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terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Rumando para um mundo insólito em A viagem de Chihiro


A imaginação infantil não tem limites. Aliás, uma das características da imaginação é a total ausência de limites, e isso não é uma exclusividade das crianças. Tanto é verdade que o nome mais importante por trás de A viagem de Chihiro (Sen to Chihiro no kamikakushi, 2001) é o adulto Hayao Miyazaki, pródigo em criar mundos improváveis habitados por seres fantásticos, tal qual uma criança que inventa histórias onde tudo é possível. O resultado é um filme que reúne inúmeras qualidades em si e cujo encantamento se estende para além do público infantil. Na verdade, é um trabalho que dialoga com qualquer plateia, e cuja aparente ingenuidade ou superficialidade traz consigo um discurso rico sobre sentimentos cada vez mais esquecidos na sociedade hodierna.

A personagem-título é uma garota esperta e ajuizada que está de mudança com seus pais para uma nova casa. No caminho para esse ambiente totalmente distinto, os três encontram um local em ruínas, que descobrem se tratar de um parque temático, e aqui surge a primeira inversão de comportamento de personagens da trama. São os pais de Chihiro que ficam interessados em explorar aquelas ruínas, e caminham a esmo pelo amplo espaço que abriga diversos brinquedos em péssimo estado. A garota, por sua vez, é reticente quanto à possibilidade de permanecer naquele lugar. É como se ela fosse a razão e os pais, a emoção naquele momento. Pouco depois, seus pais se fartam de tanto comer, sem o menor respeito pelas barracas de guloseimas (talvez) abandonadas por ali, atitude que a menina reprova. E, de repente, eles se transformam em porcos, e é quando começa, de fato, a viagem da protagonista por um mundo onde a excentricidade tem espaço garantido.

Desesperada para encontrar a resolução de seu problema, Chihiro terá de enfrentar toda sorte de perigos e aventuras, que lhe servirão de lições eficientes de humildade, solicitude e coragem, entre outras virtudes essenciais a qualquer pessoa. Aos poucos, ela vai descobrindo que aquelas ruínas são a habitação de muitos espíritos bizarros, que não podem sequer conceber a presença de uma humana por ali. Quem a ajuda a transitar por aquele ambiente é um garoto chamado Haku, que está no local há um certo tempo e conhece as artimanhas necessárias para sobreviver em meio a seres tão estranhos, hostis e traiçoeiros. Miyazaki se aproveita dessa premissa para lançar mão de imagens estupefacientes e personagens riquíssimos, cujas atitudes, muitas vezes, são diferentes das que esperamos ou supomos. Tal qual na vida real, cheia de pessoas com as quais temos de lidar sempre cautelosamente, pela capacidade que têm de surpreender negativamente. Guiada por Haku até certa medida, ela se infiltra cada vez mais no lugar, que, na verdade, é uma espécie de spa destinado a espíritos cansados, que podem se refestelar com deliciosos banhos. Tudo ali está sob o comando férreo de Yubaba, uma feiticeira que roubou a verdadeira identidade de Haku, da qual ele não se recorda. Aliás, esse é o grande mal que Yubaba faz a ele e a Chihiro: roubando suas identidades, fica mais fácil para ela manipulá-los. A garota passa a se chamar Sen, e precisa trabalhar duro para alcançar seu passaporte de volta para casa.



Todas as etapas por que passa são um aprendizado importante para a protagonista, que demonstra, logo no começo da história, uma postura um tanto voluntariosa. Ela é totalmente contra a mudança de casa, e gostaria de que sua vontade prevalecesse. Viver uma aventura tão mágica e atordoante como essa vai fazer que ela reveja suas atitudes. E aqui reside uma outra bela qualidade do filme: aqui, a infância não é interpretada como uma fase da vida na qual as pessoas são totalmente ingênuas e incapazes de tomar atitudes maduras. E, num aparente paradoxo, Miyazaki trata as crianças como crianças, entendendo suas limitações através de Chihiro e Haku. O diretor sabe lidar com as emoções de seus personagens e demonstra a sua crença no fato de que experiência produz paciência e ensina a encarar situações em que nem tudo está sob o nosso controle. Em meio à composição imagética deslumbrante, o realizador japonês discute temas que vão muito além do universo oriental, estendendo-se para qualquer pessoa.

A viagem de Chihiro canta a liberdade com responsabilidade, a importância de aprender com os reveses, de se colocar humildemente no trato com todos e a aquisição da consciência de que não se tem absoluto controle sobre o estado das coisas. O filme ultrapassa o mero rótulo de entretenimento e se configura como um belo ensaio poético. São vários os temas tocados pelo desenho, um exemplo de produção artesanal de Miyazaki, que faz questão de evitar os megaefeitos computadorizados que também são capazes de embevecer a plateia, mas de uma outra maneira. Em seu currículo, está o merecido Oscar de melhor animação e o Urso de Ouro no Festival de Berlim, reconhecimentos regozijantes para um trabalho de verdadeiro artista. Pontuado por cenas marcantes e por uma trilha sonora de arrepiar, é praticamente impossível resistir ao filme. Os suaves acordes melódicos que acompanham algumas cenas são reflexões profundas sobre os temas que o filme levanta, a traduzem, entre outras coisas, a certeza de que a vida é uma eterna sucessão de chegadas e partidas, bem como de acontecimentos inesperados. Em uma das cenas mais inesquecíveis do filme, que nem chega a acrescentar um dado relevante à narrativa, Chihiro está em um trem onde há alguns espíritos estranhos. Ela não sabe o caminho percorrido pelo veículo, e é atravessada pela expectativa do final da viagem, pela chegada ao seu destino. A cena sintetiza de maneira delicada o quanto a vida é passageira e o quanto não podemos ter certeza do que virá pela frente, constituindo um dos belos simbolismos da obra.

Certamente, A viagem de Chihiro pode ser colocado entre os melhores filmes da animação de sua década, pela sua capacidade de comover a plateia e despertar a cumplicidade pela jornada de um garota como qualquer outra de sua idade, sem poderes especiais ou capacidade extraordinárias. Corajosa, ela desvenda um mundo onde seres humanos não são benvindos, e cresce como pessoa muito antes do que se suporia em condições ditas normais. Em outra cena, importante, destacada por um conceituado crítico de cinema em um livro específico da área, Chihiro, ainda em seu começo naquele ambiente que lhe é hostil, precisa lavar um espírito imundo, tarefa para a qual ninguém do lugar lhe oferece ajuda. A cena é uma das maneiras que Miyazaki tem de abordar a questão da responsabilidade coletiva para a preservação do meio ambiente, um dos vários assuntos tocados pela obra que passa longe do discurso panfletário, de eficiência comprovadamente baixa. É por causa de filmes como esse que o cinema pode ser considerado um verdadeiro espaço artístico, onde estetas se exercitam nobremente e, com maestria, elevam o espírito cinéfilo.

Um comentário:

  1. Esse filme, como todos do Miyazaki, deixa uma impressão imensa em quem assiste. Vc muda, se torno outra.

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