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sábado, 11 de junho de 2011

Flores partidas e a força dos laços sanguíneos


Sob a batuta de Jim Jarmusch, surge um novo exemplar de filme sobre relacionamento familiar, cujo título já transmite uma ideia de desolação: Flores partidas (Broken flowers, 2005). O filme é a oportunidade de acompanhar Bill Murray em mais um grande papel, à semelhança do que se pôde verificar dele em Encontros e desencontros (Lost in translation, 2003). Neste trabalho, ele dá vida a Don Johnston, um conquistador inveterado que não abre mão de sua privacidade, o que, em seu caso, rima com solidão. Quando o filme começa, ele está sendo abandonado por mais uma namorada, algo que não lhe causa a menor comoção. Sua rotina monótona de conquistas sequenciais e etéreas só parece ser sacudida quando do recebimento de um misterioso envelope rosa, que porta a informação de que ele tem um filho de 19 anos, ao qual deve conhecer. A partir de então, o empenho do personagem passa a ser descobrir quem, dentro de seu extenso currículo amoroso, é a autora daquela mensagem. E seu amigo e vizinho Winston (Jeffrey Wright) o convence a tomar partido daquela história e a sair em busca de seu rebento e daquela ex-namorada que entrou em contato.
Com base nesse argumento, Jarmusch vai moldando um filme que guarda semelhança temática com Estrela solitária (Don’t come knocking, 2005), do realizador alemão Wim Wenders, do qual é contemporâneo. Assim como este, Flores partidas se propõe a tratar dos interstícios do relacionamento paterno, que pode ocorrer tantas vezes aos sobressaltos. Mas cada qual desenvolve um mesmo assunto por vias distintas. Se Wenders lançou mão da abordagem mais prototipicamente dramática, Jarmusch optou por conduzir seu longa-metragem em tom de comédia, mas daquelas de que se sorri com discrição e parcimônia, o que traz à memória outro filme protagonizado pelo mesmo Murray que segue uma cartilha semelhante: A vida marinha com Steve Zissou (The life aquatic with Steve Zissou, 2004). Neste último, Murray deu vida a um homem de humor obtuso, sem grandes pretensões diante da vida e movido por um único e simples desejo e vingança. Feitas as associações mais imediatas, cabe a observação. São três filmes rodados sequencialmente (Encontros e desencontros, A vida marinha com Steve Zissou e Flores partidas), mas, mesmo com três papéis tão parecidos Murray assinala suas dissonâncias com discretos charme e talento.
No caso do filme analisado aqui, a jornada “semiexistencial”, por assim dizer, de Don começa quando ele parte em busca de várias de suas ex-namoradas para recolher pistas que o levem a solucionar aquele que passa a ser o mistério da sua vida. Entretanto, sua busca não é feita com empenho, e cada novo encontro do protagonista com mulheres que lhe atravessaram o caminho em algum momento é, em última instância, a possibilidade de novamente concretizar um fugaz enlace amoroso. O reencontro de Don com seu passado, metaforizado e metonimizado na figuras de suas ex-namoradas, também é a deixa para o desfile de atrizes talentosas na tela. Julie Delpy, Chlöe Sevigny, Sharon Stone, Jessica Lange e Tilda Swinton aparecem, cada uma a seu tempo, para encher a tela de beleza e encanto. Todas elas têm alguma ligação com o passado ou com o presente de Don, e ajudam a compor o quadro de uma lida esmorecida com a existência adotada pelo personagem. O protagonista é assinalado por uma expressão blasé que o acompanha aonde quer que ele vá, e sua caracterização como alguém descolado de uma convivência diária com outrem. É como uma pessoa que vive um dia após o outro sem se preocupar com o que haverá de ser, apenas em seguir. Em seu encontro com a personagem de Sharon Stone, fica clara a entrega da atriz ao papel, imprimindo vivacidade no seu pouco tempo de permanência em cena. É louvável acompanhar o desempenho desenvolto de Stone em alguns minutos que sejam, especialmente se se considera suas derrapadas no cinema, ocorridas em um passado recente.



Flores partidas é um filme que se destaca pelo poder de concisão. Jarmusch foge ao exercício verborrágico, preferindo se concentrar no percurso acidentado dee seu protagonista pelas estradas multidirecionais de sua trajetória. É por meio de seu longo currículo de conquistas que algumas das arestas de sua vida vão sendo expostas, muitas das quais ele não se esforça para podar. Antes de mais nada, a obra é a junção de dois artistas do minimalismo. De um lado, está a economia narrativa do diretor. Do outro, a performance de um ator que entrega dados preciosos de sua expressão em palavras não ditas e em pequenos gestos contidos. Esse é um daqueles filmes em que se vislumbra um certo niilismo que permeia parte das relações interpessoais. A condução da trama pode soar fria e distante em muitos momentos, mas cabe ressaltar que esse aspecto é intencional e eficiente para seu andamento, pois acaba incomodando quem está do outro lado da tela e servir como uma sacudidela para o rompimento da monotonia. Não é um filme que apresente mais ou menos do que deveria, mas que se resigna a apresentar o bastante para ser acompanhado. Trata-se da segunda parceria entre Murray e Jarmusch, que foi iniciada com Sobre café e cigarros (Coffee and cigarettes, 2003). Entretanto, tem gosto de estreia, pois é o primeiro longa-metragem em que eles trabalham juntos.
Enquanto dura sua projeção, Flores partidas pesa a falta de comunicação, a necessidade de se criar laços para se ter um ponto de identificação no mundo e a volatilidade que perpassa os encontros entre pessoas que estão relacionadas pelos mais diversos modos de estruturação. O filme discute a paternidade sob um viés pouco ortodoxo, ao mesmo tempo em que se desvia desse foco em alguns momentos para estender sua análise para a real condição humana. Don Johnston reafirma a cada passo a sua condição de andejo, da qual não parece querer abrir mão, e sente que a escolha por um apego duradouro a alguém – especificamente um filho – lhe pode ser lancinante. Com um roteiro que oscila entre as abordagens cômica e dramática, assinado também por Jarmusch, o filme também é guarnecido de frestas pelas quais o realizador espia o tédio que tomou de assalto a contemporaneidade, com um estilo de filmagem discreto e simples, que valoriza sobretudo os desempenhos de atores que servem a seus papéis de cara limpa. Sem se preocupar em ser didático ou escancarado, o diretor abarca o ordinário de forma sensacional, comprovando que seu cinema é feito principalmente da utilização de gretas.

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