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segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

QUINTETO DE OURO - CLINT EASTWOOD

Nascido Clinton Eastwood Jr. e atualmente na casa do 80 anos, esse realizador, ator e produtor integra a "velha guarda" hollywoodiana e faz por merecer atenção em seus filmes. Um detalhe que logo chama a atenção em sua carreira é a diversidade de gêneros por que passeia. Com exceção da comédia e da ficção científica, Eastwood passeou por estilos diferentes de se contar uma história em tela grande e foi bem-sucedido na maioria delas. E não são poucos os títulos que compõem sua filmografia: até o momento, 37 filmes em um ofício de cineasta iniciado em 1971. Aliás, o foco deste Quinteto de Ouro é no Clint diretor, faceta pela qual costuma ser mais elogiado. Em suas experiências na atuação, muitas vezes é apontado como um intérprete de repertório expressivo reduzido, mas até que seus personagens mais icônicos não dependiam tanto desse tipo de recurso: o Homem sem Nome da trilogia assinada por Sergio Leone, pela qual ele ganhou notoriedade, ainda que já estivesse em atividade desde a década anterior.

No que tange a premiações, ele foi contemplado até poucas vezes, considerando a extensão de sua obra: duas vezes vitorioso no Oscar nas categorias de melhor filme e diretor, por Os imperdoáveis (Unforgiven, 1992) e Menina de ouro (Million dollar baby, 2004), que muitos consideram entre os melhores de sua autoria, além de prêmios no César, algumas vitórias no Globo de Ouro e duas honrarias pelo conjunto da obra recebidas do SAG (Sindicato de Atores de Hollywood) e do Festival de Veneza, onde raramente aparece com um filme. Recebeu um outro tanto de indicações da Academia e muitas vezes perdeu para candidatos igualmente bons, não sendo um diretor com muitas injustiças sofridas no currículo. Até hoje, se arriscou somente uma vez como roteirista: em Por um punhado de dólares (Per un pugno di dollari, 1964), pelo qual não chegou a ser creditado. Com vocês, meus preferidos desse veterano em ordem cronológica.

1. As pontes de Madison (The bridges of Madison County, 1995)


A prova de que por trás daquele semblante sisudo e fechado existe um coração é este filme, um dos vários em que acumulou direção e atuação. Contando uma história sensível de um ponto de vista feminino, ele conduz o público a uma pequena cidade interiorana onde aconteceu um romance marcado pela impossibilidade entre o fotógrafo Robert (o próprio Clint) e a dona de casa Francesca (Meryl Streep). De um encontro que começou por acaso e logo evoluiu para uma paixão avassaladora, ficaram lembranças que Francesca levou para a posteridade, e ambos procuraram aproveitar o tempo que tinham para vivenciar aquele relacionamento fora dos conformes - afinal, Francesca era casada. Mas quem pode realmente atirar pedras? Os filhos, leitores das memórias que ela deixou compartilhada em seu diário, passam a compreender mais sobre a mãe postumamente, em uma narrativa que desvia do sentimentalismo e, ainda assim, é capaz de acessar nossas emoções. Pelo filme, Streep recebeu uma de suas 2o indicações (até agora) ao Oscar, demonstrando habilidade com um sotaque italiano e quase desaparecendo sob a pele de uma mulher absolutamente comum.

2. Sobre meninos e lobos (Mystic river, 2003)


"Acho que nós três entramos naquele carro". A frase, impactante em seu contexto original, é proferida por Dave (Tim Robbins), cujo trauma de infância vem de um episódio em que ele estava com seus dois grandes amigos Jimmy (Sean Penn) e Sean (Kevin Bacon). Levado por alguns homens para o que o público nota ser uma sessão de abusos sexuais - algo que os então meninos só compreenderiam mais tarde - ele nunca mais é o mesmo. Porém, os outros dois garotos, agora crescidos, também não são, e um reencontro depois de décadas expõe essa verdade de uma forma nem um pouco agradável. Baseado no romance de Dennis Lehane, Eastwood filmou um drama de peso sobre laços de amizade e relações fragmentadas com igual intensidade, não economizando nas sombras e na força dos diálogos e atuações de um elenco potente, lembrado pelo SAG na categoria correspondente. No Oscar, Penn e Robbins faturaram suas estatuetas, um reconhecimento justo de papéis com tantas nuances. 

