que encontram eco na carne viva dos que passam por elas. Há uma cena-chave para o entendimento do profundo desconforto de Brandon com interações com as pessoas que não sejam por meio do sexo: é a sequência em que Sissy (Carey Mulligan), sua irmã mais nova que vai passar um tempo em sua casa, canta, na íntegra, New York, em um timbre afinado e desalentador. Diante da vibração harmônica de suas pregas vocais, uma discreta lágrima mana dos olhos do protagonista, que interrompe o seu percurso para não extravasar sua inabilidade e sua emoção com aquele ambiente e aquela situação. Os dois irmãos são barcos à deriva, cujo naufrágio parece eminente, embora reajam diversamente à mesma falta de carinho genuíno: ele repele quem se aproxima demais; ela persegue quem não está disposto a retribuir tanta dedicação.

Poucos filmes recentes foram tão longe quanto Shame. Sua capacidade de dialogar com a plateia é ampla. Não é preciso ser um viciado em sexo para entender as agruras por que Brandon passa. McQueen dispunha de uma série de possibilidades de canalização da incompletude para abordar, e escolheu a via do sexo muito provavelmente por que ela desperta maior comoção do público em geral. E, com isso, dimensionou o filme para a noção de um petardo dramático, cuja intensidade é muito próxima do real. Em suas tentativas frustradas de encontrar alívio, Brandon se angustia e é angustiado. Quer gozar a paz, e crê que, para isso, precisa gozar repetidamente o prazer sexual, o que o leva ao cansaço, observável em seu rosto numa cena relativamente longa e distorcida de ménage à trois. Seu desespero o conduz a uma espécie de perda de distinção entre os sexos, se isso puder aplacar sua sede de afeto. Seu vagar pelas fontes de prazer é pontuado por uma fotografia cinérea, que maximiza o desconforto com a narrativa. Somos colocados diante da nudez metafórica e denotativa do personagem, despojada de qualquer laivo de glamourização, com a capacidade de excitar drasticamente diluída, evidenciando a dor de quem habita aquele corpo. Shame trata da via crucis do corpo, de uma alma em sofreguidão, deixando seu público desconcertado. Neste mundo mau, nada pode preencher o seu vazio. Nada. Mas você pode encontrar pessoas. _________________

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