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domingo, 24 de abril de 2016

Truman e o privilégio de uma amizade incondicional

Amizade e morte, em uma primeira análise, mostram-se como tópicos antagônicos. Entretanto, ambas podem caminhar lado a lado, gerando uma combinação triste, mas não muito rara na vida. Ao se basear nelas, Cesc Gay poderia ter feito de Truman (idem, 2015) um filme triste e deprimente, mas não deixou que isso acontecesse graças à sua habilidade como roteirista (função que divide com Tomás Aragay) e diretor, que vão se mostrando com o avançar do longa. A trama segue os passos de Tomás (Javier Cámara), um homem casado e pai de dois filhos, nascido na Espanha e radicado no Canadá. A parte da amizade se revela quando ele deixa a neve então abundante do local em que escolheu fixar residência para atravessar o oceano para visitar Julián (Ricardo Darín). Assim, de volta à sua Espanha natal, ele procura fazer companhia ao amigo de longa data que, depois de ter travado uma árdua batalha de meses contra um câncer no pulmão, decidiu abdicar do tratamento; aí está a parte da morte. 

É bem verdade que a premissa de Truman já foi usada e reciclada inúmeras vezes não somente no Cinema, mas nas artes em geral. Houve quem postulasse que todas as histórias, no fim das contas, são sobre amor e morte. E aqui também existe muito amor: amor de amigos, que trocam carinhos e palavras carinhosas, que se abraçam e têm intimidade suficiente até para chamar um ao outro de idiota, sobretudo naqueles dias em que as coisas não vão muito bem e acabamos por nos exceder no mau humor, mas o amigo entende que tal reação é coisa de momento e logo tudo passa. A amizade é maior do que as pequenezas e as mazelas a que todos nós somos suscetíveis. Não conhecemos muito da vida pregressa de Julián e Tomás, porém o que vem à tona é suficiente para saber que eles estreitaram bastante os laços. A insistência de Paula (Dolores Fonzi), prima de Julián, contribui para que Tomás visite o amigo e, ao longo de quatro dias, eles vão tentar desfrutar ao máximo da companhia um do outro.

Mas e Truman? Quem é o personagem que dá título ao filme? É o cachorro de Julián, que tem sido seu fiel companheiro nos últimos anos, depois do divórcio e da partida do filho para a Holanda - aliás, é curioso notar que três personagens vivem fora de sua pátria. E o único objetivo de vida de Julián a essa altura é encontrar um lar seguro e amoroso para o cão, que já está com a idade um pouco avançada, e não interessa à maioria das pessoas, que preferem adotar filhotes. Quieto e obediente, ele observa o anoitecer voluntário do seu dono, enquanto Tomás procura demovê-lo da decisão de abandonar o tratamento. O papel é defendido com delicadeza e maturidade por Cámara, um queridinho de Pedro Almodóvar, que costuma lhe entregar personagens homossexuais, como em Tudo sobre minha mãe (Todo sobre mi madre, 1999) e no escrachado Os amantes passageiros (Los amantes pasajeros, 2013). 


Tomás é aquele amigo que todos nós gostaríamos de ter: ainda que tenha passado os últimos anos longe, quando está presente é um bom ouvinte e demonstra toda a generosidade possível - sabendo que o amigo está praticamente falido, não se incomoda em pagar as despesas a cada almoço ou passeio. Sua atuação contida e eficaz foi premiada com o Goya de melhor ator coadjuvante. O filme também levou a melhor nas categorias de roteiro original, ator, filme e diretor: cinco vitórias de seis indicações. Para além de aspectos técnicos, o que encanta em Truman é sua humanidade. Gay parte de uma situação bastante plausível e foge aos esquemas emocionalistas, tanto de texto quanto de trilha sonora (este último, uma mania hollywoodiana; seria possível listar uma penca de títulos com tal defeito), preferindo investir nos olhares e nos gestos que compõem uma amizade, mas também deixa espaço para lindos diálogos. 

Em determinado momento da história, Tomás comenta que tem a sensação de que eles falaram bem pouco no período juntos, mas como espectadores nós testemunhamos vários desabafos e lembranças compartilhadas verbalmente. O que ele sente é o que nós também sentimos com nossos amigos: estar com eles nos deixa tão felizes que, por mais tempo que passemos juntos, a impressão é de que tudo passou rápido demais e ainda poderíamos levar mais um longo tempo conversando, fazendo qualquer coisa com eles ou mesmo desfrutando de um silêncio que não incomoda nem constrange, aquele mesmo que Mia Wallace (Uma Thurman) buscava em Pulp fiction (idem, 1994). Quem não quer um amigo assim? E eles confessam um ao outro o que os anos de amizade ensinaram: Julián destaca a generosidade de Tomás, que vemos ser demonstrada muitas vezes ao longo daqueles quatro dias, enquanto Tomás sublinha a capacidade que Julián tem de lutar; a doença não o deixou abatido.

Se Cámara é um excelente coadjuvante, Darín não faz por menos como protagonista. Requisitadíssimo no cinema argentino há alguns anos, ele atenua seu sotaque daquele país e oferece mais um tipo que poderia facilmente cruzar nosso caminho. Tem um monte de erros dos quais se arrepende, como a traição a um grande amigo com a mulher dele, mas depõe a seu favor a sinceridade e a transparência com que lida com os fatos da vida: a essa altura do campeonato, se dá ao luxo de pular a firulas e assumir o que pensa e sente com mais facilidade, e sobra até para Tomás. A essa honestidade se junta o charme de seus olhos claros e cabelos grisalhos, e temos um homem com virtudes e defeitos valorizando os laços sentimentais, a única coisa que importa nessa reta final de vida. Com sua pegada mansa e amorosa, Truman deixa a certeza de que pessoas vêm e vão, mas grandes amigos a gente carrega para além das circunstâncias. Privilegiados são aqueles que contam com uma amizade incondicional.

9/10

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