3. Menina de ouro (Million dollar baby, 2004)


Em 2004, Eastwood decidiu ir para os ringues contar a história de mais uma mulher forte, que sabe revidar as pancadas que recebe da vida. A escolhida para viver Maggie foi Hillary Swank, que àquela altura tinha como papel mais importante a protagonista de Meninos não choram (Boys don't cry, 1999), pelo qual tinha conquistado um Oscar. Pois a segunda vitória chegou com esse longa, em que ela faz uma ótima dobradinha com ele também em frente às câmeras, num enredo que mistura força e carinho de maneira exemplar. Inicialmente avesso à ideia de treinar uma mulher, Frankie (Eastwood) é vencido pelo cansaço e se torna o mentor da jovem, que não tem nada a perder. A relação paternal entre eles se desenvolve aos poucos e ainda sobra espaço para um belo coadjuvante vivido por ninguém menos que Morgan Freeman, em seu reencontro com o cineasta 12 anos depois de Os imperdoáveis. Junto com As pontes de Madison, Menina de ouro é um dos filmes de Eastwood em que é mais fácil verter lágrimas, já que a maior pancada sofrida por Maggie também atinge a plateia.

4. Cartas de Iwo Jima (Letters from Iwo Jima, 2006)


A ilha japonesa de areias negras foi o cenário de um dos projetos mais ambiciosos da carreira do diretor. Decidido a mostrar os dois lados do conflito entre Estados Unidos e Japão na Segunda Guerra Mundial, ele filmou a visão ocidental e a oriental, fazendo questão de trabalhar com elenco de nativos em ambos os casos. Os filmes, portanto, são complementares, e os resultados estão entre o ótimo e o excelente, sendo a versão japonesa a detentora do segundo adjetivo. Os problemas "patriotas" do primeiro, por assim dizer, arranham sua imagem, enquanto aqui se observa uma contenção e um olhar compreensivo sobre a tragédia da guerra, expressão que deveria ser considerada o exemplo magno de pleonasmo. As tais cartas do título continham revelações sobre o foi a batalha ocorrida na ilha do título, um confronto de 40 dias em que estadunidenses atacavam pela pátria e japoneses eram movidos pelo conceito de "morte honrosa". A fotografia cinzenta e a edição de som que capta o reverberar das bombas e demais armas são detalhes técnicos marcantes nessa história sobre a História.

5. Gran Torino (idem, 2008)


Mais abusado do que nunca, em Gran Torino Eastwood não apenas dirigiu e atuou, mas também produziu e até cantou. Seu protagonista Walt Kowalski segue como seu último papel em filme próprio, e se permanecer assim é uma despedida bem digna. A bem da verdade, correlacionando a persona que ele cultivou em seus longas e também nos de outros diretores, fica uma forte impressão de que existe muito dele mesmo em Walt. Apresentado como um sujeito intratável, mal humorado e nem um pouco comprometido com a correção política, ele vai aos poucos redimensionando o seu olhar depois que começa a conviver com vizinhos imigrantes oriundos do Laos. Veterano da Guerra da Coreia, ele endureceu a tal ponto que se transformou em um misantropo, e somente a paciência e a bondade daquelas novas pessoas consegue causar algum efeito nele. É bom reforçar que o diretor nunca opta pelo drama choroso: é como se ele fosse uma daquelas pessoas que, ao ver alguém em lágrimas, diz-lhe poucas e boas e as palavras, em vez de colocar para baixo, levantam o moral, num belo exemplo de psicologia reversa.

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